As ideologias quase utópicas do jornalismo de Sorkin.

Ah, é realmente uma pena que The Newsroom esteja terminando. Agora me pego frequentemente imaginando o que farei após o término, tendo sido tão mal acostumado por Aaron Sorkin com um produto televisivo tão excelente!

Com Main Justice o resultado alcançado não foi diferente. Todos os elementos que me fizeram amar a série estavam lá: o texto rápido e dinâmico, o senso de urgência, as piadas contundentes e a excelência do roteiro. O plot principal dessa terceira temporada segue sendo muito bem desenvolvido, até porque devido ao número reduzido de episódios (apenas seis!), não há tempo a perder com rodeios de tramas.

Ainda que seja deveras difícil imaginar um jornalismo feito de forma tão idealista e comprometido com o interesse público, enquanto no mundo real os interesses são privados, é admirável o trabalho desenvolvido por Sorkin nessa série, que beira o perfeccionismo do autor (ainda bem!). A cena mais emblemática desse capítulo talvez tenha sido a ameaça de veicularem ao vivo a execução do mandato do FBI na redação da ACN. Ali podemos ver que até mesmo o FBI teme as repercussões da violação da primeira emenda, a opinião pública e o poder que a imprensa possui de moldá-la. Foi o quarto poder exercendo, na falta de melhor e diferente palavra, seu poder, o que foi algo vibrante de se assistir!

O texto da série é tão brilhante, empolgante, envolvente, cômico, catártico e visceral que até mesmo eu, com meu humilde inglês coloquial, consigo compreender todo o contexto e sentido das histórias, ainda que com as legendas no idioma original e o pomposo, eloquente e erudito inglês proferido pelos personagens.

Voltando ao arco principal dessa curta temporada, é realmente louvável o jornalismo proposto pelo texto de Sorkin, mesmo que vivamos hoje em dia em tempos tão cínicos. Mesmo que se caracterize mais em um contexto de ficção, beirando o idealismo, a mensagem é válida. Porém, o temor de Neal, e até mesmo de Will, nos apresenta a acachapante realidade: a implacabilidade das ações conduzidas pelo FBI. Prova disso é a fuga do personagem.

Contamos aqui, em Main Justice, com a presença sempre bem-vinda de Marcia Gay Harden, como a advogada da ACN. Seu texto jurídico (que me lembra a excelente The Good Wife) e as interações e embates com Will e seu ego são sempre algo bom de se ver na tela. E o que dizer de Olivia Munn, sua linda! Sua personagem, Sloan, é uma de minhas preferidas da série: hilária, confiante e independente, como se espera das mulheres do dito século 21. A cena na qual ela diz estar ouvindo tudo que Don está falando é hilária.

Gostei da discussão sobre ética e page views no episódio. Novamente soa utópica e idealista, como se você não pudesse fazer parte do seleto grupo de “jornalistas sérios” por receber gratificações e/ou bônus por sua audiência. Sinceramente não vejo diferença para o jornalismo televisionado, que sobrevive, ainda que indiretamente, de sua audiência. De seu Ibope (ou ratings) depende sua credibilidade, poder de barganha dentro da própria emissora e independência editorial. O tema foi explorado por Jim e sua atual (e indiferente pra mim) namorada e culminou na festa com Maggie, quando foi explicado como ela conseguiu sua história no trem.

E o que dizer do entrevistado conseguido por Maggie, que proclamou o apocalipse climático no telejornal? Vibrei de rir com a cena e como Will tentava contornar a situação, numa estratégia já conhecida e utilizada pelos telejornais de sempre se encerrar de “maneira leve” e otimista para o telespectador. Só aí, nessa tentativa de “edição da realidade”, é cabível uma discussão sobre os limites de recorte da notícia propostos pelo dito jornalismo de “interesse público”.

A participação de Leona neste episódio, embora não tenha sido magistral como no último, serviu para pelo menos introduzir mais uma subtrama: a da possível venda da ACN. O possível comprador, Lucas Pruit, pareceu para mim uma crítica de Sorkin aos empreendedores criadores de startups e suas excentricidades. Outra introdução feita em Main Justice foi do cara do RH que está caçando possíveis casais na redação do News Night. Embora eu não considere promissor e nem nutra muitas expectativas pelo plot, ao menos contribuiu como mais um alívio cômico bem sucedido no capítulo.

Outra relação que discute os limites da ética profissional e pessoal é a amizade entre Mackenzie e a agente do FBI. É interessante ver o quão tênue essa linha pode ser. Além disso, tivemos a aparição da fonte de vazamento das informações, que deve ser explorada mais futuramente.

Não satisfeito em nos brindar com essa avalanche de acontecimentos muito bem montados e editados, eis que o roteiro se encerra com mais um cliffhanger magistral. Ao final, não pude deixar de pensar como Will: mesmo sendo um figurão conhecido, sua arrogância não passou impune pelo Departamento de Justiça. Que venha o Grande Júri para que Will possa exercitar sua outra formação: a de advogado.

The Newsroom se consolida como excelente produto televisivo, que vai além de entreter: faz reflexões, críticas e leva o telespectador a questionar e pensar sobre a ordem vigente. Uma pena que seu fim se dê prematuramente (pelo menos pra mim), especialmente no meio de tantas produções que mal beiram a mediocridade.

Obrigado Sorkin por ter feito minha noite de segunda-feira memorável com um produto de entretenimento, muito mais até do que qualquer telejornal genérico por aí. Agradeço também pela oportunidade de vivenciar a agitada rotina de uma redação, ainda que de maneira parasita, quase simbiótica, pois ainda não tenho privilégio de exercer essa maravilhosa profissão em tempo integral: ser jornalista. Ainda assim, é gratificante poder ver em The Newsroom os mais bonitos ideais da profissão aprendidos lá no início na graduação.

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