Bem-vindo ao eixo do mundo.
O tempo todo em que desfrutamos da experiência da vida, somos guiados pelo instinto e pela razão. As duas coisas são contraditórias, mas absolutamente imbuídas da mesma ambiguidade. Por instinto, enfrentamos o risco e acertamos ou erramos na hora do resultado. A razão às vezes nos impede de fracassar, mas seu excesso pode perturbar o juízo. Não pensem que é só o impulso o maior inimigo da evolução… Pensar demais pode corroer tudo por dentro; e o irônico é que o ser humano já sabia disso mesmo antes da “era da razão”.
A angústia e o pesar são sentimentos que mesmo o homem ancestral já experimentava. A perda, a morte, o acidental, são aspectos existenciais que independem da comunicação como nós conhecemos. E a dor e a ansiedade de ver-se vivo sem ter pedido para viver, sendo obrigado a lidar com a finitude e as mudanças constantes, fez com que o ser humano buscasse sempre por saídas e respostas. Foi esse homem ancestral que elegeu o acaso como a entidade primordial que regia o céu e a terra. E na busca por uma comunicação direta com essas forças, criou-se instintivamente o conceito filosófico de Axis Mundi.
Incapazes de se expressar na forma verbal inerente à filosofia, os homens ancestrais buscavam por representações físicas dessa conexão entre mundo caótico e mundo celestial. Eles então se reuniam em volta de imensos totens, montanhas, árvores muito altas, fogueiras com colunas de fumaça… Esses obeliscos arcaicos evoluíram através do tempo; viraram templos, monumentos conhecidos pela humanidade. Os xamãs se tornaram sacerdotes e as muitas formas de representação do diálogo entre divino e humano se organizaram para reger a vida quase que completamente. Entretanto, Axis Mundi é tudo que possa ser entendido como uma ponte entre céu e terra.
Então, The Leftovers volta para sua segunda temporada e completamente por acaso (sim, ele), uma mulher ancestral grávida acorda no meio da noite e sai da caverna de seu bando para fazer xixi. Esse momento é crucial para que ela sobreviva ao desabamento que mata todo o grupo e todas as referências que ela tinha até ali. O estresse do acidente provoca o parto e a mulher se vê sozinha numa realidade de novas privações. Ela viveu uma espécie de Partida Repentina.
O tempo todo ela olha pro céu, ela busca equilíbrio nas formas celestiais, ela se guia por essas sensações; e na nova jornada, o acaso volta a agir, provando que enquanto alguns perdem no processo da mudança, outros ganham. Depois do 14 de outubro, todos também olharam para o céu em busca de conforto. As mudanças promovidas pelo fenômeno também levaram a outras benfeitorias. Não é a toa, então, que um bebê seja o símbolo da renovação nos dois casos.
Quando terminou no ano passado, a série de Tom Perrota e Damon Lindelof fechou um ciclo inteiro. Independente da interferência da HBO, o primeiro ano esgotou o material original e deixou muito poucas pontas soltas (considerando que não acredito na resolução do “mistério”). Nós sabemos que a afetada concepção do programa não foi inicialmente recebida de modo positivo pela crítica e por boa parte da audiência. Assim, muitas mudanças conceituais foram prometidas e com essa premiere pudemos ver que elas foram cumpridas. Entretanto, o teor desse fantástico episódio foi fiel ao espírito referencial e filosófico da série.
Numa primeira olhada tudo parece bastante estranho… Na verdade, até mesmo numa segunda. Começamos com antigas civilizações, fomos direto para a bizarra Miracle e os personagens que nós conhecemos mesmo apareceram no terço final do episódio. Mas, toda essa estratégia de distanciamento do que nós conhecemos funcionou muito bem, porque fomos forçados a manter uma atenção especial ao que víamos. Havia no meio de tudo aquilo uma constante interrogação. “Interrogação” sempre foi, inclusive, um elemento com o qual precisamos conviver muito em The Leftovers; a diferença é que agora a luta contra a memória e a perda perderam terreno para o exercício da dúvida. Por que há uma cidade onde ninguém foi levado? O que Miracle tem de especial? Seria ela o Axis Mundi derradeiro, responsável pela comunicação entre Deus e a terra?
