Uma temporada difícil de engrenar. 

Todo reality show tem seus altos e baixos. Quem acompanha desde Survivor até RuPaul’s Drag Race sabe que nem sempre as expectativas de um cast bom e plots e twists animadores são atendidas. Nos dois últimos anos, o X Factor Australia viveu sua maior “alta” e, para muitos fãs, foi uma válvula de escape fundamental para compensar a fase “baixa” da versão britânica e a vala que era a versão norte-americana. Infelizmente, esse ano a história vai se desenhando de maneira diferente.

Isso se deve a uma sucessão de coisas que parecem ter saído fora dos eixos. Dannii dá sinais de que havia um bom motivo para que ela não mentorasse os grupos nos cinco anos em que participou da bancada do X Factor. Ela se apoia no apoio popular dado a um de seus protegidos e não consegue acertar a mão com os outros, e o resultado disso foi a perda de dois acts logo de cara. Ronan não traçou até agora um caminho consistente para nenhuma de suas pupilas e todas elas vem transitando um caminho mediano. Natalie, por sua vez, começou sua jornada rumo à destruição do amor do reviewer por ela lá nas Home Visits, e não tem mudado muita coisa desde então.

No meio desse mar de erros, Redfoo segue sendo a grande surpresa, fazendo um trabalho muito competente na maioria das vezes e tendo o melhor time no conjunto geral.

Nessa semana o tema foi “Desafio das Décadas” e foi atribuído um período para cada mentor/categoria. A divisão foi coerente, visto que as mais recentes (90’s e NOW) foram dadas para as categorias que já levam uma desvantagem natural se ficassem com músicas mais antigas (grupos e overs, respectivamente), e os anos 80 e 70 ficaram para os garotos e as garotas.

Vamos conferir então como foi o desempenho de cada act em mais uma semana bem mediana de apresentações, mas com aqueles candidatos X e Y que estão tornando não tão dolorosa a tarefa de prosseguir acompanhando essa temporada.

Brothers 3 – “Happy Birthday Helen” (Things of Stone and Wood)

Achei ótimo esses meninos fazerem algo fora do casulo, mais animadinho, ajudou bastante o público a não cair no sono logo na primeira apresentação. É aquela coisa… individualmente nenhum deles tem uma voz incrível, mas as harmonias são tão on point que é até injusto não elogiá-las. E apesar de eu não entender como, esses meninos estão bombando mesmo no iTunes australiano.

Caitlyn Shadbolt – “Is She Really Going Out With Him?” (Joe Jackson)


Considero Caitlyn o act mais difícil de avaliar nessa temporada porque é simplesmente impossível odiar essa menina. Mas sejamos justos: não foi uma performance memorável e tampouco sem defeitos. Principalmente na parte imediatamente após o primeiro refrão Caitlyn teve dificuldades nos registros mais baixos, e eu não sei se aquilo antes do último refrão foi uma tentativa de high note, mas se foi, não funcionou. Ronan, assim como na primeira semana, errou no staging e na escolha de música, mas o conjunto da apresentação se torna bem mais agradável por um motivo que não canso de repetir: Caitlyn é uma estrela nata, mesmo não tendo uma grande extensão vocal. Mas está faltando para ela um momento “Over You”, algo para alçá-la de vez na competição, porque até então está tudo muito linear. Vale destacar Dannii que, mesmo sendo a pior mentora da temporada até então, fez uma crítica justíssima: a pupila de Ronan precisa variar mais na sua expressão corporal e não sempre transparecer tanta felicidade e ingenuidade através de seus movimentos, lembrando até às vezes a irritante Rion Paige do XF US. Mas para isso é preciso que Ronan capriche um pouco mais nas song choices, porque “Is She Really Going Out With Him?” foi praticamente um bis de “Days Go By”.

Rochelle Pitt – “Nothing’s Real But Love” (Rebecca Ferguson)

E tome tapa na cara vindo de Redfoo quando, ao invés daquele catálogo clichê de divas, ele seleciona essa música maravilhosa de uma das melhores participantes da história do X Factor! Não poderia haver uma escolha mais perfeita para Rochelle, que conseguiu imprimir seus bons vocais sem exagerar muito, alternar sua entonação e fazer uma interpretação toda sua, diferenciando-se da intérprete original sem descaracterizar ou prejudicar o sentido e a beleza da canção. Acerto cheio também no staging, onde saíram os dançarinos cabaret, os vestidos brilhantes, e tudo deu lugar à simplicidade, e com o bom gosto de não colocar coral (e olha que essa música dava uma grande brecha para isso!). Melhor performance de Rochelle em toda a competição, e é essa a linha de “diva” que ela deve seguir, totalmente diferente daquela bagunça de “Addicted To You”.

