Na ficção a sanidade é sempre ingrediente da loucura.
Vamos admitir que essa não é a história mais original do mundo… Se tem uma coisa que os autores espalhados pelo globo gostam de fazer, é responsabilizar a loucura pelos lampejos mais brilhantes de quem é são. Eles gostam de colocar nas palavras de personagens “loucos”, aquelas linhas cheias de verdade, que saem dali justamente para serem ambíguas, duvidosas, para causarem um impacto distendido. Temos entre nós, culturalmente, uma certa “mitologia da loucura”, que faz com que todos os aspectos dela partam de uma possibilidade, mesmo que mínima, de que o louco seja um sábio sem filtro; alguém que esqueceu as convenções da existência e começou a ser capaz de ver através das organizações pré-estabelecidas.
Assim, temos nessa semana um episódio que trouxe à The Leftovers uma dose cavalar de Damon Lindelof. Solace for Tired Feet é o episódio que mais deu vazão aos aspectos misteriosos da série, se colocando à frente, realmente, do que está por trás do hipotético arrebatamento. E fez isso usando o pai de Kevin como centro narrativo; ele que é, também, o aspecto mais original da série; o personagem que não saiu das páginas do livro e que pode ser usado por Lindelof para satisfazer a incontrolável necessidade do showrruner de incutir segredos nas histórias que conta.
O Sr. Garvey é aquela boa e velha “voz da verdade”, que jamais será ouvida porque vem envolvida de um aparente desequilíbrio. O problema é que a dúvida afeta apenas os personagens, porque nós, enfim, já estamos cansados de saber que no meio do surto, pode haver algumas importantes chaves.
O episódio se abriu com o rosto de Gladys em cartazes que pedem para que os RC sejam “salvos”. Acho que ninguém está ligando se eles serão salvos ou não, e tudo não passa de uma manobra passivo-agressiva de Matt. Mais tarde, eles fazem manifestações exigindo que NÃO sejam salvos, apenas para reforçar o martírio e conseguir com isso, alguma resposta empática. Continuo achando que o destino de Gladys foi engendrado por eles mesmos.
No entanto, eles não são o foco dessa semana. Ainda nessa abertura, Lindelof aproveita para envolver o Sr. Garvey de uma atmosfera de incerteza, de sobrenaturalidade, quando ele aparece do nada para salvar Jill. Tudo é esclarecido logo adiante – ainda bem – porque o roteiro não está interessado em deixar pontas soltas que possam ser criticadas por pairarem no vento. Esse episódio traz de volta o medo de ser envolvido por perguntas que gerem expectativas de respostas. Aqueles, os sempre temerosos efeitos do passado de insatisfação dos que conhecem o trabalho de Damon. Ainda estamos no campo do apelo humano; mas, flertando mais do que nunca com o que todos queremos saber (mesmo que em segunda instância): o que aconteceu com os desaparecidos?
Digo que ainda estamos dentro do apelo humano porque embora as questões levantadas sejam importantes, a relação de Kevin e Nora, por exemplo, continua sendo um aspecto precioso da trama pra mim. Ver a forma como os dois compreendem a disfuncionalidade dessa relação é irresistível. Nora, por exemplo, soltando aquela mangueira d’água em Meg, foi um momento divertido para mim. O adiamento do sexo e o sexo em sí, muito intenso e representado numa cena muito bem dirigida, tornam Kevin e Nora uma espécie de casal inevitável, cheio de deficiências individuais, mas que funciona perfeitamente quando junto.
Porém, ali do outro lado está o Kevin perturbado, atormentado, tendo aqueles sonhos que flertam com a realidade de maneiras bastante preocupantes. A coisa toda com os cães ainda está em pauta, mas não podemos esquecer que assim como com o alce da premiere (era um alce?), os animais são uma parte sempre marcada desses desvios oníricos do personagem.
