Após todo recomeço é necessário um momento para reflexão, para decidir o que fazer a seguir. Após a morte de um importante personagem e a revelação dos grandes planos do führer, a série voltou alguns passos em seu ritmo para tomar o fôlego necessário nos dois últimos episódios da temporada. Com isso ela resolveu trabalhar em dois núcleos distintos, onde todos os personagens estavam inseridos. Apesar disso, dessa aparente calmaria, a série vai revelando passos importantes que serão revisitados (provavelmente) no futuro da narrativa.

No contexto geral, a narrativa se aprofunda ainda mais na ficção científica. As questões de realidades paralelas, o maquinário nazista, as teorias empregadas nas possibilidades da viagem. Tudo isso corre por uma tangente que a série nunca tinha apresentado até então. É a corrida armamentista da Guerra Fria anabolizada pelos conceitos da sci-fi. Ao invés de uma guerra ideológica, do capitalismo vs comunismo de nossa realidade histórica, há o sentido megalomaníaco dos nazistas de dominarem não só o mundo em que vivem, mas também todos aqueles ao seu alcance. Isso corre em paralelo com o plano do Ano Zero de Himmel. Os preparativos para a demolição da Estátua da Liberdade e a construção de um novo movimento do partido no lugar já começaram, mas com o sentido de convergência que a série assume é capaz de tudo isso acontecer junto com o outro braço que a trama começa a desenvolver.

Porque no contexto individual, os personagens começaram a desenvolver suas alianças, mas também suas fragilidades. Mesmo o show sabendo trabalhar muito bem o conceito distópico de seu material, não gostei desse senso de “estava escrito” que faz com que todos os personagens (principalmente aqueles do núcleo se São Francisco) se encontrem em Sabra.  Isso faz com que tempo gasto em plots como o de Childan e Ed sejam apenas uma muleta narrativa para que todos eles estivessem juntos naquele determinado momento. Quando o show usa a questão da quebra do status quo, da predeterminação temporal como mote principal, isso acaba soando um pouco desconexo do conjunto.

Mas tal artificio usado pelos roteiristas não prejudica o estabelecimento dos pontos fortes da história. Se por um lado não gostei da reunião forçada, gostei da utilização de Juliana e Frank como “pais da revolução”, como os criadores da resistência. É como um fechamento de um ciclo que começou quando eles receberam o filme das mãos de Trudy lá no primeiro episódio da série, tornando a jornada dos dois um arco com começo, meio e fim e deixando espaço para que as novas tarefas sejam realizadas. A mistura perfeita de esperança com determinação. Se com esses dois a série soube trabalhar, com Wyatt a interação de Juliana ainda é confusa. Ele ajuda cegamente a personagem, mas nunca está 100% comprometido ao fato. Mesmo que ele tenha as motivações pessoais, sempre fica um clima de desconfiança em torno do personagem, como se uma traição iminente fosse apenas questão de tempo.

Quem também colocou as motivações pessoais acima de tudo foi Smith. A relação entre ele e a mulher chegou num ponto de ruptura que talvez não tenha retorno concreto (pelo menos nessa realidade). Enquanto ele vai se engolfando pelos pesadelos e pelas metas vindas dos altos escalões do governo, sua mulher vai cedendo aos sentimentos e se aproximando, mesmo que por meios errados, de suprir tais necessidades. Desde o começo a dualidade interna de Smith foi um dos principais pontos de atração na série para mim e isso se acentuou bastante com a perda do filho. Só que agora eu só consigo captar confusão. O caminho que o personagem está percorrendo dá espaço para uma gama de atitudes que é possível que tudo saia dali, desde a meta de recuperar o filho até ele mesmo ser um dos que minarão o poderio nazista por dentro. Imaginem Smith como um dos cabeças da resistência, o quão chocante isso seria.

No entanto, esse recomeço foi a oportunidade necessária para que personagens que até então estavam cegos para os grandes mistérios da temporada começassem a aprender o que realmente se passa no balanço de forças entre as superpotências. Kido foi um deles. Se o pessoal de Sabra viu o vídeo e mesmo assim não acreditou, Kido somente com a história de Tagomi e com a prova cabal das “duas Trudys” aceitou prontamente o desenvolvimento e a capacidade de existência de outros mundos. Mas o senso de “plano próprio” ainda continua a pairar sobre o personagem, porque sua busca por Frank, Juliana e os outros ainda continua. E por último, mas não menos importante, temos Tagomi. O personagem sempre teve uma aura e paz e tranquilidade, mesmo nos piores momentos. Mas quando necessário ele mostra que sabe se defender até o ponto da eliminação total da ameaça, como ele fez com o assassino lebensborn enviado por Himmel.

Tudo converge pata o Ano Zero. Com a promessa de guerra, destruição e esperança, a reta final da série promete fortes emoções. Até a próxima!

Runa 1: Dois plots que poderiam ter ocupado o tempo gasto com Childan e Ed: a questão do submundo gay no Reich Americano e a caçada aos judeus na Zona Neutra. Seria bem mais interessante.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
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