Tee – “I Knew You Were Waiting (For Me)” (Aretha Franklin & George Michael)

Tee fez o que se dava para esperar de Tee cantando uma música dos anos 80. Bonitinho o esforço dele em tentar ser fresh & current, mas não rolou dessa vez. E essa babação de ovo exageradíssima ao final da performance foi irritante.

Sydnee Carter – “Video Killed the Radio Star” (The Buggles)

Se não conhecesse a trajetória de Sydnee no programa, alguém me mostrasse esse vídeo e dissesse que se tratava de uma senhorinha de 50 e poucos anos, eu teria acreditado. No mais, não sei se é questão de gosto pessoal, mas não vi nessa performance um grande avanço para as demais. Foi praticamente a mesma coisa que a primeira semana, com a diferença de que dessa vez houve uma mudança efetiva no arranjo da música. Não senti essa mesma mágica da audição de Sydnee que os jurados sentiram, mas talvez seja porque ela me saturou muito rápido. De qualquer maneira, foi a melhor de Sydnee até esse ponto.

Adrien Nookadu – “I Just Can’t Stop Loving You” (Michael Jackson feat. Siedah Garrett)

Natalie tirou a única coisa que estava minimamente interessante em Adrien, que eram as coreografias, e sobrou isso aí, um cantorzinho genérico, boring até o último fio do longo cabelo. Parabéns ao Adrien por conseguir ser pior e mais cafona que o Tee!

XOX – “Groove Is In the Heart” (Deee-Lite)

A performance começou errada com a Avulsa cantando “We’re going to dance and have some fun” com a empolgação de quem está tomando um copo de chá de boldo. Começo a me arrepender de ter falado que gostaria de ouvi-la com mais solos e achar que talvez seja melhor que ela seja o novo Louis do One Direction e fique ali só para fazer número no grupo mesmo. Depois ficou um pouquinho pior quando revelaram o figurino feito de fita para isolamento de área. As meninas estavam lindas, mas só do pescoço para cima – com exceção de Nada que estava com aquele cap aleatório. Ponto positivo para a modernizada que deram na música e para a inserção do rap, que funcionou bem. Se aproximou mais do impacto da primeira semana do que o desastre do live show 2, mas ainda falta consistência nesse grupo.

Dean Ray – “Reckless” (Australian Crawl)

Dean fechou a trindade de boys sendo ruins na noite, Natalie conseguiu “superar” minhas expectativas. Na verdade não chegou a ser exatamente ruim, apenas boring as hell. Há uma diferença imensa entre Dean e outros cantores que seguem esse estilo, com apenas sua violinha e sua voz: a diferença é que Dean tem o carisma de um cacto.  E por isso tenho uma dificuldade imensa de me envolver nas performances dele assim, mais cruas. E por incrível que pareça, mesmo essa performance parecendo ter 50 minutos de tão arrastada, Dean ainda segue sendo de longe o melhor da categoria da Natalie.

Reigan Derry – “Chandelier” (Sia)

Concordo com a Natalie ao dizer que está na hora de Reigan aparecer um pouco mais “nua” no palco, sem toda essa parafernalha de decoração e luzes. Mas Reigan já provou ser o tipo de candidata que não dá nem para reclamar muito quando ela faz uma coisa dessas com uma song choice que poderia ser desastrosa como “Chandelier”. Em primeiro lugar, obviamente, por ser uma música dificílima de cantar, tanto pela extensão das notas que ela exige quanto pela carga emocional que carrega. Segundo, por ser daquele tipo de canção em que é praticamente impossível superar a intérprete original na sua execução. E Reigan ainda tinha na sua sombra uma Sabrina Batshon, que na terceira temporada do The Voice Australia mandou muito bem com esse hit. Jamais seria herege de dizer que Reigan foi melhor que Sia, mas apesar de muito boa, não chegou a ser nem melhor que Sabrina – embora tenha passado perto. A pupila de Foo nunca precisou de vocais de apoio volumosos, mas eles foram erroneamente usados, quando eu queria muito ter ouvido a inflexão rasgada da voz de Reigan mais crua, e esse talvez tenha sido o motivo pelo qual considero essa a apresentação mais fraca da competidora até agora – que mesmo assim é melhor que todas as performances de todos os outros. Tirando essa pequena imperfeição, todo o resto estava ali: o carisma, a beleza, a presença de palco monstruosa e esses vocais deliciosos. Será que vai ficar chato se Reigan seguir humilhando a concorrência desse jeito até o fim do programa?

