
A arte de saber enrolar.
Spoilers Abaixo:
The Mentalist nunca foi uma série que procura desenvolver seus arcos rapidamente, nem criar um grande número de histórias por temporada. Pelo contrário, os roteiristas sempre se apoiaram no arco criado desde o episódio piloto da série, a trama que trata de Red John. Desde então, pouquíssimos arcos foram criados, e a maioria deles se conecta de alguma forma ao serial killer misterioso. Os outros episódios sempre envolveram casos avulsos, o que depois de três temporadas acaba irritando seu espectador. E realmente é impossível definir The Mentalist de forma diferente que “uma grande enrolação”. Os responsáveis pela série, cientes disso, procuraram alternativas para que seu público não os abandone. Aprenderam então que é possível enrolar sem irritar. É isso que Every Rose Has Its Thorn faz com muita competência.
Nessa semana a missão de Jane e os agentes da CBI é investigar o assassinato de John Flynn, CEO de uma empresa que procura pares amorosos para pessoas solitárias. Nesse contexto logo somos apresentados a Erica (vivida pela sempre sorridente Morena Baccarin), mulher de John, que tem papel importante dentro da empresa. Jane, então, baseado em uma curta conversa, afirma de forma contundente que Erica é a culpada pelo crime, e passa a batalhar para conseguir provar essa teoria. Com isso, o consultor passa a conviver frequentemente com a viúva, descobrindo muito sobre ela e também sobre ele mesmo. Enquanto isso, Lisbon foca-se em outros suspeitos, como o parceiro de negócios Henry Cliff, que logo conta ter sido chantageado por uma das mulheres que fizeram uso da empresa.
É inegável que os roteiristas de The Mentalist tenham sido muito felizes em produzir uma história diferente sem fugir de forma alguma da fórmula da série. A certeza que Jane tem da culpa de Erica muda completamente o foco da trama, o que torna a situação mais interessante. Dessa vez o consultor revela desde o princípio quem é a suspeita dele, e a investigação conduzida por ele foge do que estamos acostumados a ver, tornando Erica uma oponente instantânea para ele. Os diálogos entre os dois funcionam muito bem, tanto para a construção dela como para o desenvolvimento do protagonista, o qual comento mais tarde. The Mentalist vinha percorrendo por muitos casos da semana genéricos, apenas para encher linguiça, e aqui vemos que os roteiristas ainda têm criatividade o suficiente para criar investigações diferentes, mesmo que o tema seja incrivelmente batido. Afinal, uma mulher matando o marido pelo controle de uma empresa não é exatamente uma situação inédita. Aliás, uma das diferenças entre um bom roteiro e um ruim está justamente em como clichês são trabalhados.
Apesar de o caso da semana possuir acertos que os episódios anteriores não vinham tendo, em alguns pontos o roteiro comete alguns erros que não passam despercebidos. Aliás, o que torna os momentos finais piores que o restante do episódio é um problema que a série tem faz muito tempo. Já comentei em reviews passadas que a infalibilidade de Jane é muito prejudicial para a série, e o que vimos em Every Rose Has Its Thorn é um reflexo disso. Primeiro porque em momento algum o espectador chega a imaginar que Erica não seja a assassina de John. Além disso, as armações do consultor tem sido tão repetitivas que quando Lisbon anuncia a morte de Peter fica evidente que Jane havia pensado em alguma coisa para capturar Erica. É verdade que como os suspeitos são diferentes a cada caso, Patrick não precisa necessariamente inovar para obter o mesmo êxito, mas para o espectador isso soa como falta de criatividade dos roteiristas.
Enquanto as investigações têm se mostrado irregulares, em uma coisa The Mentalist tem acertado nos últimos episódios, que é o aprofundamento da personalidade problemática de Jane. Se na semana passada vimos que ele ainda tem problemas para encarar a morte de frente, aqui notamos que o consultor não só ainda não esqueceu sua falecida esposa como definitivamente não está pronto para seguir em frente. Os já citados diálogos com Erica tem exatamente essa finalidade, e a última cena, com Lisbon assistindo à entrevista de seu empregado, tem como objetivo escancarar para o espectador a fragilidade emocional de seu protagonista. É assim que The Mentalist deveria tratar todos os seus episódios em que não há um forte desenvolvimento de suas tramas. Com essa abordagem, os roteiristas conseguem enrolar a história até onde quiserem sem que o espectador perca a paciência, uma vez que durante os episódios existe pelo menos algum desenvolvimento, mesmo que seja pequeno. É uma forma de anunciar que existe um planejamento e que as coisas não estão sendo feitas de qualquer jeito.
Já que falei sobre Jane, aproveito para comentar sobre os outros personagens, que têm recebido um destaque maior do roteiro, mesmo que o envolvimento deles ainda seja somente superficial. É importante para a série que os coadjuvantes apareçam bastante, para que a produção não pareça ter somente um foco. No episódio passado tivemos uma maior aparição de Van Pelt, e dessa vez Rigsby aparece com mais força. É verdade que tanto ele como Cho têm sido utilizados mais como alívio cômico do que qualquer outra coisa, mas dessa vez o humor criado pelos diálogos entre os dois é sutil e acrescenta momentos divertidos para o episódio.
Com um episódio teoricamente avulso, The Mentalist consegue criar uma investigação criminal diferente sem distorcer sua fórmula, prossegue com o desenvolvimento de seu protagonista e não irrita o espectador. É assim que se faz fillers, coisa que os responsáveis pela série já deveriam ter aprendido faz tempo.













![Faça parte da nossa equipe [Mid-Season 2015]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2015/01/The-Originals-capa1-218x150.jpg)