Bobagem resistir a mais um episódio de The Strain, um dos melhores thrillers da TV. Não julgue pelo que você ainda não conhece. Os produtores da série conseguiram algo improvável para os dias de hoje, não se engane: o herói da série até aqui se chama Abraham Setrakian.

Em “For Services Rendered”, a grande estrela do episódio foi o velho judeu, que além de bom na espada, se garante no debate. Logo no início tem uma discussão mais quente com Eph, que ainda está procurando razões científicas para planejar um contra-ataque aos vampiros de Nova Iorque. Setrakian mandou logo: “o seu problema é que você quer estar no controle, abandone sua lógica”. Fantástico. A diferença entre os dois não é apenas a experiência do marceneiro cheio de talentos, mas também de atuação. Enquanto Corey Stoll não consegue brilhar e nem assumir o protagonismo que lhe foi outorgado, David Bradley não precisa de muitos diálogos. Atua até calado. Stoll brilha dentro da casa de Jim, ao tentar olhar para cara de Abraham por debaixo de seu indefectível chapéu, numa de: “para onde nós vamos agora?”. Com cara de improviso, se saiu muito bem. Ponto pra ele.

Chega a ser um alívio artístico não vermos a TV repleta de jovenzinhos e seus rostos bonitos correndo atrás de bandidos. Nada contra a beleza ou contra juventude. Muito pelo contrário, no entanto é revigorante que o estereótipo cultivado por canais como CW ser deixado um pouco de lado. Temos aqui um “Van Helsing” com mais de 70 anos, problemas de saúde, atrás de se vingar não apenas daquele que é uma ameaça para humanidade, mas também que foi responsável por dar-lhe uma vida desgraçada nos campos de concentração e, se não bastasse, ser o responsável pela confecção da caixa.

Não podemos deixar de salientar a brilhante cena (uma das melhores da série até aqui) em um diálogo repleto de ideias soltas sobre nazismo, existência de Deus, subserviência, poder, quando Eichorst, interpretado brilhantemente por Richard Sammel (que é alemão mesmo), resolve confrontar a honra de Setrakian. Um exemplo claro de que, mesmo com um tema de terror, é possível abordar assuntos tão flamejantes como as ideias de Hitler. Ponto alto do episódio e tão excelente como todos os quarenta minutos que se passaram.

Desculpem o comentário ácido, mas contribuiu muito para que o episódio fosse acima da média, a não aparição da família do Eph. Foi de bom tamanho.

… E quem não gritou para o taxista acelerar quando cercado pelos zumbis-vampiros? E quem não se assustou com o estado cadavérico de Joan, que não iria poupar nem os filhos? Aterrorizantes, as cenas que envolvem as vítimas do incidente do avião vindo da Alemanha conseguem cumprir bem o seu papel, mas ganham mais destaque porque o plot não é uma desculpa para série, mas a história está rodeada de circunstâncias plausíveis para os acontecimentos nela infiltrados.

Tudo bem que logo no início de “For Services Rendered”, eles, meio que desnecessariamente, quiseram explicar vários dos comentários no SM (será que o Del Toro lê o nosso site?) no último review, como quando “falam” sobre o ataque orquestrado de um grupo hacker para deixar os meios de telecomunicação (especialmente celulares) off-line. Não foi sutil, mas serviu para ambientar todos que criticavam o fato de uma das cidades mais conhecidas do mundo viver um pesadelo da noite pro dia e nenhuma autoridade (seja qual ela fosse) tomasse uma atitude mais drástica.

Para não ficarmos apenas nos elogios, achei a cena da prisão do “núcleo latino” aquém para tudo que o episódio representou e também um pouco de exagero no carinho que Gus tratou Felix. Tudo bem que o “gordinho” não estava legal, mas colocar a cabeça do amigo no colo e consolá-lo foi um pouco demais. E este não é um comentário de cunho homofóbico, é apenas uma observação.

… E o que foi aquele Strigoi´s Squad assustador livrando a família de Joan da própria Joan? Visual medonho, voz pavorosa, os “caras de rato” serviram de salvação para Neeva e os órfãos, mas até quando se mostrarão do “lado do bem”? Curta mas excelente participação de mais um grande núcleo da história que já deve estar preparado para mais aparições para segunda temporada, garantida pelo canal FX.

Uma observação: ainda não entendi as críticas negativas feitas à série. Como qualquer outra – e temos deixado nossas ponderações para o bem ou para o mal – possui defeitos de uma adaptação literária para TV, mas no gênero terror/ação, vem devolver à mitologia vampiresca uma premissa que parecia esquecida: eles não são nossos amigos.

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