Revival de The X-Files retorna para continuar a destruição de um legado que não merecia tanto desrespeito.
Alguns showrunners de vez em quando acreditam ter encontrado a melhor das musas. E essas musas lhe sopram nos ouvidos aquela ideia que é considerada por eles como a “ideia que muda tudo”. Às vezes a ideia muda tudo mesmo, mas às vezes ela só atrapalha o andamento das coisas, porque ideias que são consideradas muito geniais também costumam gerar uma incapacidade de auto-crítica. Elas resultam em mudanças drásticas de planejamento, renúncias e reviravoltas esdrúxulas e muitas vezes resultam numa profunda obsessão do criador com determinadas criaturas.
Agora podemos dizer que a obsessão de Chris Carter é o Canceroso. Lá no piloto do show, o personagem aparece em vários episódios sem dizer uma palavra, só fumando e pouco a pouco, foi se revelando um personagem-chave para os eventos da conspiração. Carter torrou nossa paciência muitas vezes com as “mortes falsas” do sujeito, mas chegou ao apogeu do ridículo quando trouxe-o de volta após a explosão do último ano que literalmente mostrou o esqueleto de seu rosto diante dos nossos olhos. E mais de uma vez o showrunner declarou que aquela tinha sido a morte definitiva, só para depois mudar de ideia a respeito quando o revival foi anunciado.
Isso tem implicações, claro. Trazer o “vilão” de volta significava precisar encaixá-lo dentro do enredo planejado para a série. O problema é que ele é um ícone que remonta à mitologia antiga, que já foi resolvida e se vamos começar a contar uma nova história, precisamos entender qual o papel desse ícone nela. Então, Carter tinha dois caminhos: focar no que é relevante para o mundo agora e reconstruir as perspectivas dramáticas; ou fuçar a mitologia original em busca de um recurso que tornasse possível a inserção do Canceroso no plano atual. Carter escolheu a segunda opção, insistiu na importância de um personagem já ultrapassado e para reforçar que ele é relevante, fuxicou a mitologia e começou a bagunçá-la de formas perigosas e nocivas.
Who Cares?
My Struggle III entra na categoria de títulos que transformam premieres ou season finales em trilogias. Isso antigamente costumava significar coisas grandes para a trama, mas agora a sensação é de que o título deveria ser Our Struggle. Assim que o episódio começa com o Canceroso dando um monólogo a atmosfera de erro nos envolve com força total. Chega a ser um pouco triste, como seria ver alguém que viveu grandes momentos, tentando reproduzi-los em exatidão pelo resto da vida. O Canceroso não tem mais nenhuma importância, ninguém mais se importa com ele, ele não é um super-vilão e agir como se a presença dele na temporada fosse grande coisa é patético.
Ao escrever e dirigir o episódio, Carter não se priva de parecer um adolescente ansioso para enquadrar todos os símbolos da própria obra em 42 minutos de ação. Ele quer fazer tudo de uma vez: quer o Canceroso conspirando, quer Scully numa cama de hospital o tempo todo para que Mulder pareça com medo de perdê-la, quer absurdos “sinais” aparecendo até em tomografias, quer Skinner – depois de ANOS – ainda parecendo suspeito para Mulder, quer vírus, quer as palavras “verdade” e “respostas” aparecendo a cada duas frases, quer perseguição, quer contemplação, quer tudo e tudo o mais que possa conseguir para mostrar ao público que ele ainda sabe fazer. Mas, definitivamente, ele não sabe.

Me senti pessoalmente ofendido pela solução mequetrefe para resolver os eventos da finale passada. A ideia de fazer com que tudo tivesse sido uma “visão” de Scully coloca o show num balaio de imbecilidades onde estão soap operas que jamais imaginaram que teriam alguma coisa em comum com The X-Files algum dia. E o circo continua… Uma hora o Canceroso sempre protegia o Mulder, agora quer matar o Mulder. O Canceroso quer um lugar nos eventos conspiratórios principais, mas também quer exterminar a raça humana (e continuará sem poder dominar ninguém). Os alienígenas antes queriam uma parceria com os homens, depois queriam dominar tudo sozinhos, agora não estão nem aí se os homens existirão ou não. Carter atira em todas as direções, aprisionado em vícios dramatúrgicos que ficaram no passado, incapaz de compreender como seriam Mulder e Scully numa era onde conspirações alienígenas não impressionam mais ninguém.
A cereja venenosa do bolo veio no “incrível plot twist” que revela as dúvidas sobre a paternidade de William. Aquilo é errado em tantos níveis que nem sei por onde começar. Primeiro porque coloca Scully numa posição de moléstia que não condiz com o legado da personagem. Segundo que na época a série se construiu para revelar, num importante episódio do nono ano, que Scully e Mulder transaram no episódio Todas as Coisas e que a paternidade de William era categórica e irrevogável do ponto de vista textual. Se Carter passa a mudar tudo só usando a desculpa de que o que foi dito antes era “uma das mentiras”, não há como confiar em mais NADA que a série diz, inclusive nesse caso, em que o Canceroso pode estar só mentindo. Ou seja, estamos diante de uma série que sofre de uma abundante compulsão pela mentira.
É importante estabelecer um território sacro, uma cadeia de eventos que não poderá ser afetada jamais, porque os fãs, os espectadores, precisam saber que embora haja reviravoltas e surpresas, aquele território está a salvo e pode ser uma zona segura para onde todos correrão. Carter começou a mexer nesse território, começou a atingir a integridade da série de modos grosseiros, e o pior: apenas pelo choque. Essa virada sobre o Canceroso ser o pai de William não tem NENHUMA razão que não seja o fetiche de Carter pelo personagem e seu esforço em justificá-lo nesse revival. É ridículo, constrangedor, grosseiro e beira a misoginia. The X-Files não merecia.
Agora começa a leva grande de monstros da semana que podem conseguir aliviar a diarreia criativa do show. Sem compromisso com a mitologia, pode ser que bons roteiros se escondam nas sombras provocadas por essa nova trama central. Considerando que os episódios procedurais do décimo ano não foram bons (com exceção do episódio 3), a previsão é de que The X-Files chegue ao fundo do poço, arranhando sua reputação de formas lamentavelmente definitivas.
Forever Excer (not so much): Eu tive que rir de Jeffrey Spender aparecendo com um rosto transplantado que é igual ao que ele tinha antes. É muita palhaçada, senhores.
Forever Excer (not so much) 2: Que pena da Annabeth Gish.
Forever Excer (not so much) 3: O jogo de palavras feito na frase de abertura foi bem legal. Pena que esse senso de originalidade não se sustenta além dela.






















