Filler pra quê te quero?

Convido todos vocês, caros espectadores de The Walking Dead a se fazerem junto comigo essa pergunta do enunciado da review. Sim, porque quando falamos em desvios abruptos de narrativa simplesmente com o intuito de segurar o espectador, precisamos ter em mente qual a nossa receptividade quanto a isso. Um episódio filler não é nenhum pecado mortal, sobretudo porque é o espectador do outro lado que precisa avaliar o valor e a relevância dessa estrutura.

Quase sempre, fillers são frutos do oportunismo…. Um grande cliffhanger é lançado numa semana e completamente ignorado na semana seguinte. Eles não são completamente identificáveis nas promos ou por todos os fãs (visto que muitos não assistem promos para não pegarem spoilers) e os produtores com isso, já garantem a massa de público que veio afoito para o episódio seguinte ao clímax, em busca de resoluções. É uma estratégia que sempre funciona e que vem acompanhada de uma premissa muito simples, disfarçada de profundidade.

The Walking Dead já fez isso conosco muitas vezes. De certa forma é até honesto que eles mantenham seus truques – a despeito de críticas – doa a quem doer. Foi como eu disse: não dói para todo mundo e digerir episódios assim é uma questão completamente subjetiva. De fato, você só tem três caminhos:

Smiling Walker: O primeiro caminho é o da plena aceitação e deleite. Esse fã provavelmente vai adorar o aprofundamento dos aspectos psicológicos do episódio em questão. A resolução do cliffhanger não é importante e virá mais cedo ou mais tarde.

Upset Walker: Mandará para lugares apertados e ambíguos todas as gerações dos roteiristas; e não conseguirá entender como o fluxo de tensões pode ser interrompido por amenidades completamente desnecessárias. Se sentirá como num coito interrompido.

“I Don’t Care” Walker: O que me importa é o que vem. Não choro sobre scripts derramados.

Dito isso, preciso informar a vocês que estou no limbo dessas categorias. Boa parte de mim não ficou nem um pouco feliz com o que viu. Ao mesmo tempo, uma outra parte de mim precisa reconhecer que houve planejamento e qualidade dentro da proposta do episódio. O que acaba respondendo à questão é exatamente a relevância. Será mesmo que precisávamos disso agora?

Não, não precisávamos. The Walking Dead é uma série que sofre de altos e baixos; e qualquer alto deveria ser preservado e não repelido. Tenho a exata sensação de que parecemos estar diante de um time de roteiristas que não se importa com rupturas bruscas de ritmo, ainda que isso possa representar perda de desinteresse (não temos mais 16 milhões de espectadores). E ritmo aqui era muito importante, porque toda a ação desde o início da temporada está focada num único dia e qualquer preciosa sensação de continuidade se esvai quando a narrativa se quebra.

Fiquei bastante aborrecido, sobretudo, com as inexplicáveis uma hora e cinco de duração para um episódio que se resolveria inteiro em 20 minutos. Impossível não se perguntar porque raios não aumentam o tempo de tela para episódios como Thank You. Não se pode dizer nem que o episódio era “especial”, porque flashbacks com histórias fechadas são corriqueiros no show e na televisão como um todo. Além disso, nada do que vimos foi além do que já esperávamos.

E onde estão as qualidades, então? No planejamento da trajetória de Morgan. Here’s not Here fechou um ciclo para o personagem, explicando pequenos detalhes (como a origem de alguns itens que apareceram na narrativa prévia de modo aparentemente aleatório) e justificando grandes motivações. Precisávamos saber por que Morgan se tornou um “humanista” tão absoluto e nesse sentido o episódio se arrumou direitinho.

Eastman apareceu como um mentor daqueles que já vimos muitas vezes. Estava claro que Morgan devia ter cruzado com algum tipo de filosofia e foi exatamente isso que aconteceu. O roteiro criou uma metáfora com portas e se manteve atenta a ela durante todo o decorrer das sequências. Morgan estava o tempo todo repetindo a mesma porta, preso a portas oníricas que lhe impediam de ver as verdadeiras saídas e lidando com portas efetivas, reais, que estavam ligadas aos acontecimentos, enfim (era Rick gritando no portão?).

Vendo as coisas pela perspectiva do show – num universo tão preso ao selvagem da existência – a compaixão pelos walkers seria, sem dúvida, o maior sinal de atenção. Eastman impressiona Morgan com seu ritual de identificar e enterrar os mortos-vivos a medida que eles surgem na propriedade. Esse ponto do episódio é muito interessante, principalmente porque o roteiro se adianta em trazer o homem que Morgan matou no começo, transformado, nos dizendo olha aí, eles já foram sim pessoas como você.

O melhor de toda essa “enrolação intelectualizada” que vimos, é, sem dúvida, o monólogo em que Eastman conta porque começou a valorizar tanto a vida. O inferno pessoal que o personagem passara foi de uma proporção que seria insuportável para muitos seres humanos e a vingança dele (deixando o homem morrer de fome por 47 dias) foi proporcional ao trauma. Redimir-se entendendo o valor da existência eu considero um passo muito justificável. O respeito que ele tem pelos walkers ao matá-los está correlacionado ao que fez com o assassino de sua família.

Entretanto, todos esses bons detalhes não precisavam ter sido dados agora e nem num episódio de mais de uma hora. Foi um episódio bem feito, bem dirigido e bem atuado. Não foi uma abordagem original da redenção de Morgan, mas nem por isso foi mal conduzida. Só não era a hora disso, só não precisava de tanto tempo para isso. O enlace com The Walking Dead vinha intenso, excitante e climático. Here’s Not Here depôs contra a série como uma camisinha furada no mais quente dos encontros. A gente até continua depois, mas parte da “mágica” já foi perdida.

Right Bite: John Carrol Lynch maravilhoso, como sempre. E semana passada ele já tinha dado uma passada em AHSHotel.

Wrong Bite: RIP Tabitha.

Random Bite: Eastman disse a Morgan que um dia ele seguraria um bebê novamente. Um pequenino detalhe que explica o sorriso do personagem ao segurar Judith.

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