Sem piedade! Na guerra, ninguém está a salvo.

Alfredo diria que Deus está sorrindo para a Inglaterra, mas Uhtred faria como um cantor popnejo cantando que “o destino não deve estar nos olhando”. As preces dos telespectadores foram ouvidas e tivemos um dos melhores season finales que já tive o prazer de assistir. Alguns encerramentos de temporada já abalaram o meu mundo de série maníaco, foi assim em Lost, Dexter, Spartacus, Fringe, só para citar algumas séries que sempre serão lembradas. Da mesma forma, cenas dessa finale também ficarão em minha memória e acho ótimo quando aspectos positivos e de qualidade tornam uma série marcante, inclusive aos leitores da obra de Bernard Cornwell. The Last Kingdom provou ser a melhor surpresa dessa fall season e esse encerramento fez valer a pena a economia da BBC durante a temporada para termos o prazer de assistir uma batalha épica e digna de produções cinematográficas.

A última hora de TLK foi surpreendente em muitos aspectos que vão do cenário ideal para a formação da parede de escudos até o surgimento de uma versão “Rambo-saxão” do protagonista ao perder sua rainha. Não entrarei no mérito da forçação de barra de algumas cenas pelo simples fato da série se basear em um romance fictício com plano de fundo histórico. Assim sendo, o progresso dos personagens principais até esse capítulo concludente merece a nossa apreciação. Uhtred evoluiu como guerreiro nato, enquanto Alfredo perdura em sua postura firme de guardião da Inglaterra após o exílio nos pântanos, são diferentes armas lutando por Wessex.

“O Último Reino” e “O Cavaleiro da Morte” foram belamente adaptados em 8 horas pela BBC e pelos produtores de Downton Abbey, sendo que o início da jornada de Uhtred Ragnarson foi contada com um gradual avanço de qualidade a cada episódio. No entanto, nem tudo apresentado nesta última hora pode ser classificado como excepcional. Não vejo sentido no episódio apresentar lembranças de Uhtred com o seu recém-nascido ou momentos de afeição ao lado da rainha das sombras, quando quem precisa aceitar a morte de seus entes é o próprio personagem. O recurso se tornou uma elucidação emocional prescindível para o telespectador, mas que não anula as virtudes do roteiro ao adaptar situações e impulsos dos personagens em meio a negociação, traição e a cena mais esperada: a Batalha de Ethandun.

A season finale poderia ser reduzida aos 10 minutos da estonteante batalha, que ainda assim eu estaria plenamente satisfeito com a temporada. A direção foi eficiente em construir o palco perfeito para a luta entre os dinamarqueses liderados por Guthrum e o exército do Rei Alfredo. Deus é bom! O roteiro foi fiel aos livros e ainda foi capaz de valorizar assertivamente cada óbito, desde o baby Uhtred em Oxton até as grandiosas mortes da peleja em Wiltshire.

A narrativa trouxe de volta ao jogo a coragem e a fé de Alfredo ao assumir uma postura ofensiva em prol da Inglaterra, o rei deixa sua família em segurança com os sapos para agir com sabedoria em meio ao conflito. Inabalável mesmo ao se deparar com traidores como o jovem Odda e Wulfhere (cujo fim na batalha teve tamanho avesso ao seu medo dos nórdicos). A morte de Odda foi angustiante, mas ao colocar o próprio pai como carrasco, o roteiro livrou o rapaz das agruras presentes no livro antes do suspiro final. Criei na minha mente a cena em que o velho Odda ordena e Leofric rasga a goela do traidor com uma espada de lâmina não tão afiada, o jovem Odda cai em espasmos com ruídos gorgolejantes enquanto seu sangue jorra e sibila no fogo. Deixo uma intimação àqueles que ainda não leram as Crônicas Saxônicas, aproveitem Black Fridays e F*ing Mondays para adquirir a saga.

David Dawson brilhou mais uma vez ao representar a ânsia do Rei Alfredo quando esperava por um milagre sem saber se os exércitos aceitariam a convocação. “Com Deus seremos bravos e Deus pisoteará nossos inimigos”. O fyrd foi reunido com a ordem real levada por Asser, Alec e Hild. O discurso do Rei Alfredo foi admirável em sua completude e me fez querer lutar por Wessex naquela parede de escudos, mesmo se estivesse ao lado de um padre devoto como Beocca e um tolo metido a guerreiro como Æthelwold. O destino é inexorável e o carisma é divino.

O protagonista atinge o seu auge performático nos momentos de fragilidade e de cólera, quando Uhtred segue em frente ao se despedir de seu passado (Mildrith e Uhtredson) e de seu presente (Iseult e Leofric). A morte não veste preto, nem usa foice, mas ela veste um sorriso sanguinário e vem montada em um cavalo branco trazendo em suas mãos o resultado da vingança por um paganismo que se tornou cristão. Skorpa é o autêntico selvagem que representa os dinamarqueses que jamais aceitariam o tratado de Wedmore, que as valquírias o conduzam a Valhalla.

The Last Kingdom termina com proficiência em adaptar a obra literária, sabendo utilizar-se de características importantes da narrativa para a continuidade da jornada de Uhtred, com um estilo competente e próprio que o afasta de comparações de desvantagem em relações a séries dramáticas do gênero. Assim como Guthrum, o telespectador também se submete ao batismo por imersão para ver o dragão e a cruz voando sobre o reino que quase se perdeu. Wessex foi resgatada, agora falta TLK ser renovada. Deus nos ajude.

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