São muitos os aspectos interessantes de “Runaways”, quinto episódio da primeira temporada de The Strain, thriller do canal FX, roteirizado a partir de “Trilogia da Escuridão”, de Guillermo del Toro e Chuck Hogan. Uma delas é que a série não quer enganar ninguém, no bom sentido. É uma série sobre um tipo de vampiro esteticamente mais assustador. Fica clara a seguinte premissa: “Precisamos desmistificar a imagem romântica, jovial e adolescentemente sedutora que os vampiros conquistaram nos últimos anos. Eles amam sangue e se puderem irão nos matar para poderem se alimentar. Ponto”. Por que precisamos começar falando de algo que em um primeiro momento deveria ser óbvio?

Justamente porque a ideia de The Strain não é criar uma metáfora do caos, como acontece com The Walking Dead, muito menos humanizar a figura mitológica do vampiro afim de que ele se aproxime cada dia mais da rotina de um ser humano “normal”, como acontece em True Blood. Essas leituras devem ser respeitadas – especialmente a última como uma obra literária com enorme influência sobre o gênero – mas estão se afastando das características principais destes leechers. The Strain a cada episódio não cria qualquer tipo de piedade. Tudo está bem claro: uma guerra está próxima. The winter is coming. The storm is coming. Ou seja, lá o que for.

Não é curioso que o episódio tenha uma cena onde Setrakian está preparando seu café na casa de uma das vítimas e contando seus próprios passos para Eph, que se apropria de um pouco de leite para começar sua manhã? Não é mais interessante ainda ver o velhote lavando a louça daquilo que ele mesmo usou? Esse tipo de take pode parecer banal mas ele quer trazer naturalidade e VERDADE (leiam minha crítica da semana de Under The Dome e entenderão as letras garrafais) para a realidade vivida pelos personagens. Não há tempo para divagações sobre a vida e o quanto ela é fugaz e breve, ou mesmo que loucura é esta de encarar uma patologia em que os parasitas são inegavelmente fantasmagóricos. Está claro. Em cada ataque do falecido Ansel, a cada golpe certeiro de Setrakian, na impaciência de Eph de querer tomar uma atitude radical (quarentena) que venha proteger a sociedade, The Strain tem poucos defeitos.

Acho que a introdução de Fet está lenta demais. Espero que não percam o timing pois o personagem pode ser uma espécie de Setrakian do futuro, pegando o bastão do caça-vampiros mais competente para impedir o avanço dos planos do Mestre.

Acho que o roteiro e direção casaram-se bem no destino da esposa de Ansel, pois, que aflição maldita tomaria conta desta alma que viu seu marido transformar-se em uma anomalia, um perigo para própria família e vizinhança. Ficaria óbvia a fuga para casa da mamãe. Foi uma decisão radical e humanamente inapropriada mas o que é inapropriado naquela realidade massacrante? Por isso repito o tom escolhido pelo canal FX é excelente e busca objetividade nas suas decisões artísticas e certamente conquistando mais fãs com uma produção econômica nos efeitos especiais e plenamente convincente.

Bolivar é a personificação das lendas dos astros de rock dos anos 70. Predadores sexuais e tidos até como adoradores de satã; Gabe está assustador lembrando muitos artistas do gênero especialmente do mundo escandinavo. Sua transformação corresponde ao que existe de mais aterrorizante dos discos de black e death metal e as referências quanto a isto são claríssimas. Sua sede, intocável, encontrou naquele refúgio nova-iorquino, um esconderijo. Não me espantará se for o mais difícil a ser derrotado.

“Runaways” também resgatou aquela premissa que a claridade faz mal aos vampiros, bastante esquecida nas aventuras amorosas de Crepúsculo, onde as sanguessugas andavam a plena luz do dia, iam ao colégio, sem que ninguém os incomodasse, a não ser que Bella estivesse em perigo.

… E óbvio que as partes menos interessantes ficaram reservadas às aparições da Dra. Nora Martinez, indo visitar sua mãe numa espécie de clínica de recuperação ou abrigo para velhinhos. Seus dilemas são óbvios, não intrigantes e acrescentam pouco. Do outro lado, ainda não entendi a relação que o Palmer tem com o Mestre e se isso tem a ver com seu estado de saúde. Ainda está encoberto o papel da StoneHeart na utilização dos corpos que deveriam estar mortos. Também não curti o flashback de Setrakian. Pode ser que no próximo episódio tenhamos mais revelações. Ainda no que aconteceu de menos bacana, é certo que o drama que envolve Joan será mais explorado.

Bem acima de algumas produções com pretensões de conquistar algum determinado nicho, especialmente os jovens, The Strain não cometeu grandes pecados até aqui. Já em termos de emoção, estamos sendo presenteados como uma das melhores.

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