Em How It’s Gotta Be, The Walking Dead confirma que quando resolve quebrar barreiras, quebra as barreiras erradas.

O tempo todo em que esteve no ar, The Walking Dead brincou com vários códigos típicos de quem está numa “adaptação”. Segurar um personagem, matar alguém que está vivo na obra original, inserir novos elementos e por aí adiante… A dramaturgia resiste a esse tipo de interferência em alguns casos, embora nem em todos a “liberdade” deixe de ferir a integridade criativa do material que deu origem ao que agora manipula referências. TV e literatura precisam existir sem ligações intrínsecas, até para que parte da experiência da surpresa seja mantida intacta no espectador e no leitor.

Sei que precisamos falar de Time For After (outro grande filler), mas é notório que o que importou mesmo essa semana foi a “grande morte” prometida para a Midseason-finale, aquela que justificasse todos esses longos episódios de coisas nuca vistas até aqui. Considerando o depoimento raivoso do pai do ator Chandler Riggs logo após a exibição do episódio, o clima nos bastidores do show não deve estar dos melhores. Alheia a tudo que possa ser legitimamente justificada, a decisão de matar Carl só reforça como esses produtores estão perdidos e como já abriram mão de absolutamente tudo que possa preservar The Walking Dead da paralisia. Mas, vamos lá…

Time For After 

Todo mundo que passa por aqui sabe que eu sou fã do Eugene. Acho o personagem interessante e bem conduzido… pelo menos era, até agora. Covarde e fiel ao próprio instinto de preservação, Eugene foi introduzido na história para ser amadurecido. É assim com todo papel que preste um serviço de evolução dentro da própria trama. Ou isso ou o contrário. E sabemos que o que os produtores nos mostraram até aqui foi um personagem aprendendo a superar medos, o que significa evolução e não involução. Que ele finja lealdade a Negan para sobreviver é completamente coerente, mas que ele de fato seja leal ao vilão é algo que não se encaixa nos códigos do personagem nesse ponto da história. Mais uma vez, The Walking Dead trai o próprio crescimento se contradizendo nos discursos. Foi assim com Carol, por exemplo, um milhão de vezes.

Outro que parece um adolescente confuso é Daryl, que uma hora respeita seu líder e outra hora quer que seu líder se exploda. Além de estar bastante apagado na trama desse primeiro lote de episódios da temporada, Daryl reproduz um efeito colateral que se reflete em vários personagens da série: a apatia. Todos só querem sobreviver, mas tudo soa ligado no piloto automático, entre frases desconexas e monólogos enfadonhos sobre “ser humano”. A confusão da edição também não ajuda, com aqueles planos estapafúrdios e cenas sobre “não ter munição” se sobrepondo a cenas em que a munição parece infinita.

Se foi chato ver o padre e Eugene falando e falando sem parar, mais chato ainda são os momentos passados lá na “Trupe da Jadis”. Poucas vezes presenciei um núcleo criativo ser tão sem pé nem cabeça quanto esse. Quanto mais a gente vê, mais nos chocamos com a falta de assunto desses roteiristas. Com a desculpa de “desafiar o público fragmentando a narrativa”, eles não precisam situar ninguém de nada, não precisam justificar buracos negros na carpintaria do texto. Aquela teatralidade que já irritava no Reino, na Trupe da Jadis é insuportável. Tudo parece falso e ridículo, e piorado pelo simples fato de que não tem nenhuma relevância. Se é para fazer “volume” na guerra, ao menos que a criação das comunidades respeite o mínimo de inteligência e usualidade. Aquilo lá é só afetação e nada mais.

How it’s Gotta Be

Aí vem o “fim”… O fatídico episódio começa com Carl fazendo um discurso que já ouvimos muito na série e que se alterna entre personagens ou muitas vezes nos mesmos personagens: não devemos matar todo mundo. Daqui a algumas semanas, muda para “precisamos matar todo mundo”; e assim a série segue criando bizarras metáforas de si mesma. Chandler Riggs disse isso aqui sobre o motivo dos produtores para terem feito o que fizeram com o personagem:

Scott estava tentando entender o buraco que havia nos quadrinhos entre Rick cortando a garganta de Negan no final da Guerra Total e depois do salto temporal, quando Negan é mostrado vivo na prisão e Rick não o matou.

Ele estava tentando descobrir uma forma de fazer a ponte entre o Rick que não quer matar Negan e o Rick que quer muito matar o Negan, que é o atual [na série de TV].

