Os desajustados.
Enquanto assistia aos resultados dessa semana do X-Factor, uma canção me passou pela cabeça. Como estamos falando de um reality musical, achei por bem usá-la para começar a desenvolver esse texto. É de uma banda muito boa chamada Third Eye Blind e se chama Misfits. Achei que para um programa onde os jurados invocam tanto a dificuldade dos participantes de encontrarem um lugar na indústria onde nem entraram ainda, seria bacana usá-la como metáfora. Sobretudo porque se tem uma coisa da qual o X-FActor entende, é de desajuste. Um trecho dessa canção, diz assim:
“My people are the misfits
The ones that don’t fit in
With the smile I know it comes within
I can feel you in the corners
Laughing where the lighting’s low (with the aftershow)”
“Os desajustados são meu povo
Os que não se encaixam
Com o sorriso que eu sei que vem de dentro
Eu posso sentir você nos cantos
Rindo onde a iluminação é fraca (depois do show)”
Não preciso explicar porque especialmente esse trecho me ocorreu enquanto assistia aos resultados. A cada semana, constantemente, os jurados insistem em punir aqueles que não encontraram seu lugar, esquecendo-se que num programa como esse, ninguém tem lugar algum. Claro que estendemos que eles se referem ao lugar onde os participantes se encaixariam na indústria, mas algo se contradiz entre buscar pessoas comuns, sem senso de espetáculo (já que o comum é a palavra de ordem do show) e depois cobrar exatamente isso delas.
Semana passada eu falei muito sobre isso, sobre o nível de incoerência de alguns aspectos do programa e também disse que isso era parte da delícia de assisti-lo. Disseram nos comentários que eu não podia falar de todos os problemas do X-Factor e depois dizer que ele era bom por conta deles, mas eu sou obrigado a discordar completamente. O X-Factor é um desajustado feito para desajustados e tal qual qualquer organismo vivo, tem o poder de ter charme e beleza dentro de suas imperfeições.
Foi duro ter que lidar com algumas dessas imperfeições nessa semana, em que a vitória do pasteurizado ficou tão absolutamente palpável que deu medo. Pouco a pouco, a terceira temporada do X-Factor vai sendo marcada pela eliminação da peculiaridade, daquela surpresa da imperfeição, que faz com que alguns participantes sejam importante por razões que vão além do talento. Estamos caminhando para uma final de “produtos” genéricos e de fabricação imediata como Rion, Elona, Josh... Repetições de modelos estabelecidos, porque vejam só, quando os jurados dizem que Tim e Khaya não parecem se ajustar a nada, estão dizendo, em outras palavras, que eles são nada mais, nada menos, que originais. Não se assustem com o uso da palavra “original”, aqui ela se aplica simplesmente ao que tem origem específica, ao que não pode ser correlacionado a outro. E vejam bem, não sou eu que estou dizendo que eles não se ajustam, são os jurados. Se não há ajuste possível, é porque é algo novo e poderia, simplesmente por isso, ser reconsiderado.
Mas vamos chegar lá.
O programa com as performances do Top 10 dedicou-se a tocar canções de artistas britânicos e se chamou de British Invasion. Foi, sem dúvida, o primeiro Live Show realmente digno dessa temporada, com os altos e baixos de sempre, mas tecnicamente bem conduzido e com apresentações interessantes. A primeira delas, inclusive e ironicamente, deu o tom do dia.
Sentado num trono que parecia saído de Game Of Thrones (o que é uma coisa cool, só pra deixar claro), Jeff foi se apresentar cheio de promessas de que “sairia de sua zona de conforto”. Todo o seu VT foi construído em cima disso, mas eu quero entender como pode ser possível sair dessa zona se você está cantando Queen, um dos ícones dos anos 80, com uma canção que até tem muitas saídas peculiares, mas que foram todas editadas pelo arranjo dado pelo mentor, permanecendo apenas as partes que privilegiavam a levada rock. Assim, apesar de todas as promessas, Jeff terminou cantando da mesma forma, mesmo que eu tenha sido o único incomodado com isso. Mas enfim, Jeff é um dos ajustados… Mesmo que seu ajuste esteja há situado mais de 20 anos atrás.
Tim veio com as mesmas promessas de Jeff: sair da “zona de conforto”.
Por mais que não pareça, acho que Tim sabe exatamente que tipo de artista que ser. Ele quer ser um cantor romântico, emocional, vender discos baseado em catarse. É isso que ele quer, mas os jurados e parte do público dizem pra ele a cada cinco minutos que isso não é “ter uma direção” e que ele não pode ser aquilo que quer ser. O moço que cantou com as mãos tremendo na sua audição – provavelmente por ter duvidado sempre das próprias qualidades – é obrigado a abrir alçapões na sua falta de confiança, porque o júri não se acanha em dar-lhe cada vez mais negatividade.
