Sexo, drogas, rock’n’roll e muçulmano?
Em A Dark Crate, The Night Of mantém a excelência dos episódios anteriores e nos insere de uma vez por todas no pesadelo de Nasir Khan, o homicida que ‘olha como um universitário comum’.
Semana após semana impressiono-me com a qualidade dessa minissérie capaz de aliar atributos técnicos tão bem executados com fortes atuações que enriquecem ainda mais o roteiro estruturado de Richard Price. Não bastasse um John Turturro inspiradíssimo na pele de Stone, essa semana Michael K. Williams (The Wire, Boarwalk Empire) estreou como o ex-boxeador e presidiário, Freddy, e sua adição à série não poderia ser mais positiva e instigante.
Um episódio que pouco avançou na investigação sobre o assassinato de Andrea, mas aprofundou-se justamente no que a série se propõe: os bastidores reais e crus do sistema judicial/criminal americano e o drama de todos aqueles envolvidos… Seja o acusado e sua família, o decadente advogado de defesa, o detetive e outros membros do Clube da Justiça.
Apesar de pontuais, as poucas aparições do Detetive Box surgiram para embasar a sugestão que ele não está tão convicto sobre a culpa de Naz como afirma, e que, definitivamente, ele deve fortalecer sua tese de todas as formas possíveis. A repugnância que a cena de crime causou no policial e o fez vomitar é bastante significativa e não pode ser omitida diante de um acusado ‘que não olha como os outros’. Mais tarde voltamos a ver Box observando diversas fotos de Naz e as imagens do paquistanês voltam a nitidamente desconcertá-lo.
‘Não pague até estar livre’. É numa ida banal ao banheiro que Stone aproveita para obter as informações que definirão as margens do seu honorário no caso Khan. “Fortes evidências” e uma promotoria bastante certa que condenará Naz.
O que falar da negociação entre Stone e os Khan? O valor do trabalho de um homem confrontando a dor de uma família que dá ao filho um valor imensurável, mas que é incapaz de pagar o sugerido para defendê-lo. A falta de tato de Stone para agir em uma situação como essa reflete a frase que o vem rondando desde o primeiro episódio ‘Como conseguiu? Lugar certo, hora certa?’… O advogado porta de cadeia de ‘prostitutas e traficantes’ encaminha a negociação com pouquíssima humanidade e, ainda que, ao longo do episódio fique cada vez mais claro o quanto ele está envolvido com o caso e que não se trata apenas de uma questão financeira, a sensação que ele transmite aos pais de seu cliente é justamente a oposta. Em suas palavras ele afronta a importância que eles dão a Naz quando afirma que eles têm casa própria e consequentemente os recursos financeiros necessários. É o tipo de confrontamento que aquele casal devastado e abruptamente invadido não poderia suportar nesse momento.
Stone afirma enfaticamente que será mentira se algum advogado garantir a absolvição de Naz. Ironicamente é ele quem, depois de reduzir significativamente o seu preço, garante que nenhum outro bom advogado faria por menos… Ele ainda confronta o casal Khan novamente quando enfatiza os problemas de uma assistência jurídica gratuita que aceitaria o primeiro acordo oferecido.
O que Stone não poderia prever é que, sim, os Khan conseguiriam uma excelente assistência jurídica por menos do que ele cobrou… Gratuita. A advogada Alison Crowe surge e atinge os pais de Naz exatamente nas falhas de Stone, arrancando um choro genuíno e bastante comovente da mãe do jovem. A primeira aparição de Crowe na minissérie foi justamente diante da mídia evidenciando que é mais disso que ela procura ao aceitar o caso do “Sexo, drogas, rock’n’roll e muçulmano”. Atrás de frases de efeito ‘é por um caso assim que eu quis ser advogada’ e promessas de um trabalho sem qualquer honorário, Crowe conquista a confiança dos devastados Khan. Um de seus trunfos é usar oportunamente sua assistente Chandra, que apesar de ser indiana, ‘é próxima o suficiente do Paquistão’ para aproximar-se da família Khan. Se em seu discurso Stone não foi capaz de mostrar seu real interesse pela pessoa Naz, Crowe demonstrou isso brilhantemente omitindo seu interesse pelo retorno midiático que o caso Naz pode trazer para sua carreira.
Antes de deixar a casa dos Khan, Stone afirma que só começará a trabalhar no caso após o contrato ser assinado. Mas seu envolvimento já é tamanho que ele se contradiz tão logo sai da casa. Tem um encontro recheado de falsas formalidades com a promotora em busca de mais informações sobre o caso, contudo é o primeiro a sugerir um acordo, atitude que justamente usou para criticar uma defensoria pública.
