Spoilers Abaixo:
“Walk with Me” é um episódio bem fantástico para a terceira temporada. Se é que já dá para dizer algo assim da série, com apenas uma ótima sequência de três episódios. Trocamos Dale e Shane por Michonne e pelo Governador, e que troca foi essa, hein? Quase que instintivo, na tela. Se os mortos tagarelavam e arengavam o tempo todo na segunda temporada, os dois novos personagens são bem mais contidos. A grande lição que deixou Glen Mazzara “consertar” a série, talvez, foi a de que Mistério muitas vezes acaba sendo um bom negócio a longo prazo. Usar a seu favor, e da audiência e dos personagens, um simples e esquecido fato: ninguém sabe o que vai acontecer.
Vejam a nova grande presença, por exemplo. Tem uma cautela extrema em como eles apresentam o cara. Ou melhor, o apresentam como O Cara. Mais salvador que selvagem, a primeira aparição do Governador paralela a primeira decisão de Rick, lá no piloto. Ambos matam os zumbis (“biters” em Woodbury) como atos de piedade. E enquanto Rick se mostra um trapo de nervos ainda agora, o comando do nosso novo amigo é impecável. Ele achou uma compostura que parece – palavra chave, essa “parece” – bastante admirável diante do evidente fim de tudo que conhecíamos. Mantendo uma comunidade isolada que funciona perfeitamente, à beira de um mundo que quase cai sobre si mesmo.
Se isso poderia soar um pouco queimado, David Morrissey tira qualquer dúvida. O cara é um puta ator e um puta ator mata só entrando em tela, só com a presença. Há muito rolando em uma atuação que, até agora, passa ares de ser bem simples. Aquele olhar meio caído, por exemplo, passa uma coisa toda super bondosa e tal, mas meio que com uma complacência que, pouco a pouco, fica cada vez mais revelada e óbvia. E que a qualquer momento pode estourar em uma fúria de ter que encostar as costas na poltrona. É um ato difícil de balancear, mas Morrissey lida tudo com uma classe, carisma e uma poker face já icônica. Guy Ferland faz o mesmo na direção, isolando-o bastante e abaixando como uma figura-Jesus. Mas eu dispensaria fácil fácil aquelas imagens toscas do cara andando em slow motion depois de atirar nos soldados.
E a retirada dessas camadas do Governador ocorre de modo tão natural, tão bem feitinho e tão construído ao redor da tristeza duradoura e interna e forte de Andrea, e da desconfiança de Michonne… Tão assim que a cena final bate bem na cara. Simples, sem uma palavra, e devastadora. Mazzara coloca aquilo ali quase que como um lembrete: de “Ah, por sinal, ele é esse tipo de homem, yep.” Só ali, naquele momento, com a insuportável agonia e terror do museu de cabeças, Morrissey derrete aquela expressão d’O Cara. Isso me faz saber muito mais sobre o Governador do que eu sei sobre outros sobreviventes – os que já conheço há mais de vinte episódios.
Outra decisão acertadíssima: não tentar enfiar uma trama inconsequente para os outros personagens. Seguimos Michonne e Andrea do mato até Woodbury e conhecemos o novo vilão. O episódio só tinha isso para fazer e é exatamente isso que faz. Nada mais. Em séries desse tipo, “simplicidade” quase sempre acaba sendo o melhor amigo, e complicação desnecessária foi o que lascou a segunda temporada. Deixar as situações todas fechadas evita buracos burros na trama, forçadas de barra e tudo mais. Pense em Lost. “The Constant” precisava mostrar muito do que estava passando na ilha, com o resto da galera? Nope. Só precisava mostrar Desmond/Penny. E é exatamente isso que faz.
Mas essa simplicidade precisa dos seus prazeres, ou então você ganha algo muito bobão. Pior ainda: um episódio de V. (Dez pontos de série maníaco se você sacou essa referência, e depois troque esses dez pontos por um abraço, porque nenhum de nós merece ter acompanhado V).
E um dos maiores prazeres do episódio é o retorno de Merle. Nunca fui muito com o personagem, mas nesse episódio? Muito, muito legal. Com aquele novo braço de vilão tosco e tudo; combinou perfeitamente. Também foi um baita acerto colocá-lo junto ao Governador pela duração do seu tempo de tela. O calmo e o psicopata sempre formam uma dinâmica fantástica, principalmente se o calmo é só um psicopata se escondendo.
Isso é uma pisada no pé de Andrea e Michonne, claro. Só dá para imaginar como deve ser frustrante para uma personagem tão pragmática ter a sua situação toda colocada assim, ao avesso. E dá para imaginar muito, muito bem. Pois Michonne solta grunhidos a todo instante, batendo o pé e fazendo beiço, soltando aqueles olhares. Capturada ou abrigada, ela não está onde quer. Não está no seu lugar de domínio. Ela é alguém que precisa ficar em controle para se sentir segura, desesperadamente. Nada de abrigo para ela.
Andrea até vê um possível benefício. Ainda que com dúvidas, ela soa encantada com a ideia de Woodbury. Já Michonne sente o cheiro de merda dançando para fora da boca do Governador sempre que o cara fala dos soldados. Novamente, é o tipo de coisa que soaria queimada. Mas aqui é diferente por 1) a personagem é muuuuito legal de se assistir em qualquer tipo de ação, por menor que seja 2) a personagem é do tipo não-foda-comigo, e está absolutamente certa em querer suas armas 3) tem uma tristeza nela, um cuidado em não se abrir… É meio difícil de decifrar, no fim. E fico com a leve impressão de que vai ser divertido tentar.















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