Um mundo pagão.
Os templos são uma invenção do homem… Não é culpa nossa, claro. Nós somos seres ritualísticos, temos essa tendência natural de organização de sistemas e adoração de ciclos e mitos. Criamos simbologias que intermediam o caminho até hipotéticas divindades, celebramos eventos anuais que são apenas parte de uma rotina, levantamos paredes e tetos que supostamente ganham uma natureza sacra simplesmente porque seus nomes trazem o reconhecimento do que é santo. De fato, como somos tolos… A santidade não está no nome, ela está no que não é dito.
Os personagens de The Walking Dead não sabem o que é religiosidade faz tempo… Quase nunca se fala em Deus porque sejamos honestos, num mundo onde mortos se levantam para comer pessoas, não se pode culpá-los por terem desistido dessa referência. E quase como se para confirmar as condições céticas pelas quais vivem aquelas pessoas, um templo foi colocado diante delas, um lugar de adoração e segurança, que tal qual aquele que o regia, tombou pela ambição maior de qualquer ser vivo: a vida.
Four Walls and a Roof foi um interessante episódio de conclusões. E vejam só, um episódio de conclusões antes mesmo da quinta semana. Parece que andaram dando um jeito na preguiça dos produtores e que Deus conserve assim. Porém – e como tem que ser – esse foi mais que um momento de encerrar plots, mas de colocar uma lupa sobre algumas questões filosóficas que rondam o programa desde que voltou para esse novo ano. Sim, porque por mais horrível que possa parecer a mastigação de carne humana, começa a surgir com força dentro dessa dramaturgia um paralelo de hipocrisia bastante curioso: alguém realmente pode julgar um sobrevivente pelo que ele faz para permanecer vivo?
É claro que há detalhes que precisam ser levados em consideração. Não é justo ser capturado para servir de almoço, mas quando Gareth usa a frase “Junte-se a nós ou nos alimente”, ele está determinando o mínimo de organização social. Dadas as devidas proporções, é o mesmo que substituir a frase por “Nos deixe em paz… ou mate por nós… ou morra”, que é basicamente o lema que rege o grupo de Rick. No final das contas, qualquer encontro com novas pessoas gera o mesmo tipo de tensão… Ou se junte a nós ou morra, porque deixar você ir pode significar você voltando para me machucar depois. Também há a terceira opção, que é “Me deixe aqui e vire-se do lado de fora”. E não, não foi só o Padre Gabriel que lançou mão da máxima… Deixar pessoas para serem devoradas (por mortos ou não) é outro artigo recorrente de qualquer núcleo de sobreviventes. O resumo disso tudo é que SEMPRE é uma questão de continuar vivo. “Você não sabe o que é sentir fome”… E mesmo que a série nem de longe pense em defender Os Caçadores, ela se dá o direito de sublinhar essas hipocrisias.
A oratória de Gareth era boa, mas um pouco menos de vilania na construção das falas teria servido melhor aos propósitos do episódio. Ainda que tenha sido muito bom ver The Walking Dead tomando coragem de abrir mão de arcos narrativos sem ficar semanas a fio fazendo-os andar em círculos, não podemos deixar de destacar alguns desperdícios.
1.A premiere ensaiou uma possibilidade de fazer um paralelo entre o Gareth que chegou a Terminus e o Gareth que ordenava os churrascos. Um outro episódio ao menos de exploração da ideia teria sido bom pra humanizar o personagem.
2.O fato de terem comido a carne contaminada de Bob poderia ter rendido algum detalhe interessante, como uma transformação iminente e executada. Claro que isso mexeria na mitologia, então entendo não fazerem. No fim, o fato de terem cozinhado os pedaços serviu como argumentação definitiva.
3.Acho que pelo caráter cíclico e irônico da coisa, Gareth e seu grupo deveriam ter sido comidos vivos.
Mas, compreendo perfeitamente que a decisão de mostrar os inimigos sendo assassinados de forma tão brutal, estava dentro da proposta de não reforçar heroísmos no show. O grupo de Rick também é muito capaz de coisas horríveis e pode estar a alguns estágios de fazer coisas ainda piores. Nessa terra sem regras não há espaço para ponderamentos, o que importa é viver. O templo sagrado perdeu esse direito de ser santo a partir do momento em que dentro dele só havia um homem desesperado para manter-se vivo. Ali são todos feitos da mesma insana necessidade de continuar existindo… E tudo em volta virou apenas matéria, paredes e tetos, por onde se esgueiram em busca de uma noite mal dormida.
Enfim, assisti os momentos finais preocupado com essa nova divisão narrativa. Um grupo com Rick, outro com Abraham e ainda o que vamos começar a ver com Beth. Essa trilogia de intenções pode ser uma desculpa para voltar para aquela alternância preguiçosa de blocos. Estou aqui torcendo para que não… Quando se movimenta, The Walking Dead faz valer a pena toda a ação e contemplação… Quando ela anda pra viver e não quando é apenas uma errante.
Wrong Bite: E Maggie, que foi com Gleen cumprir o acordo com Abraham e quase nunca menciona a irmã? Que deu nessa guria?
Rigth Bite: Michonne recuperou sua espada, agora é só esperar as cabeças.
Random Bite: Tô apostando em Morgan chegando junto com Daryl. E vocês?
















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