Do fundo do meu coração, eu só queria dizer: Muito Obrigado.

Spoilers Abaixo:

Para encerrar a trajetória de The New Normal (que provavelmente não retorna), eu resolvi que tomaria para mim o sentido específico de uma review, e tornaria todas as palavras que se seguirão, em tratados de compartilhamento pessoal. E eu vou explicar por que em se tratando dessa série, é impossível não levar a coisa para o lado pessoal. Muito simples: Ainda que a palavra “minoria” soe deslocada do contexto hiper midiático da comunidade gay, somos e seremos sempre uma minoria, e como tal, temos menos acesso, menos atenção e menos retratação. A palavra “minoria” respira “fragilidade”, e mesmo quando luta (e há muita luta), denota carência, aprovação, ansiedade.

Por isso é tão absurdamente importante que os poucos diálogos culturais que são feitos para a “minoria”, possam manter a sua voz. Eu falo por aquela onde me aplico, e sim, preciso e necessito de uma voz amplificada, que possa dizer o mesmo que eu, para muitos mais do que os que me cercam, poderem ouvir. Às vezes um trecho de um diálogo, uma reviravolta, um simples olhar ou ângulo de cena, podem acalentar uma angústia ou esclarecer uma dúvida de alguém que não se vê retratado na mídia dramatúrgica como poderia. É importante, é político-social sim, porque seria ingenuidade fechar os olhos para isso. Mas há mais em se considerar, é claro.

Para o público que não é gay, The New Normal é apenas mais uma comédia. Levamos então em consideração suas tecnicalidades, que são, para esse público (e para parte do público-alvo), as únicas razões justas para o merecimento de um programa que quer permanecer no ar. No meu caso, a série ainda ganha de muitas, tornando sua existência relevante. Ouço e entendo os argumentos de quem se aborrece com as “lições de último bloco”, que no caso de uma “série-gay” soam injustamente tendenciosos. E reafirmo essa injustiça porque as “lições de último bloco” não são privilégio de The New Normal, e se repetem a cada novo episódio de qualquer comédia ou drama que se pretende acessível. Ninguém estranha porque, enfim, é o “natural”.

Também não posso fechar os olhos para o excesso de liberdade poética que às vezes fazia a série atravessar seu samba, ou para o maniqueísmo velado de precisar retratar uma Nana transformada, que poderia continuar sendo como era, apenas entendendo melhor alguns aspectos da tolerância. De fato, ela foi o maior acerto de The New Normal, e também é seu maior erro. O maior deslize de julgamento de roteiristas que pareciam tão seguros do diálogo que pretendiam manter com a sociedade americana. Quando Nana mudou, a série perdeu um terço de seu compromisso com o equilíbrio.

O saldo ainda é positivo. Os dois últimos episódios pareciam preparados para um encerramento categórico, como num presságio da pouca possibilidade de futuro. Porém, enquanto Finding Name era um episódio de transição, The Big Day era um dos series finale involuntários mais lindos que já tive a oportunidade de ver.

Não há muito que se dizer de Finding Name, apenas que ele foi divertido e correto. A saga para encontrar o nome de uma criança deve ser levada a sério, ou seu filho pode ganhar o nome de uma cantora de médio porte ou acabar registrado como Blog. O dia que eu tiver meu filho vou sofrer muito para tomar essa decisão, até porque o meu nome, por exemplo, não foi escolhido da maneira mais esperta do mundo.

Minha mãe, meu pai, um amigo da família e os padrinhos, deram cada um uma sugestão. Escreveram em papéis e colocaram num chapéu… Meu nome, senhores, foi escolhido num sorteio. “Henrique” foi sorteado e graças a Deus por isso. Devo essa sugestão ao padrinho que perdi meses depois dessa vitória. Poderia ser terrível, já que dentro do chapéu havia um Dornelles e um João. Nada contra esses nomes, mas não me sentiria bem com eles. Anos depois, outro nome precisa ser escolhido para aqueles que decidem seguir a carreira artística.  E esse é outro processo bem complicado.

No episódio do nome também conhecemos a mãe de Bryan. Assim como com a mãe de David, essa relação é cercada de emblemas psicológicos. Quase sempre, esse tipo de coisa é formada pela incapacidade de comunicação, de entendimento, presente no núcleo familiar. Como se trata de uma comédia, não é o momento de dramatizar sobre isso. As mães de Bryan e David vieram para o casamento dos filhos. Isso representa uma camada psicológica, mas representa muito mais um apelo para aquelas tramas típicas das comédias de situação: os noivos se prometem uma coisa, mas acabam fazendo outra.

Durante a primeira metade do finale, vimos os personagens se desdobrarem dentro desse esquema. Cada mãe desvirtuou a cerimônia numa direção, e é claro que os roteiristas também não iam perder a oportunidade de trabalhar dentro do velho e batido conceito do: o que é idealizado demais perde terreno para o que realmente vai fazer diferença na sua vida.

Pode não parecer, mas no caso de Goldie também foi assim. O finale se presta apenas a dizer a ela e a nós que nada precisa mudar ou voltar às origens. Todos alcançaram seu crescimento como tinha que ser. Esse papo pode parecer demagógico, mas nenhuma dramaturgia pode ignorar o impacto das ações nas vidas dos personagens. É utópico o crescimento de Goldie? Até certo ponto é sim. Mas o que importa é manter a coerência dessa mesma proposta exagerada. Goldie entendeu, nós entendemos, Shania teve seus momentos-fofura, e vão mãe e filha agora “criar” Clay.

Já na metade final do episódio, chegou a hora do parto tão aguardado. A partir daqui, se a série fosse continuar, estaríamos inaugurando outros tempos e outras discussões. Por sorte, um pouco de pessimismo pode ter resultado numa atenção especial a essas sequências, e The New Normal alcançou toda a sua competência, ao fazer as escolhas mais lindas para toda essa sequência. Da música à edição, tudo extremamente sensível, delicado, lúdico.

O típico da fantasia televisiva estava impresso ali naquele casamento. Da produção providencial ou padre-super-sexy transgredindo à igreja. Era um mundo alegórico, mas não impossível. Não dá pra saber até que ponto a gente copia a ficção ou até que ponto é a ficção que nos copia… Mas o amor, o anseio familiar, a paternidade, são coisas inerentes a qualquer ser humano. Eu sou homem, sou casado com outro homem, trocamos juramentos e alianças, construímos um patrimônio, bens, e ele já tinha um filho, que agora mora conosco. Assim como a série volta ao início para reforça isso, eu volto ao início para lembrá-los de que meu amor por The New Normal tem muitas justificativas. Mas a minoria a que pertenço, e para qual a série fala, ainda não é suficiente para subsidiar um pedaço de fantasia que seja feita pra nós. E principalmente, seja bem feita.

Essa pode ser a última vez. Eu agradeço a todos que estiveram aqui. Eu estou perfeitamente consciente de que muitos de vocês abandonaram a série por motivos concretos e válidos (de acordo com suas próprias expectativas). Mas mesmo com a frequência de comments na review diminuindo muito, eu quero agradecer a todos os comentários encorajadores e dizer que se a série voltar, estarei aqui, e que se não, preciso dizer que foi um imenso prazer. 22 episódios de muito humor transgressor, referências pop, piadas auto-referenciais e muita, mas muita inteligência textual.

Até, The New Normal… E espero que seja um até, breve.

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