O chato desnecessário de The Cell!
As verdades sobre The Walking Dead já estão estabelecidas e não adianta lutar contra elas. Infelizmente, os equívocos de ritmo que a série comete são parte desse sistema de diretrizes que ela mesma se impôs lá atrás. Dividir sua narrativa em núcleos é um ótimo recurso para que os roteiristas tenham como preencher 16 episódios, mas do ponto de vista do espectador, é como se nada no show fosse fluído. Ao invés de tornar-se inesquecível com uma narrativa de crescentes que não dá nem tempo pro público respirar, ela prefere o “coito”com pausas voluntariosas: quando tá ficando intenso, ela interrompe para dar uma dormidinha. Assistir The Walking Dead é como fazer sexo tântrico: você continua porque é gostoso, mas nunca chega a conhecer a explosão de verdadeiro prazer.
The Cell é daqueles episódios que a gente conhece bem: tem uma função clara na trama (apresentar a morada de Negan), mas quer mesmo é perder tempo sendo “profunda” na exploração de Daryl. E nesse propósito, vai fundo nas suas manias macarrônicas de como a filosofia deve ser empregada na dramaturgia, se esquecendo que ser complexo não é ser pedante. É curioso notar como a série recorre sempre aos mesmos maneirismos narrativos para fingir-se de inteligente, usando longos silêncios, aplicando repetições em determinadas sequências e sempre, sempre fazendo com que alguém precise sair em algum tipo de expedição. Quando se coloca em perspectiva o que o episódio apresentou em termos de elementos relevantes, sobram dois ou três itens que poderiam ser facilmente explorados em um bloco e não em 42 minutos.
Daryl e Suas Canções
Essa questão do tempo é importante na estrutura de The Walking Dead. Sabemos que dividir a trama em núcleos não significa precisar abordar um deles de cada vez (pensem que terão sido três semanas inteiras até vermos o que aconteceu com Rick e o seu grupo). A série quer que acreditemos que faz isso pelo bem da história, mas nenhuma trama pode ser beneficiada pelos estanques de tensão que esses cortes provocam. Não só ela opta por essa abordagem homeopática, como torna ralo o conteúdo dessas divisórias. Se o texto fosse comprometido, firme e realmente criativo, não haveria o peso dessas quebras de ritmo. Tantas séries usaram o mesmo artifício (Lost era expert no quesito) e conseguiam não cair na sonolência.
Com The Walking Dead é como se depois de cada grande evento a série tomasse um diazepan e adormecesse. Assim que The Cell começou com a letra de Town Called Malice (Cidade Chamada Maldade), eu já sabia que seria mais um daqueles “vejam como nossa chatice é embasada”. E é mesmo. A letra da canção, o episódio de Who’s The Boss, tudo sublinhando – quase desenhando – que ali Negan era o chefe e que a cidade era bem pior do que podíamos imaginar. O mesmo clima de “terror escondido na neblina” que já tínhamos visto em todos os outros lugares por onde os personagens passaram.
Todo o episódio deveria adentrar o mundo de Negan, mas vimos muito pouco dele. Acredito, inclusive, que ainda não vimos tudo. No seu afã de ficar martelando naquelas insuportáveis repetições de dinâmica entre cena e música, o episódio – como sempre – deixou o que era mais importante para lá. Soubemos o básico: que Negan é como uma espécie de Deus onipresente (afinal, todos são ele) e que ele faz as regras. Quem não cumprir provavelmente terá o rosto queimado com ferro quente, exatamente como nosso amigo Dwight, que para não ser morto por Lucille teve que ver sua esposa “casando” com seu líder. O chefão não força ninguém a nada, mas deixa todos sem saída, num clássico do terrorismo psicológico.
Não Sou Tuas Negan
Me preocupa se a série nos dará alguma posição sobre a soberania de Negan. O Governador, por exemplo, fazia a linha “justo” e isso de certa forma justificava que todos os apoiassem. Negan anda por ali com um um taco enrolado com arame, esmagando crânios, comendo as mulheres alheias e desfigurando maridos. A mulher que ficou abordando Daryl falou do horror do lugar milhões de vezes… Precisamos saber porque ele é tão respeitado se matá-lo seria tão fácil. Dwight poderia tê-lo feito milhões de vezes e se o exército de Negan só responde a ele, a morte então significaria a liberdade. Porque todos o seguem? O protegem? Precisamos saber de onde vem essa soberania e The Cell perdeu uma ótima chance de nos explicar.

Negan fala em conforto, em proteção, mas tampouco aqueles que ficam com ele desfrutam de paz. Tudo é intimidação, ao ponto de todos se curvarem quando ele passa. Negan pode ser forte, mas é um só e ainda está nebuloso para mim que todos continuem temendo tanto, se curvando, se sacrificando, se a morte do líder seria o mesmo que um reboot social. E tudo naquele universo acabou manejável justamente porque não existem mais códigos de conduta. Tudo bem que Os Salvadores são um grupo que coloniza outros grupos para sobreviver, esse seria motivo suficiente para que os homens quisessem que o líder ali permanecesse, mas isso não explica porque eles se permitem tanta intimidação.
Então, depois de uma hora de episódio com Daryl sendo catequizado, ele continua se recusando a ser um Negan. Ou seja, tempo desperdiçado com nada, porque os conflitos morais e emocionais de Dwight não valiam um episódio inteiro. O pouquíssimo assunto foi esparramado em 42 minutos de chatice e é impossível não pensar e lamentar no tanto de potencial que a série joga fora quando tenta fingir que o que está fazendo é pelo bem de si, quando na verdade é só pelo bem dos que lucram consigo.
ATENÇÃO, SPOILERS DOS QUADRINHOS. QUEM NÃO QUISER SABER VAI COMER UM SANDUÍCHE DE PEDIGREE E VOLTE DEPOIS.
Nos quadrinhos, logo após a morte de Glenn, Carl desenvolve uma obsessão por se vingar de Negan e durante a primeira coleta que o Salvador faz em Alexandria, Carl se esconde num caminhão e vai parar na morada dos inimigos. Negan descobre que o filho de Rick está lá depois que o garoto metralha um monte de homens, e fica impressionado com a coragem do garoto. É pelo olhar de Carl (e é interessante, porque é um olho só), que conhecemos a rotina dos Salvadores, de modo bem detalhado e objetivo. Negan fica fascinado com a atitude do menino e com o horrendo buraco que ele tem no lugar de um dos olhos. Carl fica conhecendo a história de Dwight e vê o mesmo que aconteceu com ele acontecer a outro dos homens de Negan. Ao final da “expedição”, Carl é devolvido, naquilo que Negan anuncia como um gesto de boa vontade (e que será cobrado adiante, claro). E o melhor: tudo isso acontece de modo fluído, já que a história como um todo já é estruturalmente metafórica, não havendo a menor necessidade de didatismo filosófico.
FIM DOS SPOILERS
> As séries favoritas do Fábio Porchat!
Right Bite: Foi um toque de crueldade calculada deixar para Daryl aquela foto de Glenn esmagado.
Random Bite: Qualquer Zé Ruela sabe que Dwight não está satisfeito com o que lhe aconteceu. Aguardemos…
Wrong Bite: Não quero ouvir nenhuma daquelas canções NUNCA MAIS.















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