Paulina também não ajuda, se conformando em vê-lo tocando piano como parte da saída da tal zona. Ela precisava ser sacudida para que pudesse sacudir ele. Tim cantou uma canção de Elton John que tinha uma letra absolutamente direta, mas continua apostando em começos baixos para crescimentos finais. A questão é que quando sua performance cresce, todos já desistiram dele. A edição fez questão de demonstrar isso, indo de Tim pra Demi, com ela totalmente alheia a ele. Na canção, ele praticamente implora pra ser ouvido. A letra expressa toda a angústia de querer tanto e alcançar tão pouco, mas mesmo assim ele ganha mais escárnio. Kelly e Demi são piedosas, mas Simon o compara a um hamster e declara que ele jamais evoluirá para coisas melhores.
Foi duro de assistir, porque ainda acredito na verdade das emoções de Tim como não acredito em nenhum dos outros participantes. Ele, dentre todos, parece ser o único a querer uma carreira por razões maiores que ele mesmo: tocar as pessoas.
A desajustada seguinte é Khaya.
http://youtu.be/lRKR_rWRq38
A menina jogou tudo na mesa, se dedicou ao máximo numa apresentação realmente intensa. Gritou um pouco demais, o que acabou prejudicando a suavidade, a intimidade com a canção. Let it Be foi escolhida por Demi provavelmente depois que ela mesma a viu ser executada em Glee. Na hora dos comentários dos jurados, lá vem de novo a coisa toda do “não sei quem você é”. Khaya é pressionada para fingir uma personalidade que não tem. Isso é como um estupro pessoal e eu fico feliz, de certa forma, que ela esteja resistindo a isso. Ceder seria se transformar numa Rion, e por Deus, não.
Josh veio logo depois e sofreu do mesmo julgo.
Ele faz tudo certo, mas eu não compraria um CD. O mais importante sobre a apresentação de Josh é que as indiretas de Simon pro trabalho de Paulina viraram diretas. Ele chegou a dizer que ela estava bêbada ao criar o conceito da apresentação do menino e tirando pela bailarina que ela enfiou em uma das apresentações de seus rapazes, e que irritou todo mundo, talvez Simon tenha razão. Josh está completamente ajustado, ganhando até mesmo comparações com astros em vigência, mas talvez seja exatamente essa confortabilidade que o torna, pra mim, tão desinteressante.
http://youtu.be/gBqzHjL5sJo
Alex & Sierra talvez sejam o único caso de soberania na temporada. Eles são originais, diferentes, não se ajustam a nada conhecido ou estabelecido, mas ainda assim passam uma boa impressão para todo mundo, público e crítica. Claro que sei que a dimensão do talento conta muito e no caso deles, há muita superioridade criativa perante Tim, Khaya ou qualquer outro participante que eu tenha defendido.
A apresentação dos dois foi uma das que menos gostei, mas não por causa de Sierra – como apontou Kelly – mas por uma questão de não acreditar mesmo na versão da canção. Sierra, aliás, ficou bastante afetada pelo comentário de Kelly, mas eu discordo dele completamente. Vejo a menina com o mesmo talento, a mesma força e o mesmo apelo de Alex, ainda que acredite que ele seja a parte intelectual mais ativa dessa parceria.
E então, Rion chegou e continuou insípida.
Simon andava batendo na tecla de que ela estava perdendo suas raízes country, e apesar disso ter continuado a acontecer nessa semana, ele não pareceu muito aborrecido. Meu problema com Rion é que não consigo acreditar nela. Aquela cara de apresentadora infantil e o drama enfrentado com verdades, mas frutificando reações fakes… Parece que basta que ela faça uma cara de sofrimento no meio da canção, que todo mundo cai. Rion não me desce e continuo achando seu canto absolutamente genérico. E vejam que interessante: sua deficiência pode dar a impressão de que ela não se ajusta, mas Rion está perfeitamente confortável como artista e como competidora.
Carlito canta logo depois e é ambíguo nesse sentido.
Paulina o mandou cantar Satisfaction, e por mim, já há satisfação suficiente na participação dele. Pode ir pra casa. Carlito é interpretado às vezes como alguém que também tem dificuldades de se posicionar nas expectativas dos jurados, por isso, basta dizer que meu descontentamento com ele é puramente subjetivo. Sua apresentação foi estranha, com aqueles outros carlitos aparecendo no palco, um horror… Mas, os jurados curtiram. Vale dizer que ele tem sofrido de uma pressão parecida com a de Khaya, que é a de ser quase forçado a se expressar artisticamente dentro desse nicho. A diferença dele pra Khaya é que ele está disposto a fazer o que for necessário, mesmo que se desintegre no caminho.
http://youtu.be/ujMjcrMmiaA
Lillie apareceu logo em seguida, com seus cabelos domados e muito cérebro atrapalhando o desenvolvimento. Lillie é engraçada… Ela passa a semana toda super racionalizando sobre tudo, mas no final das contas faz tudo com o mesmo instinto de sempre. Ficou tudo dentro do esperado: forte, intenso, correto.