Marlisa Punzalan – “Hopelessly Devoted To You” (Olivia Newton-John)

Depois de ter um potencial “momento da competição” sendo jogado pelo ralo na semana passada, fiquei feliz de ver Marlisa voltando em boa forma e fazendo sua melhor apresentação nos live shows até aqui (não que isso fosse muito difícil com um histórico “All By Myself” + gripe). Acho que Ronan conseguiu extrair algo muito bom considerando a relação idade da música x idade da candidata. Ficou uma coisa natural, fofa, agradável de assistir, sem forçar a barra e, claro, os vocais da garota ajudam muito, porque são bem dosados e afinadíssimos. Não é uma versão que eu compraria, mas para o nível da competição até então ficou acima da média.

Jason Heerah – “Runaway Baby” (Bruno Mars)

Não acredito que Redfoo deixou passar a chance de ouro de dar Sam Smith para o Jason e ainda de quebra variar um pouco do que seu pupilo fez nas duas primeiras semanas. E isso para dar Bruno Fucking Mars, não aceito! Pelo menos Jason é muito bom dentro desse segmento, a energia que ele coloca nas suas apresentações e o prazer genuíno por estar no palco que ele passa são impressionantes. Foi bem legal, mas poderia ter sido ainda melhor com uma escolha de música decente.

Com a competição se afunilando, vai ficando mais difícil prever os bottons. Como Caitlyn foi a segunda a se apresentar e ainda não parece ter conquistado totalmente o público, temo por ela nos results. Por desempenho, também arrisco os nomes de Adrien e XOX, principalmente por já terem passado pelo bottom e nessa semana não terem mostrado a que vieram. Sydnee e Rochelle também não são nomes a se descartar, mas arriscaria um bottom 2 disputado entre repetentes – no caso, Adrien e XOX.

RESULTS

Adrien não foi nenhuma surpresa, já Sydnee relativamente me pegou desprevenido pois, de todos os nomes que citei como prováveis candidatos a irem para a berlinda, ela ficaria em último lugar. Possivelmente a presença de XOX entre os menos votados na semana passada fez com que os poucos fãs que elas têm votassem o suficiente para livrá-las dessa vez, mas ainda assim, se continuarem com o desempenho médio das duas últimas apresentações, não duvido nada que estejam entre as próximas a vazar. Mas vamos ver como Sydnee e Adrien defenderam suas respectivas permanências no jogo.

Sydnee Carter – “Hey Ya!” (Outkast)

https://www.youtube.com/watch?v=dnqbmyT53bM

Foi preciso ir para o bottom para Sydnee mandar a melhor apresentação dela desde a audição. Versão bonitinha – embora não inédita -, os vocais foram on point, o finalzinho no falsete foi mágico! Se tivesse sido sentadinha e com o violão, acho que teria beirado a perfeição. Assim, em pé, se movimentando, a expressão corporal acabou ficando meio confusa, não é o forte da Sydnee ficar solta assim no palco. Mas no geral foi muito mais interessante do que tudo que Ronan fez a menina cantar até agora.

Adrien Nookadu – “I Can’t Make You Love Me” (Bonnie Raitt)

https://www.youtube.com/watch?v=cSkNXLXSG1Q

Nossa que ótimo que Adrien manda no sing-off praticamente um replay da apresentação de domingo. B-O-R-I-N-G, e nem voz para sustentar a música ele tem.

Mas quando você acha que Dannii não pode mais surpreender nessa temporada, depois de passar as três primeiras semanas sendo a pior mentora da bancada, ela vai e me tem a cara de pau de votar para eliminar Sydnee, na jogada estratégica mais safada e descarada da história desse X Factor Australia. Ano passado ela fez a mesma coisa no bottom Taylor Henderson vs Third D3gree, mas foi um movimento aceitável porque o grupo também era muito bom. Porém dessa vez a história era totalmente diferente, e a atitude de Dannii foi lamentável, pois colocou em jogo uma queda na qualidade do time de finalistas. Não que Sydnee seja a última gota d’água da reserva da Cantareira, mas manda-la para casa no lugar de Adrien (coisa que só é aceitável vindo de Nat por motivos óbvios) é risível.

Mas, por sorte e bom senso do público votante, o deadlock não nos pregou uma peça e Adrien foi mesmo mandado de volta para a saga Crepúsculo para casa. Menos um act ruim nessa temporada que já está meio capenga.

Semana que vem temos outro quase tema livre: Top 10 Hits. Livre porque os mentores podem buscar até aquelas músicas que foram Top 10 na Parada Dance Club Ballads Alternative da Eslováquia que ainda não estarão infringindo nenhuma regra, certo? Portanto, não há desculpas para song choices incoerentes, portanto espero que tenhamos um bom nível de performances. Ou pelo menos torço pra isso…

Até a semana que vem!

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Aleph Macaullay
Goiano que foi viver no caos de São Paulo mas não esconde as origens caipiras e chora quando ouve "Evidências". Radialista por formação e redator publicitário por profissão.