Fé é dor.
Ouvi, quando criança, uma história sobre um diálogo entre uma freira e Deus, que nunca saiu da minha memória. Na minha incisiva formação católica, qualquer frase ou comentário que incluísse o divino tinha que vir carregada daquele respeito transmutado em puro medo. Embora nas escrituras Deus tivesse dado tantas evidências de que o homem era seu semelhante, o tratamos com uma tremida reverência. Nunca entendemos que não estaríamos rindo de Deus e sim rindo COM Deus.
Santa Teresa de Ávila é a protagonista desse diálogo sobre o qual eu falei. Num dia, depois de muito perrengue, ela questiona ao Senhor porque tudo era tão difícil para ela, que estava seguindo para disseminar sua palavra. Deus lhe responde dizendo que é desse jeito que ele trata os amigos. A freira então lhe manda essa: É por isso que o Senhor tem tão poucos.
Nesse pequeno diálogo estão presentes não só o humor debochado do altíssimo, como também a ousadia da Santa em lhe responder à altura. Também faz parte aí desse trecho uma perspectiva clássica das relações entre fé e humanidade: acreditar dói.
Não é só em uma ou duas histórias que o crente aparece passando por maus bocados no seu compromisso com o Pai; são em várias. Quase todas as histórias que ouvi sobre santos ou personalidades bíblicas estão tomadas de sofrimento como parte essencial do reconhecimento da fé. E essa noção de flagelo ultrapassou os séculos como algo inerente à relação com o divino. Até mesmo na dramaturgia todos os melhores sofredores do cinema e da TV são aqueles que mais adiante, serão recompensados com as metáforas do paraíso.
Em The Leftovers nós conhecemos um dos maiores crentes das séries: Matt. No Room at the Inn foi um episódio escrito com excelência, não só pelo que ofereceu de evolução para a trama, mas também pela profusão de latências que escapavam das cenas cheias de uma eloquência ironicamente religiosa. Por uma hora inteira, a imersão foi tão plena que era como se eu estivesse ali, com o personagem, vendo seu desespero se desenhar inteiro em conflito com sua fé.
Matt sempre quis acreditar. Chegar até Miracle lhe colocou sob uma nova redoma fortalecida de crenças. Ainda que o acaso esteja ali, em algum lugar, ameaçando tudo de ser pavorosamente aleatório, para ele a noite em que Mary acordou é um sinal de que o lugar tem alguma coisa de especial. Ele, aliás, luta contra qualquer possibilidade de acaso e repete milimetricamente todo o ritual correspondente ao do dia em que a esposa recuperou a consciência. Acaba sendo justamente na sua capacidade de acreditar até na ciência, que ele se vê num longo inferno pessoal e completamente inesperado.
Acaba sendo assim mesmo… Geralmente aqueles que são muito ligados aos dogmas religiosos acreditam na ligação entre fé e sofrimento. Matt fica o tempo todo passeando por um gráfico de altos e baixos vertiginoso. Vem a graça da mulher acordando, mas em seguida ela volta a dormir. Vem a graça da gravidez, mas em seguida ele perde o direito de voltar para o solo de onde acredita vir o milagre que lhe re-concedeu o direito a uma família. E é a fé sendo testada, sempre… Para ele, é papel do homem reconhecer e se relacionar com os mistérios de cima.
Fiquei muito nervoso quando vi Matt perdendo as pulseiras para um pai desesperado. Nós nos importamos com ele, queremos que sua mulher acorde, queremos que ele tenha o filho, sentimos um golpe de compaixão quando as coisas começaram a ir dando errado gradativamente. Mas, não podemos esquecer jamais que a personalidade desse personagem é moldada pela intuição religiosa. Enquanto aqueles enganos iam acontecendo ele só queria salvar a mulher; mas, assim que a salvou, a percepção se expandiu. Sua fé foi testada, ele precisava reforçar seu compromisso, ele não viu tudo aquilo aleatoriamente. É aquilo… O Matt de Miracle acredita em Miracle. Nada é aleatório.
Fiquei maravilhado com aqueles minutos passados dentro do acampamento. Matt não percebeu imediatamente, mas ali estavam algumas pessoas que também entendiam essa nova existência como uma existência de flagelo. Deus queria algo quando deixou sobras e muitos não entendem que isso não pode ser ignorado. É um pensamento muito próximo dos Remanescentes Culpados, mas que não rejeita a sociedade e sim visa que ela entenda seu papel. Posso estar errado, mas havia no acampamento um número considerável de residentes que buscavam a dor. E a dor é, historicamente falando, um forte instrumento de comunhão com forças superiores.
Enfim, a forma como o próprio dia mantém a dinâmica de “tudo está perdido” com “ainda há esperança”, leva Matt a reconhecer o acidente que mata o pai desesperado como outra interferência não-aleatória. E isso tem um preço: A fé que suporta e o religioso que se penitencia. Foi com um certo choque que vi Matt subindo naquele trailer para ocupar o lugar de um outro penitente. A inscrição “Arrependa-se” é a carapuça perfeita para ele, que tem em Jó o seu personagem bíblico mais referencial; além de um profundo interesse em se relacionar com o divino daquela forma mencionada no início desse texto.
No Room at the Inn foi um grande episódio. Ele redime a carreira de Damon Lindelof de maneira definitiva. Nunca foi sobre o mistério e disso ninguém pode acusá-lo. Já a forma como os personagens são construídos… meu Deus, que competência. E não só isso; o episódio é bem dirigido, calculado nas suas analogias e com aquela trilha sonora que dialoga com tudo que já está sendo apresentado. No final, quando Regina Spektor canta que Ninguém ri de Deus quando está faminto ou congelado; ali está o arauto das crenças de Matt. Ele não ri de Deus; ele sabe que a fé machuca. Ele não procura por Deus apenas quando tudo desaba; ao menos ele não pensa que o faz. Assim que seu filho lhe foi enviado ele soube que precisava voltar a sofrer. Todos sofriam por causa de algo que lhes foi tirado; e ele acabara de ter algo que lhe foi devolvido. Sua vez de agonizar chegou, porque a dor justifica sua permanência; a dor motiva seu compromisso com o destino determinado por Deus.
A vez de Matt chegou… Será que todos somos capazes de reconhecer quando será a nossa?
As Sobras: John cada vez mais incisivo sobre não se poder falar de possíveis fenômenos dentro da cidade. Por que ele é tão cético?
As Sobras 2: Notaram a imensa bandeira do Brasil no acampamento? Fiquei orgulhoso.
As Sobras 3: Nora sempre fazendo acontecer. Personagem linda.
As Sobras 4: E a campanha “por todos nus com igualdade” continua. Eccleston está tão devotado ao personagem que não viu problemas. E aliás, que ator… Que ator!















