A busca por segurança elimina riscos, mas também elimina possibilidades.
Viver sob constantes decepções tem um efeito colateral que pode ser mais devastador ainda na vida de uma pessoa: você se torna incapaz de discernir as chances positivas que possam, por ventura, surgir. É como quando você é muito traído em seus relacionamentos e começa a achar que ninguém mais no mundo presta. Eventualmente alguém que vale a pena sim pode aparecer e renunciar a ti porque não é capaz de suportar tanta desconfiança. Passar por muitos enganos não significa ser incapaz de experimentar acertos.
Coloque nisso uma lupa apocalíptica e provavelmente vai perceber que fica complicado julgar Rick por sua incapacidade de aceitar as ofertas de um estranho que oferece uma utopia. O grupo já vivera promessas de normalidade antes e foram esmagados pela constatação de que nada de bom pode caminhar com vida pelo mundo. Mas, o que os faz continuar seguindo é a esperança de que haja uma utopia em algum lugar e se houver, ela não vai aparecer com um certificado de autenticidade, ela vai aparecer revestida de dúvida. Sendo assim, há de se ter a consciência de que acreditar, em algum ponto, pode representar êxito.
Sempre que The Walking Dead chega num ponto que representa segurança narrativa, ela dá um pequeno sinal de melhora. Foi assim com esse episódio, que não nos enrolou pra chegar onde queria e seguiu uma coesão que sempre vem emprestada do material original. Podia ser que Aaron ainda demorasse três semanas pra conseguir levar o grupo pra Alexandria, mas, isso não aconteceu. O ritmo mais perto do ideal é esse, pena que eles não consigam ver isso.
Ficou tudo bem digno… Estava certo mostrar Rick desconfiado porque depois de tudo que eles passaram não dava mesmo pra acreditar em Aaron facilmente. Também foi bom ver Michonne se posicionando como a consciência equilibrada, que diz que eles não podem parar de viver oportunidades de encontrar um bálsamo. De fato, aquele senso de desconfiança quase invencível só está em Rick porque ele se sente responsável pelas outras vidas. O grupo está cansado e chega um ponto em que vale mais a pena acreditar e administrar danos do que ignorar uma chance de poder descansar em relativa segurança.
Aaron é um personagem que eu esperei muito pra ver não só por conta de sua homossexualidade, mas também porque ele é um tipo de sobrevivente mais racional e ver sua evolução pode ser um ponto bastante favorável ao show. Ele foi introduzido de forma competente e já despertou simpatia mesmo naqueles que não o conhecem dos quadrinhos. Claro que qualquer personagem novo que surge no programa já traz consigo aquela atmosfera de ambiguidade que sempre faz parecer que algo maligno espreita na relva. Mas, confiando ou não em Aaron, é ótimo ver a série demonstrar algum frescor, depois das péssimas últimas semanas.
Queremos muito entrar em Alexandria, mas geralmente a inserção de uma comunidade representa um período de assentamento, de construção de novas tensões e isso leva tempo. Como a nova comunidade é anunciadamente segura, os conflitos precisariam parar de partir da ação por enquanto. Se estivéssemos vindo de um tempo de grandes intensidades, a calmaria cairia bem. Entretanto, como The Walking Dead vive de filosofias contemplativas enfadonhas, os próximos episódios até o finale podem acabar sendo bastante penosos. Alexandria traz esperança a longo prazo, mas ainda pode ser desanimador se pensarmos no efeito imediato de entrar numa narrativa que mantém o apocalipse do lado de fora dos muros de concreto.
Right Bite: A visão de Washigton no caminho do grupo foi rápida, mas suficiente para nos balançar. Um pouco de abordagem em escala metropolitana cairia muito bem.
















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