
Morto ou zumbi?
Spoilers Abaixo:
“GHGAHAHSADHAAHRHAHAJLAGA!!” – Zumbi do Poço
Mesmo não sendo exatamente o que as pessoas esperam quando começam a assistir The Walking Dead, “Cherokee Rose” é o que as mantém envolvidas no seu futuro e em seus problemáticos personagens. O que acaba sendo uma surpresa, já que o episódio talvez seja aquele com menos cenas de ação na história da série. E sem longas sequências silenciosas para se apoiar, tudo que resta são as interações entre os personagens. Ou seja, diálogos. Vários, vários diálogos. Isso não deveria ser tão assustador como soa.
Mas de uma maneira ou outra, eles conseguem segurar a barra. Claro, ainda temos a retirada do zumbi do poço – deliciosamente nojenta por causa de um “personagem” que parece ter saído direto de American Horror Story, representando o melhor trabalho de maquiagem do Greg Nicotero e sua equipe até agora. E também tem os seus momentos ruins, como nas conversas religiosas que ainda parecem ser baseadas em discussões pobres sobre o assunto em redes sociais, com uma lógica simplista e frases de efeito. Só que nesse emaranhado todo, Darabont* acha o que realmente merecem a nossa atenção. Claro, Rick e Hershel discutindo religião via 140 caracteres não é das coisas mais animadoras, mas pelo menos consegue ser usado não para tentar parecer importante, e sim para iluminar certos aspectos sobre ambos. O arrependimento de Rick se exalta ao ter suas ações colocadas contra uma força divina, assim como Hershel se torna uma figura ainda mais interessante ao falar sobre o seu pai abusivo.
Essa, aliás, é a trama principal do episódio. As consequências (ter o grupo expulso da fazenda) não ficam maiores em nenhuma das outras histórias, com tudo aqui sendo baseado em conversas que somadas devem tomar menos de 10 minutos. “Cherokee Rose” é ralo dessa maneira: cada personagem ganha um bom momento, conectado através da adaptação deles ao novo ambiente. Você sente a série se coçando para fazer ação – aquele problema no poço foi bobo caso não influencie algo no futuro -, mas ao mesmo tempo, confortável se acostumando a mais um novo ritmo, encontrando confiança em novas ideias.
Ela nem tenta usar pretextos nas outras histórias. Se uma versão anterior de The Walking Dead ligaria todos os pontos com alguma grande declaração temática sobre isolação, essa segunda temporada se garante com mais flexibilidade. Glenn e Maggie saem para pegar remédios e o roteiro não faz o mínimo de esforço para esconder o que está fazendo, levando a um relacionamento que não vai de encontro com a narrativa ou é tão confuso que você nunca tem uma boa noção do motivo para essas duas pessoas estarem juntas (como Rick e Lori no meio da primeira temporada). O resto se resolve com o agradável clima entre os atores, unidos naquela meia inocência – que por sua vez, contrasta bem com o clima pesado do resto.
Já em outro lugar, alheio ao significado de diversão, Daryl procura Sophia e consola Carol com uma história sobre a flor título. É incrível como a série pulou etapas com o personagem, meio que com medo dele e desinteressada pelo processo Sawyer-LaFleur, mas não importa: esse Novo Daryl é bem mais interessante que o Velho Daryl, e aos poucos ela está sentindo isso, percebendo o ritmo do personagem e também exagerando na sua recém descoberta santidade – o que será útil caso ela retorne a escrevê-lo como um babaca egoísta quando o seu irmão voltar (algo que parece inevitável a essa altura). Novo Daryl também cola por causa do seu ator, que se entrega ao perceber que o status de “PERIGO!!!” do seu personagem foi reduzido para “Comentário sarcástico e beijo no coração, heh”. Não é nada de outro mundo, mas Norman Reedus consegue ser reconfortante quando está falando baixo ao invés de gritar, passando um agradável sentimento caseiro pelo sotaque geralmente usado com outras intenções.
Jon Bernthal poderia pedir algumas dicas, já que o seu único truque é um olhar intenso que não está fazendo bem ao seu personagem. Esse é o tipo de arco emocional que precisa de nuance para funcionar, e o ator oferece nada disso. A sua fala é incisiva em exagero, o resto da cara não parece acompanhar os olhos e quando não tem as suas habilidades elevadas por atores competentes como Andrew Lincoln, se torna um verdadeiro fardo nas cenas. Parece caminhar nos pés de um personagem sem saber o que ele está passando – sendo crível em cenas de ação, mas arrastado por um forte foco fantasmagórico no resto.
Ou seja, a atuação de Bernthal é a representação corpórea da primeira temporada de The Walking Dead. E a segunda temporada, agradável com leves momentos de impecável qualidade, merece mais do que isso.
Outras Observações:
– “Tome essa arma, Andrea! Mas não se mate, viu?” – Todos os personagens da série.
– No final do episódio, Rick parece aposentar o seu uniforme. 20% algodão, 30% sangue e 50% suor: 100% fedor.
– Desentendimento da semana: Rick mente para Carl. Rick pede desculpa para Carl. Carl perdoa Rick e ele dá o seu chapéu para o filho. Aww! Lembram de quando Carl era um pirralho irritante? Bons tempos.
– Lori está grávida! O que, é claro, levanta várias e importantes perguntas. De quem é o filho? Para quem ela vai contar primeiro? Quais são os perigos de uma gravidez no meio do apocalipse? E mais importante do que tudo isso: quantas temporadas até a série nos mostrar um bebê zumbi?
– Hershel solta uns olhares para Maggie, fica falando muito sobre compaixão, parece preocupado com o grupo e todas as regras para banir armas. Essa é a parte do meu cérebro que amou Lost tomando conta ou está rolando algo estranho nessa fazenda? Por um lado, o clima está tão agradável e fazendo tão bem para a série que parece meio desnecessário vê-lo acabar com outra confusão. Por outro, esse pode ser o novo arco do botão da escotilha (melhor parte na fraca segunda temporada daquela série).
*- Por motivos práticos, estarei supondo que Darabont cuidou de toda a primeira metade da temporada (do primeiro até a pausa de dois meses que ocorrerá após a exibição do sétimo episódio). Não é ideal, mas é a única lógica que consegui achar nessa situação.













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