Quando um problema é jogado no lixo ele não vira responsabilidade da lixeira.
Um dos chavões literários mais poderosos dessa nossa idade contemporânea é aquele que diz que você é responsável por aquilo que cativa. Assim como com todo clichê, ele é cheio de verdades conhecidas. A forma como seduzimos, conquistamos algo ou alguém é nossa inteira responsabilidade. É categórico e também ligeiramente trágico, já que a única forma de não se responsabilizar por nada é vivendo em reclusão absoluta, longe de qualquer chance de interpessoalidade.
Essa mencionada famosa frase é constantemente usada para falar de corações partidos. Há poucos exemplos onde a máxima se aplica a questões mais ambíguas, onde o malefício do abandono não está evidente. Aliás, é geralmente nos gestos de sacrifício que residem as maiores possibilidades de irresponsabilidade partilhada. Será mesmo que existe algo de bom no ato do abandono? Será que se é abandono já não acaba sendo um grande ato de irresponsabilidade?
Home Again surgiu para os eXcers como uma síntese dessas respostas. O quarto episódio da décima temporada do show chegou a ser especulado como uma continuação de Home, do quarto ano, o que foi desmentido logo depois. A pressa em desmentir se justifica agora que vimos o episódio, que foi muito mais próximo de Kaddish (também do quarto ano) ou do monstro tulpa visto no ano seis, em Arcadia, do que do aclamado quase homônimo. De fato, não há nem uma ligeira semelhança entre os dois.
Home Again parte de um princípio mítico que já foi abordado na série antes. Em Kaddish, conhecemos a história de um golem, uma criatura saída de lendas judaicas, que feita a partir de material inanimado, é conduzida pela vontade de seu criador. O mesmo para o monstro tulpa (da tradição tibetana) que eliminava moradores de um condomínio se eles não seguissem as regras. A criatura que vimos em Home Again não é exatamente o golem judaico ou mesmo o tulpa tibetano (o que Mulder faz questão de frisar), mas a forma como ela é originada é bastante semelhante. O que o roteirista fez foi criar uma analogia que possibilitasse a ação da criatura a partir de uma ligação entre a arte e o abandono. O “golem” da vez garantia a moradia dos que não tinham um lar.
Espertamente, o roteiro providenciou uma relação emocional entre o caso e Scully, porque, definitivamente, o plot “monstro-da-semana” dessa semana não estava sendo sustentando com bases seguras como as do monstro da semana passada, que embora conduzido com comédia, metaforizava com novas ideias e não com reciclagens do passado. Inclusive, a série sempre ofereceu o mínimo de explicações para seus enredos fantásticos e dessa vez a frouxidão de argumentos era visível. Por isso, todo o drama focado em Scully e sua mãe protegeu o episódio de uma possível irrelevância (principalmente perante o público antigo, que já conhecia a mitologia dos seres).
Foram de Scully os melhores momentos da semana, sem dúvida nenhuma. É interessante ver como a relação dela com Mulder se exibe com certa leveza, ainda que um passado monstruoso espreite os dois. Home Again foi um episódio cheio de pequenos flashbacks de momentos emblemáticos, todos eles ligados a quanto a fronteira da morte em Por Um Fio (segunda temporada) fortaleceu os laços entre os agentes e a quanto o sacrifício de William assombra Dana. Enquanto vigia e precisa aceitar a partida da mãe, Scully (e uma Gillian Anderson cada vez mais poderosa) faz um mea culpa sobre sua mais devastadora decisão.
Tudo foi bastante calculado. O quase nunca mencionado Charles Scully foi usado no roteiro para fazer a ponte entre Dana e a mãe. O irmão mais novo da agente desaparecera por anos e no momento mais crítico de sua saúde, a Sra. Scully chamou por ele, porque ele era o único que ela não sabia como estava. Isso atinge Dana profundamente, já que numa proporção diferente, a distância entre ela e seu filho determinam uma vida e uma possível morte sem que possa haver nem mesmo um telefonema final.
É apenas no momento em que os agentes confrontam o Lixeiro, quando as lembranças de Scully ficam mais vívidas, que a conexão entre os enredos se força demais. Está evidente que Dana passa a questionar o sacrifício feito pela segurança do filho, quando o suspeito começa a monologar sobre como a responsabilidade não pode ser transferida. Se você se livra de um problema que é sua responsabilidade, se torna tão ruim quanto aqueles que foram ruins com você. Assim como os moradores de rua não podem ser apenas transferidos de acordo com a petulância urbana, uma vida vulnerável não pode ser privada do seu caminho original apenas porque os responsáveis “não querem ter trabalho”.
O problema é que nem tudo é preto e branco. Compreendo a forma como Scully se cobra demais e acaba seguindo essa lógica punitiva. Mas, a coisa toda é mais complexa que simplesmente achar que o menino era sua responsabilidade e não podia ser “jogado na lixeira”. Havia outras questões ali e sinto como se o episódio tivesse tido problemas em diferenciar a forma como ela vê a situação da forma como a situação é. Claro que talvez não seja essa a intenção… Deixar coisas claras. Essa foi a semana da falta de clareza.
Enfim, com mais um episódio jogando as perguntas sobre William na roda, seria bem anti-climático se o season finale não mostrasse onde anda esse menino. Sobretudo se não houver uma conversa sobre mais uma temporada e esses seis episódios forem tudo que temos. Acho que no mesmo espírito moderno de não afundar Mulder e Scully numa relação introvertida mais uma vez, também deviam evitar o estabelecimento de uma busca que não tem tempo de ser incessante.
Forever Excer: Imagens do nascimento de William rolaram no episódio e quem não viu e não fez maratona devia pegar pelo menos esse episódio pra ver. É o último do oitavo ano e pode ser bom para quem quer sentir a expectativa aumentar. Passem depois em “William” do nono ano e vejam como a adoção do menino foi decidida.
Forever Excer 2: Bom ver a Sra. Scully de volta. Pena que somente para nos despedirmos dela para sempre. Agora, Mulder e Scully são oficialmente órfãos de pai e mãe (e sim, pra mim o pai de Mulder era o Bill e pronto).
Forever Excer 3: O tal do Homem do BandAid no Nariz é um ótimo monstro pra galeria do show. Mas, como raios ele conseguia aquele caminhão?
Forever Excer 4: Esse episódio foi filmado para ser o episódio 2, mas Carter sugeriu várias mudanças de ordem para ajudar a esclarecer pontos sobre a adoção de William.
Forever Excer 5: E o deboche de colocar Downtown pra tocar justamente na hora de um crime a favor do que supostamente “enfeia” a paisagem urbana? Esse momento, aliás, foi pra mim a única conexão com Home, da quarta temporada, quando um grande assassinato também foi cometido com um clássico tocando ao fundo.
