A forma que o Scott encontrou para resolver isso foi fazer com que Carl se tornasse essa figura bem humanitária, capaz de enxergar a bondade nas pessoas e perceber que as pessoas podem mudar e nem todos são maus”

O que basicamente ele está dizendo é que Scott queria justificar o que motivou Rick a não matar Negan e que a ÚNICA solução para isso seria MATAR o filho do protagonista, que por todos esses anos funciona como uma ponte segura conceitual das noções de paternidade, afeto e ética. Carl usa o chapéu do pai até hoje porque tanto nos quadrinhos quanto na série (e nos quadrinhos Carl está vivo e lépido), eles dois são quase a mesma pessoa, funcionam como uma síntese do passado e do presente, do que é ser líder e ser liderado, do que é perder e ganhar… Ambos passam pelas mesmas coisas – em proporções diferentes – o tempo todo e é essa relação que segura a coesão da série mesmo com tantos equívocos. Mas, enfim… Chegaremos até o que o pai de Chandler tinha a dizer sobre isso.

Depois do plano idiota que liberou os Salvadores, eles foram retomar seus postos de exploração e isso – é claro – significa ter Negan esmagando a cabeça de alguém. Dois núcleos ameaçam Hilltop e O Reino, enquanto Negan vai para Alexandria exigir o crânio de Rick. As primeiras pistas de que Carl vai ser morto se dão logo no primeiro diálogo entre ele e o dono de Lucille. O momento do garoto é importante, ele está liderando, se oferecendo em sacrifício, fazendo todas aquelas coisas que refletem seu pai e mentor, o que torna a decisão dos produtores ainda mais duvidosa. Chandler nunca foi um bom ator, mas a conformidade de Carl diante do fim é condizente com o que ele apresenta.

O miolo do episódio é sofrido… Se um monólogo de ameaças já é chato, três são insuportáveis. Temos que aturar o afetadíssimo de Negan e mais os que estão sendo feitos para Maggie e o Reino. São minutos e minutos de uma tentativa chata de construir tensões, quando a série parece ter esgotado sua capacidade de ser tensa lá naquele ótimo episódio inicial do sétimo ano. A “revelação” da traição de Dwight, a redenção de Eugene perante Gabriel, nada disso tira aqueles minutos da extrema chatice que os impõe, nem mesmo o planinho mequetrefe de Ezekiel para salvar os seus, se entregando aos Salvadores. Já a atitude de Maggie, essa sim, foi forte, coerente e relevante para a evolução da personagem.

Os momentos finais do episódio reuniram todos numa edição de rostos sem pé nem cabeça (e que não servem como efeito dramático da mesma forma que nos quadrinhos) e nos reservou o “grande embate” entre Negan e Rick que… não foi grande. Só serviu para vermos Jeffrey Dean Morgan dizendo seus monólogos cantados chatíssimos e reforçando que Negan é um dos piores vilões que a série já teve. Depois de fugir, Rick e Michonne encontram Carl no esgoto, junto com os outros sobreviventes (de uma Alexandria em cacos) e descobrem que ele foi mordido. Sobre isso, o pai do ator Chandler Riggs tem algumas coisinhas a dizer:

“Ver Gimple demitir meu filho duas semanas antes dele completar 18 anos depois de dizer que queria ele na série por mais três anos foi decepcionante. Eu nunca confiei em Gimple ou na AMC, mas Chandler confiava. Eu sei o quanto ele ficou magoado. Mas sabemos como fomos sortudos por termos participado disso tudo e apreciamos o amor dos fãs ao longo dos anos”

Apagado logo em seguida, o post dá a impressão clara de que decisões estão sendo tomadas de modo contraditório, o que pode significar claramente que os bastidores já não estão mais tão seguros assim. Vivendo por anos como rainha absoluta da audiência, a série se viu numa decadência crescente, perdendo respeito e público a cada temporada, enquanto bradava sua “qualidade” com a arrogância de quem “não mexe em time que está ganhando” (como me disse a própria produtora executiva da série numa coletiva há alguns anos). As razões para a demissão de Chandler podem ser criativas (uma tentativa de sacudir as coisas com choque), mas também podem ser práticas (problemas com o ator). O fato é que não importa o porquê, mas sim a forma como as primeiras pistas de turbulência começam a vazar ao passo em que a primeira metade da oitava temporada já é a pior de toda a história do show.

Ainda tem choro e vela no retorno, em fevereiro. E é possível que eles enrolem essa guerra até o season finale. Em resumo, a “morte” sem emoção, sem intensidade e sem catarse de Carl deixa uma impressão de que não importa mais o que se faça, essa série está tão condenada quanto o garoto.

Right Bite: O tiro que Maggie dá no Salvador que estava prisioneiro é o momento mais surpreendente desse “final”. Pasmem. 

Wrong Bite: Sem Carl, a atriz que faz Enid já deve estar trêmula. 

Random Bite: E a mordida? Será que vão mostrar quando e como foi? Porque parece que o zumbi chegou, levantou a blusa de Carl gentilmente e deu uma mordida exata, como se quisesse colocar num cartaz de prevenção.

REVISÃO GERAL
Nota:
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