Não existe um paraíso a ser merecido.

Todo mundo conhece aquela noção básica de colonização… Geralmente essa é uma noção formada lá nos primórdios da nossa educação, quando entendemos de modo bem superficial, que quando algo é colonizado, geralmente isso significa que tinha um pessoal lá super tranquilo que foi incomodado pela chegada de uns metidos a besta que acham que poderiam fazer melhor. Também entendemos logo de cara que colonizar é transformar… Nada que já foi colonizado permanece o mesmo, justamente porque esse não é um ato de contemplação, mas sim uma forma rígida e agressiva de opressão aos métodos e costumes já estabelecidos.

Acho que já sabem onde eu quero chegar. A boa leva de episódios de The Walking Dead está se transformando em ótima e por causa desse 5X14 eu parei uns bons minutos olhando para a televisão, depois de muito choque, pensando muito sobre esse curioso lugar em que paramos ao final dos 43 minutos: não existia pior hora para a comunidade de Alexandria perceber a presença de um padre com distorcidas noções de maniqueísmo. A chegada de Rick não tem nada a ver com o sobrenatural, mas com o movimento natural da existência. O problema é que a morte leva à crença do imponderável e, vejam só, pessoas que antes estavam “seguras”, agora começaram a morrer.

Spend foi um episódio que bifurcou direitinho suas bases. Em todos os núcleos havia evidências de personagens agindo pela negação. Rick, por exemplo, acha que seu interesse por aquela mulher casada é uma projeção de seus sentimentos por Lori. Carol acha que sua preocupação com Sam é só seu instinto de mulher agredida sendo reanimado. Porém, Carol só quer matar… Rick só quer matar… Assim como Abraham, num outro núcleo, também só quer matar e se excita com a possibilidade. Mas, eles não querem matar porque são maus… Eles só são incapazes de perceber que foram colonizados pela selvageria da sobrevivência a qualquer custo. Então, eles fingem que tudo que fazem é pelos outros quando de fato eles só querem saciar o impulso de “matar para se defender”, ainda que não haja o que precise ser defendido. 

E o ballet de correlações contrapostas continua do lado da própria Alexandria, que também está em negação. Não há nenhum paraíso naquele lugar simplesmente porque o paraíso é um conceito inalcançável. Do mesmo jeito que Rick, Carol e Abraham não deveriam se meter, Deanna deveria entender que a colonização ou a catequese tem seus riscos práticos e que eles são responsabilidade de quem os assume. Mas, é claro, o grupo recém-chegado vai começar mesmo a ser visto como maldito… Sejamos honestos, em certa instância, eles são. Se há uma regra sobre não resgatar vivos em situações limítrofes, esse é um direito daquela organização. Seria fácil seguir se Alexandria fosse a colonizadora. Mas, não… O grupo de Rick não é conquistado, ele “conquista”. 

Então, precisamos falar sobre a expedição de GlennAiden com seus pais negando sua imaturidade, a mesma que faz com que ele exploda todo aquele depósito. Daí, o caos que se estabelece é um dos mais brutais e nervosos que já vimos na história do show… Eugene apavorado, Tara desmaiada, Aiden machucado, Glenn querendo salvar, Nicholas querendo fugir… E muita tensão na ideia HORRIPILANTE de ser devorado vivo, o que, naquela mistura agressiva, aconteceu em dois momentos. 

A morte de Aiden já tinha sido muito perturbadora por conta da especial atenção da direção à dor do devorado. Porém, a morte de Noah está entre as coisas mais desconcertantes que The Walking Dead já idealizou. E acho que foi isso, sobretudo, porque a forma como a armadilha foi montada também acabou sendo muito esperta. A porta giratória foi uma sacada incrível e poucas mortes dentro da série tiveram um planejamento que dificulta nossa busca por falhas. Era uma armadilha simples, plástica e imensamente tensa. Confesso que assim que Aiden foi devorado eu pensei “ou morre alguém do grupo de Rick ou Deanna não vai acreditar em Glenn”, o problema é que mesmo que todos soubéssemos que Noah não ia durar, a forma como ele morreu foi tão absolutamente chocante que passei muito tempo lamentando por ele.

A questão toda é que depois da fala do Padre pouco importa o que Glenn disser… A compreensão da atmosfera mortal que ronda o grupo já vai ter sido plantada. The Walking Dead encontrou um terreno delicioso de ser explorado e essa riqueza de possibilidades é possível porque a constante lamúria sobre sobrevivência foi rendida, ao menos por um tempo, pela discussão acerca da estabilidade. Se está tudo ruim você quer melhorar, mas quando melhora você desconfia… E então você age e tudo piora e você volta a querer a paz que fora perdida. É devastador… O grupo de Rick não entende que não tem que se meter e o séqüito de Deanna, em resposta, não entenderá que estar vivo é estar em risco e cada vida é um potencial armamento pro perigo. Maravilhoso, enfim, é saber que toda a dor futura será convertida em qualidade.

Fomos devorados vivos por The Walking Dead… Maldita, ela sempre consegue.

Right Bite: Carol e sua constante ligação com crianças estranhas.

Hiding Bites: “This is the beginning” foi a única anotação no caderno de Noah… Icônico.

Random Bite: Adoro ver Eugene assumindo sua covardia.

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