Antes de livrar-se de um fantasma é preciso conhecê-lo.
Eu nunca quis ter um cãozinho… Por toda a minha infância e adolescência, me contentei com animais individualistas, que não faziam a menor questão que eu estivesse ali. Peixinhos, pintinhos e até um cágado chamado Jezebel. Minha resistência em adotar um cão vinha da observação de mundo e de um pouco de receio também. Me parecia estranho que eu pudesse ter tanto medo de ser atacado por cães enquanto as outras pessoas se dedicavam tanto a eles. E por Deus, eles viviam muito pouco. Como os outros poderiam se apegar a um ser vivo tão destinado a morrer antes de nós?
Isso mudou quando fui morar com meu namorado e ele tinha uma cadelinha linda que eu relutava em aceitar. Ela, então, chegou num dia de muita chuva e foi deixada comigo para que ele fosse trabalhar. Nos olhamos, eu e ela, com certa desconfiança. No meio do dia ela decidiu que não queria ficar sozinha comigo e fugiu. Desesperado com a iminente culpa, corri atrás, no meio do temporal, gritando seu nome pelo bairro e sujando toda a minha roupa. Até o momento do cerco, senti raiva, muita raiva pelo que ela me fizera passar. Mas, quando peguei-a nos braços para voltar, senti que ela tremia. Fui segurando-a por todo o trajeto, os dois molhados e sujos; e quando cheguei em casa, levei-a para dentro, sequei-a e percebi que chorava enquanto fazia isso… Eu chorava porque ela estava com medo e porque foi a partir desse medo, que eu percebi que iria amá-la de todo coração, mesmo pelo pouco tempo em que ela ainda vivesse.
Dito isso, há dois momentos que considero muito emblemáticos no episódio dessa semana de The Leftovers e os dois tem a ver com a bifurcação da personalidade de Patti.
Como Patti se vê: A líder dos Remanescentes Culpados, que finalmente oferece aos espectadores uma análise definitiva sobre o grupo: eles querem destruir a família, os laços, o apego; e como consequência bem-vinda disso, destruir o amargo da perda. Uma sociedade sem laços emocionais, sem amor, é uma sociedade onde o 14 de Outubro não teria o menor impacto. Nesse mundo não importariam os medos, não importaria se houvesse a fuga. Nesse mundo ninguém correria no meio da chuva para resgatar quem quer que fosse. “Podemos ficar buscando sinais do amor, da vida, do passado, ou podemos transformar as coisas”.
Como Patti é: O medo, entretanto, não gera só a fuga, como também paralisa. Em alguns casos, ele é tão forte e predominante, que mesmo quando uma grande oportunidade é colocada nas mãos de quem o sente, o medo a aniquila. Ali, naquele poço, sujos e molhados, estavam Patti e Kevin… Ela assumindo suas fraquezas, ele percebendo, enfim, que aquele fantasma do qual tinha tanto medo, era alguém por quem ele poderia sentir muita compaixão. No final das contas, o que nenhum dos dois nunca quis foi perder.
O mundo de The Leftovers continua fritando nossas cabeças. É tão lindo que dói. E é lindo de um jeito delicado, ao mesmo tempo. A força desses roteiros escritos com tanto apuro; a sensibilidade da direção; a entrega dos atores e a atmosfera criada a partir de todos esses elementos, fizeram com que essa série se tornasse uma espécie de alegoria lúdica irrepreensível. Damon Lindelof (que escreveu todos os episódios em parceria com outros roteiristas) fez arte.
Desde que The Leftovers estreou que eu evitei sempre ao máximo falar de Lost nas reviews. E o fiz porque sempre me pareceu uma comparação totalmente desnecessária. Agora, contudo, preciso me render a mencionar o primeiro trabalho de Damon, não porque haja bases de comparação, mas porque ironicamente, é a segunda vez que o showrunner adentra as portas do mundo espiritual. E não podemos negar que a forma como ele estabeleceu a temporada final de Lost, ajudou muito na construção desse “inferno” subjetivo por onde Virgil guiou Kevin.
Partindo do início…
Ao acordar no quarto de hotel Kevin abre o guarda-roupa e existem algumas peças de vestuário, determinantes para o que acontecerá dali por diante. São três versões e ele acaba por escolher o terno, fazendo com as engrenagens daquele universo se configurem para receber o “assassino internacional”, que se livrará de Patti num engenhoso plano de espionagem. Lembram do que estava escrito na porta do guarda-roupa? “Saiba primeiro quem você é, então adorne a si mesmo adequadamente”.
Devidamente adornado, Kevin segue para desbravar aquele mundo e o tempo todo em que interage com elementos dele, é perseguido pela ópera Nabucco, mais precisamente a canção do terceiro ato “Va, Pensiero”, que diz em uma crescente dramática:
Vá, pensamento, sobre as asas douradas.
(…) Traga-nos um ar de lamentação triste
Que o Senhor lhe inspire uma harmonia
que transforme a nossa dor em virtude”
Logo em seguida, Kevin vê uma menina sendo afogada na piscina e é aí que começam as ousadias do roteiro desse episódio, que quanto mais penso a respeito, mais parece uma peça notória do novo mundo dramatúrgico da televisão mundial.