Acho que isso foi bastante insinuado quando partimos da morte da mulher ancestral diretamente para o lago onde Evie e as amigas se banhavam. Não ouso dizer que há uma conexão prática que queira dizer que Miracle é uma cidade-mito onde a Partida Repentina não teve efeito. Mas, Damon faz os terremotos da cidade aparecerem através das épocas, gerando uma expectativa de que isso – mais a água e alguns outros detalhes – possam situar a cidade em algum privilégio geográfico. Nenhum morador fala em Axis Mundi no texto, mas há um ancião morando numa espécie de totem de observação. Isso faria sentido, porque se a cidade quer se convencer e convencer o mundo de que é especial, ela pode ter buscado analogias para sustentar o posto.
O clima de suspeita é a principal característica desse novo ano. Na Season 1 havia muita coisa que a gente estranhava, mas quase todas elas estavam relacionadas aos Remanescentes ou à Partida. Em Miracle, há uma atmosfera estranha de mistério essencial; não como em Mapleton, em que o mistério central afetava os personagens em primeiro lugar.
John Murphy é um bombeiro que coloca fogo nas casas alheias como resultado de um julgamento. Ele foi um criminoso e tem uma família estranha que inclui a mulher surda, a filha epilética e o filho religioso e servil. Ele recebe tortas que não come por desconfiança e não quer, de forma alguma, que Matt fale para a cidade sobre a sensível melhora de sua mulher.
Também não deve ser coincidência que o mesmo lago dos primeiros momentos tenha sido afetado por outro tremor. Colocando em perspectiva fica bem claro que começamos com um terremoto mudando a vida da mulher ancestral, e terminamos com um terremoto que abre uma fenda no lago por onde escorre toda a água (e também as amigas?); o que, sem dúvida, também vai transformar a rotina dos Murphy. De fato, a chegada de Kevin não deixa de ser uma outra fenda por onde escaparam as certezas daqueles moradores.
Outro momento emblemático foi o da mulher de John desenterrando uma caixa com um pássaro preso dentro. Antes de abrir ela parece claramente apreensiva, como se pedisse por uma resposta a uma angústia muito importante. O pássaro está vivo e a questão é saber se isso significa que as coisas não morrem ou se elas, por fim, ressuscitam em Miracle. Daí, as meninas aparecem correndo nuas pela floresta; um homem mata um bode no meio de um restaurante (como se sempre fizesse isso); e a torta que John recebe parece ter uma serpente desenhada na massa da superfície.
Serpentes, bodes, nus aparentemente ritualísticos… Tudo isso pode ser encontrado nas várias vertentes do Axis Mundi espalhadas pelo globo, reforçando a ideia de que a temporada vai brincar com a possibilidade de que Miracle seja o elo definitivo entre o mundo terreno e o que quer que tenha sido responsável pela Partida. Isso se todos naquele lugar não estiverem apenas sendo manipulados pelo acaso (sempre ele) enquanto pensam, erroneamente, que o manipulam (o que seria, enfim, imensamente irônico).
O curioso é que na canção da nova abertura, há uma série de elementos que nos relembram dos pesares vistos na primeira temporada: “Alguns dizem que uma vez você se foi para sempre. Alguns dizem que você vai voltar. Alguns dizem que você vai descansar nos braços do Salvador…”. Porém, nessa mesma letra há uma frase muito emblemática que invoca a nossa capacidade não de juntar peças, mas de aceitar o impacto do jogo. Quando a canção diz “Deixe o mistério ser” ela está dizendo que não importam os obeliscos que queiram se comunicar com Deus; não importam os símbolos celestiais criados para o conforto dos inconformados… O Axis Mundi é uma ideia abstrata pautada na incompreensão do destino, do acaso, do inevitável. O problema é que a única certeza da existência é a imprevisibilidade; e lutar contra ela é o mesmo que lutar contra o tempo.
Miracle acha que venceu o acaso porque é especial… Mas, não seria ela apenas – e debochadamente – um acaso? A Partida Repentina nos ensinou que tudo é aleatório, o homem é que não consegue aceitar a própria insignificância.
“Alguns dizem que eles estão indo para um lugar chamado Glória
E eu não estou dizendo que não é um fato
Mas ouvi dizer que eu estou na estrada para o purgatório
E eu não gosto do som disso
Eu acredito no amor e eu vivo a minha vida em conformidade
Eu optei por deixar o mistério ser”
As Sobras: Eu acredito em Isacc, e vocês?
As Sobras 2: By the way, eu preferia imensamente a primeira abertura, mas entendo a necessidade da mudança.
As Sobras 3: Estamos de volta com o maravilhoso mundo de The Leftovers. Eu estava com saudades de vocês.






