Mas Stone externa toda sua preocupação com Naz ao comprar e levar roupas para o jovem na prisão. E nessa visita temos uma das melhores cenas do episódio. O momento em que Naz anuncia a Stone que ele não é mais seu advogado e a consternação, decepção e raiva de Stone transpassam a tela e nos atingem profundamente. Impossível não elogiar a atuação contundente de Turturro que dá às múltimplas camadas de Stone uma veracidade palpável. O ex-advogado deixa com Naz o seu cartão e fica a sensação que o jovem voltará a precisar dele.
Na rua, Stone para e observa a vitrine de uma loja. Um sapato fechado é o foco do seu olhar, algo que o homem com eczemas nos pés e o advogado decadente sem perspectivas de vivenciar um julgamento não precisa mais naquele momento.
Miau. Toda a interação do gato de Andrea com Stone, que soa tão deslocada e descartável, me sugere cada vez mais que o felino será parte importante nessa história. Foi com sua chegada repentina que vimos Stone abrindo a outra porta da casa de Andrea, a mesma que ela abriu para seu gato passear na noite em que foi assassinada. Será que finalmente alguém levantará a hipótese que o assassino pode ter entrado por ali? Bastante simbólica foi a cena em que o gatinho deita e se encosta aos pés de Stone, o pé com os eczemas lambuzados em margarina que tanto afasta as pessoas do advogado e o faz frequentar uma espécie de ‘Alérgicos Anônimos’ (O que foi aquilo?). Fiquei realmente sentida ao vê-lo abandonando o gato, mas acredito que eles voltarão a se encontrar antes do final dos fatídicos dez dias tão decisivos na vida do felino. Essa menção a dias contados não me parece desproposital.
Família Khan. Além de enfrentarem a difícil acusação de um filho homicida, Safar e Salim Khan ainda são submetidos a uma degradante revista na prisão e precisam lidar com a apreensão de seu táxi – a fonte de renda de Salim e de seus dois sócios. O pai de Naz recusa a ultrajante proposta de denunciar que o próprio filho roubou seu táxi na noite do crime, mas interessantemente, é o cartão de Stone que o policial entrega para os sócios de Salim caso eles decidam fazer a denúncia. Não enxergo Stone ‘mudando de lado’ e acusando Naz, mas não deixa de ser interessante que essa sugestão venha justamente quando a família Khan dispensa seus serviços.
Rikers Islands. E é nesse A Dark Crate que começamos a adentrar no pesadelo de Naz. Um estudante universitário comum que se vê encarcerado em uma realidade tão violenta e brutal como a prisão de Risker Islands. Ali, naquele sistema judicial a parte, todos aqueles ‘olhares gelados que olham como se matar não fosse nada’ já o julgaram e condenaram a uma sentença que não é boa. Tal como Freddy lhe disse. A realidade transmitida pela série é extremamente eficiente e nos vemos transportados para aquele cenário junto com Naz, temendo por sua vida a cada instante, por mais despretensioso que seja: quando dorme, toma banho ou vai ao banheiro… Há uma sensação de perigo concreta e a série volta a trabalhar eficientemente a tensão que chega ao público. Para Naz não há paz ali, ele é o muçulmano que estuprou e assassinou uma garota inocente. E sua origem será sua sombra, tal como vimos na prisão e na entrevista coletiva sobre o crime.
Eis que na inesperada figura da celebridade da prisão, o ex-boxeador Freddy, surge uma esperança para o já condenado Nasir Khan. Dono de regalias que vão desde acesso à televisão, celulares e visitas íntimas com a policial, Freddy é como uma santidade respeitada e admirada não somente pelos presos, mas também pelos policiais. E por algum motivo que ainda não ficou claro, este homem oferece sua proteção a Naz. E dessa interação podem nascer tramas interessantíssimas. Por que Freddy quis ajudar Naz? O que ele quer em troca? Com o poder que o homem ainda exerce fica possível imaginar que essa ajuda não se restrinja apenas à área interna de Rikers Island. Será que Freddy teria algum interesse em ajudar Naz em seu julgamento?
Freddy surge como um personagem interessantíssimo carregado de dualidades e suscitando uma série de questões e boas perspectivas para o futuro da série. É de seu discurso para Naz que surge o título desse episódio: a caixa preta que a vitela é mantida desde o dia que nasce para manter sua carne como seda.
Se no início do episódio Naz questiona se deve temer pela própria vida, no final está bem claro que ele descobriu a resposta. E a proteção oferecida por Freddy não poderia ser mais providencial para ele deixar de ser ‘a vitela que espera ser abatida’… Porque sem o apoio de Freddy, Naz terá menos tempo de vida em Rikers Island do que o gato de Andrea…
SM Detective
– A lista de suspeitos permanece a mesma: Naz; Motorista da funerária; A dupla que viu Naz e Andrea juntos na casa da jovem; Padrasto de Andrea; o Vizinho de Andrea.
– Andrea levou o mesmo número de facadas que sua idade: 22. Um número assustador que sugere um crime passional de alguém que a conhecia e por ela nutria ódio. Seu padrasto? Um traficante de drogas?