A sequência toda parece um sonho, mas ele acorda ferido, com um cachorro preso no quintal e com Aimee lhe garantindo que muita coisa aconteceu na noite anterior. Não podemos esquecer que no sonho de Kevin havia uma caixa de correio, mas o mesmo tipo de caixa apareceu na realidade de Tom. Os dois também compartilham de um ferimento na mão e lutam contra alguma espécie de percepção pessoal. De certa forma, os dois precisam lidar com uma questão de crença. Tom sendo levado à dúvida e Kevin, deslizando para a possibilidade de voltar a ter fé.
A linha de produção de asiáticas grávidas era uma coisa que eu já achava possível, mas essa perspectiva afeta a dinâmica de Tom e Christine de uma forma bem agravante. Não se trata de deixar de acreditar completamente, já que Wayne pode apenas estar procurando a pérola dentre um grande número de ostras. Porém, quando se está dentro dos acontecimentos as coisas mudam de panorama. Ainda que a cena final, com Christine e o bebê na banheira, seja muito impactante, não vai ser fácil colocar Tom novamente na trilha da crença. Os sentimentos dele por Christine distorceram as coisas e ele vê a postura de Wayne como diretamente nociva para ela.
O conflito de Kevin já é mais complexo, porque ele teme pela própria sanidade a partir do momento em que pode estar repetindo as patologias do pai. Os remédios vão privada abaixo justamente pela necessidade de se distanciar de qualquer semelhança paterna, de qualquer insegurança a respeito de si mesmo. Enquanto o Sr. Garvey desfila pela cidade cometendo aparentes insanidades, Kevin luta contra a possibilidade de que tudo que está vendo e vivendo, esteja sim, de alguma forma, relacionada ao que levou seu pai para o manicômio.
Com a intrigante ajuda de Matt, o Sr. Garvey entra numa espécie de epifania e decide – com a ajuda daqueles com quem ele fala – que já está na hora de alguém “acordar”. O que descredita o estranho homem é a condição aparentemente nepotista com a qual essa “força” se manifesta, indo de pai pra filho, espalhando essa consciência bifurcada, que uma hora é palpável e outra hora é translúcida.
Não podemos esquecer que Matt estar ajudando o Sr. Garvey não é uma coincidência, já que no episódio focado nele nós também tivemos uma série de sobreposições de premonições, sonhos e realidade distorcida. De certa forma, Matt também “despertou do sono” do qual o Sr. Garvey parece querer tirar o filho. Para isso, um estranhíssimo encontro ocorreu; onde uma publicação da National Geographic, de 1972, nos encheu de pistas que podem ser efetivas e falsas, na mesma proporção.
Uma pesquisa na net foi necessária para chegar ao conteúdo da revista. Encontrei gente que interpretou o que encontrou na revista de muitas formas, mas nem tudo que estava nela podia ser considerado um easter egg. Havia algumas chamadas de capa bastante interessantes e acho que pode ser esclarecedor falar um pouco sobre as que achei mais relevantes (lembrando que o que achei menos relevante, pode acabar sendo, no final das contas, a verdadeira chave).

“Cairo – A Capital-Problema do Mundo Árabe”
Mesmo não tendo conseguido acessar o conteúdo da matéria, outra busca por reportagens acerca do Cairo dão bem o tom do dia. Além de muitos resultados falarem sobre a praga de moscas que assola a cidade – o que se relaciona também com a mitologia bíblica – muita coisa se refere ao problema de superpopulação. Isso me faz pensar em teorias de contenção, o que se reforça pelo fato de termos ouvido claramente a palavra Cairo na sequência do sonho de Kevin, saindo do Walkie Talkie. Junte tudo isso ao fato do próximo episódio se chamar Cairo, e já dá pra achar que tem alguma coisa importante escondida aí.
“Escavações em Thera Resolvem o Enigma dos Minoans”
Vale colar aqui um parágrafo pequeno que encontrei sobre essa extinta civilização, que em 1972 teve as razões de sua extinção, esclarecidas por especialistas. Até essa data, ninguém sabia o que tinha acontecido e porque os Minóicos tinham desaparecido.