Da mesma forma com a qual Kevin escolhe um “personagem” para adornar-se e perseguir seu objetivo, a Patti que surge diante dele naquela reunião que trouxe Gladys e Santo Wayne de volta, também não é ela mesma. Perto de ser assassinada, inclusive, ela chega a bradar tratar-se de uma fraude, no melhor estilo conspiração política. O fato é que, realmente, aquela não era a verdadeira Patti e a coisa foi se montando na minha cabeça a partir do momento em que o ex-marido dela, Neil, foi identificado como o homem que “cuidava” da garotinha salva na piscina.
Em dado momento do episódio, Virgil diz a Kevin que ele não pode beber a água que eles oferecem ali de jeito nenhum. A água é apresentada, enfim, como um grande símbolo da selagem entre mundo físico e espiritual. Tomar a água naquele mundo manteria o espírito preso a ele. Isso está absolutamente conectado com o conceito de Axis Mundi visto na premiere e com a representatividade do lago dentro da comunidade de Jarden. O lago na cidade e o poço no purgatório de Kevin são Axis Mundis invertidos, partindo do solo para o subsolo (não para o alto), como deve ser nesse caso, em que a viagem proposta para Kevin/Dante é em direção ao “inferno”.
Quando fica estabelecido que ao beber a água Virgil esquece sua conexão com o mundo físico, fica absolutamente claro o porquê da menina ter se jogado na piscina no começo do episódio. Percebem como é absolutamente poderoso e triste que a verdadeira Patti seja uma criança acuada, que se relaciona com aquele que deveria ser seu marido pela ótica da intimidação de um pai algoz dominador? E ao jogar-se na piscina, a menina Patti queria afogar-se naquela água que a faria esquecer o que passou; atravessar as fronteiras da lembrança… essa que sempre a atormentou. Mas, Kevin a salva (como não conseguiu fazer em vida) e acaba ficando com a responsabilidade de guiá-la – agora ele – no caminho da redenção.
As pontes entre o mundo físico e espiritual vão se revelando e se conectando com absolutamente tudo que vimos até aqui. Por exemplo, estariam os pássaros que Erika enterra sendo impedidos de voltar (como voltou o primeiro) porque são esmagados no plano espiritual? Se a água funciona tanto lá no “hotel” quanto em Jarden como um signo entre os planos, seria seguro dizer que bastou Kevin chegar à cidade e um terremoto escoou toda ela propositalmente? Muito mais do que perguntas, essas são impressões que somente uma dramaturgia muito bem planejada poderia levantar. E nada disso foi dito, sublinhado… Nenhuma das teorias ou conclusões foram desenhadas para o espectador. É isso que aumenta ainda mais o meu respeito pela série.
Comecei esse texto contando a história da minha cadelinha porque um dos sentimentos mais fortes que já senti enquanto fã de The Leftovers, surgiu daquele momento em que Patti e Kevin dividiam aquele poço. Ao sabermos que Neil era um homem de fetiches bizarros e personalidade maligna, imediatamente pensamos que tudo que Patti mais queria era livrar-se dele. Mas, não… Ela teve todas as chances, mas escolheu não fazê-lo. É chocante imaginar que no final das contas, toda luta dela para disseminar a mensagem dos Remanescentes partia de um medo muito maior do que o de viver sendo subjugada por um marido castrador. Era o medo de perder, de ficar só, de sentir saudade… E caramba gente, quem aqui é não é capaz de se identificar com isso? Quando Kevin a abraçou e chorou beijando-lhe a cabeça, eu quis atravessar a TV e ir até lá fazer o mesmo.
Três anos depois de perceber o quanto eu era capaz de amar a minha relutante cadelinha, ela morreu. Será mesmo que eu não poderia ser seduzido por uma sociedade onde a dor da perda pudesse ser extinta? Ou será que ainda que sangre o coração, os laços de afeto compensam qualquer partida?
Enfim, nenhum medo pode ser subestimado e não existem fantasmas quando os olhamos de perto. Damon Lindelof entende bem das duas coisas e em The Leftovers fez o que todos duvidavam ser possível: nos jogou num poço onde o que menos importa são as perguntas… De fato, o que importa mesmo é compartilhar a vida.
As Sobras: Me emocionei em vários momentos desse texto… Estou tão apaixonado por The Leftovers que baixei as músicas e passei a semana passada inteira ouvindo. Até a canção da nova abertura já me agrada bastante.
As Sobras 2: O pai de Kevin apareceu em Perth, na Austrália, se comunicando com ele, mesmo sendo um elemento vivo da história. Ele parecia passar por um ritual onde tornou-se possível vislumbrar um mundo através do outro.
As Sobras 3: Outro elemento “vivo” que “apareceu” no episódio foi Mary. Seria o bebê a única razão pela qual ela receberia uma visita com direito a balões?