Já Elona não teve uma semana muito boa.
Demi já tinha resolvido na semana passada que Elona faria algo sem dançarinos e coreografias, mas bastou colocar a menina pra cantar sem tudo isso e os problemas começaram a aparecer. Além disso, Demi se livrou dos dançarinos, mas a megalomania de produção continuou em alta, com Elona com um cabelo maior que o de todas as semanas, parecendo ainda mais atarracada.
Seus vocais instáveis chamaram a atenção de Simon, que talvez pela primeira vez a tenha visto com olhos mais críticos. Ele pode ter percebido algo que nós já percebemos: que Elona é a “marionete pop” que Demi sempre quis reproduzir em suas participantes. É a CeCe que deu certo. Ajustadíssima, Elona busca tanto a perfeição e a relação com o mercado, que deixa todo e qualquer interesse emocional da minha parte, pra trás.
A noite terminou com o Restless Road.
Resolveram trabalhar na confiança do “menino de voz grave” e levaram ele pra rua pra cantar estranhas. Não funcionou muito. Eles cantaram Fix You e Demi e Kelly caíram matando na falta de harmonia. Simon surtou e começou a defender loucamente os rapazes, insinuando que todo o resto do elenco era “cantor de karaokê”. Kelly quase subiu nas tamancas, mas de fato, a apresentação dos meninos foi fraca, preguiçosa, e tirando por Simon só aparecendo nos ensaios por telefone, ele não tinha muita moral pra refutar nada.
Ao final da noite, Mario pediu que Cowell chutasse quais seriam os menos votados. Ele disse que seriam Tim, Elona, Carlito e Lillie. Acabou acertando 2, numa noite de resultados que tirou uma boa parte do meu prazer em assistir o show.
RESULTS
A noite dos resultados continua sendo penosa. Ficamos esperando por respostas que podem ser dadas em 10 minutos, mas temos que aturar convidados ruins e VT’s irrelevantes. Eu ADORO os anúncios, por isso, seria muito bom que essa noite fosse dedicada única e exclusivamente a eles. Ainda que seja pra ele nos decepcionarem tanto.
Khaya foi embora sem poder fazer mais nada pra se salvar. Pareceu aceitar com resignação essa posição. Ela não ia mesmo se ajustar ao que tentavam lhe empurrar goela abaixo e aí reside, enfim, a beleza dos dois eliminados dessa semana.
Após o One Direction cantar sem a menor vontade, o anúncio do bottom foi feito e Tim e Carlito, dois pupilos da mesma categoria, tiveram que cantar pra se salvar.
Tim cantou uma música que Josh Groban gravou e que talvez – na cabeça do participante – poderia aproximá-lo da aprovação de Simon. Mas a batalha já estava perdida pra ele… Para os jurados, o cantor de funeral, de cabaré, chato, enfadonho, comparado a um hamster, não teria a menor chance. Ele fez o que deu pra fazer com You Raised Me Up, cresceu, estendeu notas, aplicou tudo no seu impressionante olhar de determinação. Foi de verdade, como sempre. Porém, no meio do caminho tinha um Carlito.
Não fez nada demais, mas contra Tim, qualquer coisa seria muito. Carlito foi dentro do seu apelo e foi bem sucedido. Enquanto o discurso dele expressou bem o tamanho de sua gana pra vencer, o discurso de Tim foi daquele jeito que ele sempre é: trêmulo, avermelhado, ansioso, completamente febril. E ele sabia… A cada encenação dos jurados para fingir que não sabiam o que iriam fazer desde o início, ele sabia. Fechava os olhos, respirava, e sabia.
Tim é um cantor de emoções, essa é a fantasia dele. Ganhar pela catarse, num mundo que considera isso um equívoco. Ele se desajusta do mercado porque o mercado não é a sua prioridade emocional. Claro que ele quer fama e dinheiro, mas de dentro dos olhos dele, no desconforto de seu corpo, está a sinceridade definitiva: Tim quer se emocionar. Quer que quando sua voz saia, ela acaricie. Ele não tem uma voz de eloquência, não se porta no palco com eloquência, mas tem a grandeza da sensibilidade, que infelizmente é incompatível com a ferocidade do show. Elegante, como um personagem em preto e branco, Tim foi embora.
Semana que vem os participantes enfrentam o Top 8 e com a ausência de personagens sanguíneos como Tim, Khaya e Carlos, aguardo apenas pela final moldada a ferro e fogo por um público ávido por reprojeções. A vitória vai ser de quem se ajusta mais… De quem se aniquila melhor.
