“A civilização dos Minóicos em Creta era uma sociedade sofisticada e florescente – e a joía da coroa era o Palácio de Knossos, uma intrincada e complexa estrutura de edifícios interligados, que deram origem ao mito do Labirinto e do Minotauro, um ser com corpo de homem e cabeça de touro. (…) Até há bem pouco tempo, não se pensava que a erupção de um vulcão de uma ilha da vizinhança, Santorini, estivesse na origem da queda dessa civilização. Contudo, hoje em dia, chegou -se à conclusão de que a ilha de Santorini foi destruída pelo vulcão e consequentemente toda a civilização dos Minóicos, que viram num raio de 100 quilómetros o mundo que tão bem conheciam, virar de pernas para o ar”.
Não sei vocês, mas eu continuo acreditando que o propósito de Lindelof não é lançar pedaços de um plano a ser desvendado, mas apenas enriquecer com um grande e bizzaro senso de cognição, a trama que está sendo construída. Me incomoda, inclusive, que estejamos diante, novamente, desse hábito de fazer personagens que “conhecem o segredo” se expressarem para os que não conhecem com enigmas e sem clareza. Jamais podemos esquecer, contudo, que muitas vezes o segredo é tão inacreditável que precisa ser provado e não relatado. A questão aqui é exatamente essa: Qual caminho Damon vai tomar, assumindo completamente os riscos que isso representa.
Ainda tivemos a citação de Matt para Kevin, que mesmo tendo saído pela metade, deu pra pesquisar e encontrar algumas referências. A citação veio do Alcorão, retirada da história de Joseph, o único filho de Jacó dado ao dom da profecia. Esse trecho também é um recado direto para Kevin e não acho que tenha a ver com revelações futuras, mas sim com o estabelecimento de uma circunstância.
Meu filho, não relate a tua visão para os teus irmãos, para não inventar uma conspiração contra ti, Satanás é um inimigo claro para a humanidade”
As coisas se confundem novamente, porque a citação fala em Satanás, mas a revista se coloca de forma mais científica, ao mesmo tempo em que o pai de Kevin ouve vozes… E estamos tocando nos conceitos de redução populacional natural (Cairo) e redução populacional mitológica (Minóicos), enquanto efetivamente, pode ser que nada disso seja relevante. Pode ser que o enfoque seja outro, ainda que haja mesmo uma intenção orquestrando-se por trás de tudo isso, ou não haveria uma necessidade de ser tão cerimonioso.
Estou fascinado por tudo isso sim, não posso negar. É como se tivesse acendido dentro de mim uma centelha de esperança; a esperança de que estejamos diante de uma obra capaz de reiniciar ótimas discussões. Mas, sempre há o risco… e em séries de mistério sempre vai haver. O artifício da loucura como porta de sabedoria é nada mais nada menos que uma forma de proteção, um acuamento natural de alguém que pode justificar um erro, mais tarde, dizendo apenas que “tudo não passava de loucura”. Cabe a cada um de nós decidir pra onde direcionaremos a nossa fé. A minha eu encontrei na disposição do prazer… Eu vou aproveitar, vou mergulhar, vou crer, e não vou olhar pra trás.
As Sobras: Meg, essa danadinha, presa a coisas tão mundanas quanto uma fofoca.
As Sobras 2: Eu simplesmente acho deliciosas as sequências de pseudo-ação, com câmeras lentas e música sacra nas alturas. São pretensiosas? São. Mas elas trazem à tona uma contradição imagética muito interessante, que contradiz a urgência do momento com a lentidão do quadro. É como uma procissão religiosa mesmo… Lenta e melancólica, mesmo que represente a maior das batalhas de um povo.
As Sobras 3: Jill e aqueles amiguinhos dela, tão patetas, até quando?
As Sobras 4: Será que tivemos uma pequena pista de como Matt chegou ao dinheiro que estava no quintal de Kevin? Isso me confundiu um pouco. Alguém ajuda?















