Nós somos os verdadeiros mortos errantes.
Uma das melhores coisas que The Walking Dead tem a oferecer é o sentido múltiplo do que significa sobrevivência. De fato, esse é um argumento tão forte, que muitas vezes a série exagera sua abordagem a respeito e resolve que discussões filosóficas sobre existência exigem um ritmo lento e muita contemplação visual. Não é assim necessariamente que as coisas funcionam… A série tem pouco apuro textual e constantemente confunde silêncio com solenidade. Them é um episódio que tem uma vontade imensa de ser complexo, mas que derrapa de novo nesse conflito.
O luto por Tyreese ia provocar algum surto, isso era certo. E como o episódio seguinte à morte de Beth não mencionou o luto de Maggie, eles aproveitaram para explorar tudo na mesma semana. O movimento é bastante coeso, mas os ruídos começam na forma como a coisa toda é impressa. Acreditar no luto de Maggie depois dela passar semanas ignorando a existência da irmã é quase impossível. Sasha partiu pra violência, o que é outro clássico. Ao menos não houve uma passada de limites nesse sentido. Independente dos sentimentos delas a respeito do que aconteceu, o episódio queria estabelecer que sempre que alguém morre, as questões sobre sobrevivência voltam a ser colocadas.
No que diz respeito a criar uma atmosfera de vazio, não há o que reclamar. Depois de saírem da prisão, de passarem por Terminus e descobrirem a farsa de Washington, os sobreviventes se veem de verdade num caminho sem objetivos definidos. Daryl come minhocas, eles cozinham cães, perambulam em grupo pelas rodovias devorando tudo que podem para continuarem vivos. Estão mortos em uma infinidade de sentidos sociais e realmente o que os separa dos errantes que matam é que ainda não começaram a devorar uns aos outros.
No monólogo em que Rick conta sobre o avô que se fingia de morto para continuar vivo, está embutida a ideia central do episódio. De fato, essa é a ideia da série toda. O problema de The Walking Dead nunca foi seu potencial dramatúrgico, mas a dificuldade que os roteiros encontram de expressar suas analogias de formas menos óbvias. Ou seja, Daryl não precisa se queimar para demonstrar que não sente nada ou não precisa haver uma caixinha de música quebrada para representar a ausência de esperanças… O mundo de TWD é o mundo selvagem mais hesitante de todos os mundos selvagens. Tudo nele está pronto pra devorar ou ser devorado, e esses já são verbos que movimentariam a trama sozinhos.
Pouco de realmente substancial aconteceu do ponto de vista narrativo, mas se quisermos ser benevolentes, podemos aceitar que houve exploração de impulsos dramáticos. Maggie precisava sofrer, Sasha precisava reagir, Daryl tinha que ser afetado… Estava tudo dentro do natural assentamento de emoções provenientes de um pós-clímax. O problema é que The Walking Dead tem um clímax a cada 5 episódios e 10 assentamentos emocionais a cada errante eliminado.
O curioso é que se transferíssemos pra nós a moral da história contada por Rick, poderíamos dizer que somos constantemente indagados do porquê de ainda continuarmos vendo a série. Fazemos como o avô dele e abaixamos cabeça… Morremos assim que vimos o episódio piloto e todo dia repetimos que continuamos mortos. Pode ser que um dia saiamos vivos desse campo minado de manipulações, mas por hora, nós somos como os mortos errantes… A gente devora qualquer migalha simplesmente pra continuar seguindo… Até que um dia algo aconteça conosco ou com eles.
Right Bite: A chegada de Aaron acende um filete de esperança… Alexandria vem aí.
Random Bite: Boa a sequência do quase ataque ao celeiro e o estado em que o lado de fora fica no dia seguinte. Um toque para os personagens, que já esqueceram que não podem controlar sempre todas as chances de sobrevivência. As vezes é só sorte.















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