Depois que a alma é infectada pela escuridão toda luz passa a ser uma armadilha.
Certa vez eu li num livro que a melhor maneira de preservar nossa capacidade de ainda nos maravilharmos com as coisas simples do mundo era não nos deixarmos endurecer pelo que não deu certo. Algumas pessoas são assim, tendem a desacreditar no que vem baseado no que foi. Sempre digo que nenhum relacionamento terminado pode ser referenciado como uma coisa que “não deu certo”, justamente porque não existe bem perdurável na humanidade (assim como não existe mal). Se vivermos na expectativa constante de que dar certo é dar certo pra sempre, nunca encontraremos nenhuma plenitude.
A mudança de ares em The Walking Dead fez um bem enorme para nosso cansaço. Além de um bom episódio semana passada, esse confirmou as boas expectativas e fez a trama ter substância. Enquanto eles filosofam e divagam sobre o nada, dificilmente conseguem nossa atenção. Essa semana não houve muita ação (como gostam de dizer o que nos julgam porque achamos tudo bom só quando tem ação), mas mesmo assim o episódio foi bacana. E sim, foi bacana porque houve substância. Os aspectos humanos e emocionais que estavam em vigência tinham uma base sólida: a chegada num lugar de paz trouxe para eles e para nós, a sensação de ambigüidade que enriquece a dramaturgia do show.
Quando eles entram em Alexandria está sendo oferecida a eles uma nova chance de assentamento. Já aconteceu antes, mas, mesmo que ainda haja desconfiança, dessa vez a intuição também diz que existe a possibilidade real de que aquela comunidade não seja bizarra como as outras. Assim, foi extremamente interessante perceber o conflito constante que o grupo de Rick demonstrava em seus olhares hesitantes. Eles querem acreditar, mas acham que não podem. Foi incutido neles um senso de desconfiança e sobrevivência tão grandes, que eles temem a anulação do que já aprenderam em nome da tranqüilidade hipotética. É uma cilada terrível e que funciona de maneiras incríveis para o programa.
Toda a seqüência entre Rick e Deanna foi ótima, sobretudo porque o vimos falar abertamente sobre esses medos e sobre como uma comunidade como aquela soa utópica. Se ela existe mesmo, naqueles termos, então o melhor que Deanna tem a fazer é manter as portas fechadas. E é isso mesmo… Cada sobrevivente que entra é um destruidor potencial, porque a passagem de Rick e seu grupo por outros grupos sempre foi responsável pela desestabilização deles. Claro que o Governador era terrível, mas havia gente com ele que vivia em paz. Aquisições são riscos válidos num mundo tão completamente amoral?
E aí vemos Rick cortar o cabelo, fazer a barba… Vemos Carol de roupas novas, limpas. Vemos Carl conseguindo medir direitinho o quanto de sua própria adolescência ficou pra trás… Foram momentos fortes, porque um pingo de empatia já nos coloca no lugar deles. Aquelas pessoas precisam dessas coisas simples, como eu e você jamais poderíamos compreender. Mas elas temem abraçar a paz porque geralmente ela vem junto com a morte. Mas, será que tem que vir sempre? Será que o erro não é deles de sempre manter a guarda alta? Será que quando eles já chegam pensando em tomar o lugar, eles já não estão antagonizando com quem vive tão bem ali? Essa poderia, por exemplo, ser a série que conta a vida de Deanna e seu grupo… E Rick acabar sendo o mal que espreita na cerca.
É cedo para categorizar as coisas assim…. Tem coisas estranhas acontecendo em Alexandria, sobretudo no que diz respeito ao comportamento de alguns moradores. Parece ser tudo parte de uma natural divergência de temperamentos… Mas, é The Walking Dead e nunca se sabe o que pode estar por trás dessas promessas de serenidade. Foi de cortar o coração, pra mim, vê-los todos dormindo no mesmo cômodo, juntos, quando Deanna aparece para visitá-los. Pela primeira vez em muito tempo eu me envolvi com eles de novo, senti aquela ternura relutante no modo como eles se agruparam como uma forma de se manterem vivos. É triste demais pensar assim às vezes… Eles só querem viver de novo, terem alguém com quem compartilhar esse anseio pela vida.
Então, The Walking Dead fez por mim uma coisa que não fazia há muito tempo: ela me fez querer que desse certo. Foi nesse momento que eu percebi que a série me pegou de volta. Enfim… Aconteceu.
Rigth Bite: A adaptação dos quadrinhos no caso de Alexandria tem demonstrado bastante fidelidade, com algumas pequenas exceções de nomes e sexos. Ver Rick no uniforme de xerife de novo também foi muito legal.
Wrong Bite: Agora temos um núcleo teen irritante.
Random Bite: Ninguém nunca vai falar sobre a possibilidade de um velho morrer dormindo, virar zumbi e sair matando?















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