After já pode ser considerado o episódio mais importante da segunda temporada de The Handmaid’s Tale. Começamos com a embasbacante cerimônia do enterro das Aias e temos dimensão da importância de todas áreas de uma produção audiovisual estarem alinhadas entre si fica evidente em cenas como essa: nada estava fora do lugar, fosse a música embalando a tristeza e aliando-a a beleza do cenário e das vestimentas, no esperto uso da câmera lenta quando necessário, na disposição do cenário, das pessoas e do mise-en-scène em si. Semana após semana esse marco da TV mostra a que veio e nos emociona com sua simplicidade simbólica.
Tivemos mudanças no status quo da República risos de Gilead: o Estado de emergência foi implementado de uma vez, sem clemência com ninguém, irrelevante a sua posição social; essa ameaça traz a tona tudo que há de pior no ser humano. O medo nunca é um aliado da razão, e a divulgação do número de Aias mortas, minimizando o ocorrido do alto escalão é a prova disso. A contenção dessa emergência, desviando o foco do Comando e acalentando o coração dos crentes nesse regime só deixa clara a fragilidade que uma rebelião pode trazer a Gilead.
31 Aias Mortas.
31 mulheres sem nome.
31 mulheres enterradas com o nome de quem pertencem, como gado. Inclusive é exatamente isso que elas são: gado, prêmios, menos que nada, sem direitos, subjugadas a ponto de ganhar uma cerimônia com o nome e em homenagem aos seus senhores.
Gilead é a clara definição do quão odiosas as pessoas podem ser e normalizar esses momentos.
Ameaças trazem o fim da paz, e o mecanismo para isso é o Comandante Crushing, um homem irredutível, que num primeiro momento em poder coloca os Waterford em cheque sem pensar duas vezes e dando andamento as suspeitas que já pairava sob Fred e Serena e foram salientadas pelo Comandante Pryce no Chá de Bebê mais macabro da história do mundo. Greg Bryk ficou incumbido de trazer o tom de ameaça ao novo personagem e conseguiu fazê-lo magistralmente com pouquíssimo tempo de tela, incutindo o pânico em June ao interrogá-la, oferecendo confiança e amizade em troca de uma confissão de seu falso rapto.
Interessante notar que, no momento de maior desespero, ao ver as pessoas sendo mortas na rua, no pânico gerado pelo ataque, a única solução é a aliança de três pessoas, fazendo eco ao sétimo episódio da primeira temporada. Mais uma vez June, Serena e Nick se vêem numa posição de solucionar um problema: seja a infertilidade de Fred, seja o pânico causado por um homem irredutível que adentra as casas de todos e os mata sem dó ao seu bel prazer devido as Leis que Fred Waterford incorporou.
Fred é uma pessoa incapaz que se viu envenenado, ao longo do tempo, por sua posição de poder, sua passividade inicial, suas dúvidas quanto a tomar decisões, sempre procurando que Serena o guiasse mostra muito da construção do vilão que está por vir. Fred Waterford é a maior ameaça dentro daquele círculo, e sim, ele sobreviveu a investida de Ofglen II.
Serena toma as rédeas de Gilead com prazer e brilho no olhar quando lhe é permitido, mostrando que as coisas poderiam ser diferentes, que a sociedade que ela queria está muito longe do que ela tem. Serena foi engolida por um sistema predatório e se vê na posição de ser novamente a predadora.
As incontáveis mortes em decorrência ao ataque de Ofglen II, direta e indiretamente trazem o contraste com tantas outras que aconteceram para que o regime pudesse se concretizar. O Canadá é uma zona segura e o principal aliado na luta dos refugiados, tentando, a qualquer custo, ajudar as pessoas dentro daquela loucura toda. Moira e Luke voltaram, trazendo mais da vida pregressa a Gilead.
Moira, por escolha, optou por ser uma barriga de aluguel e, visto tudo o que ela passou, estuprada todo mês, prostituída para sobreviver, temos uma dimensão do quão quebrada ela se tornou e como seu ódio, sua angústia e seu medo de se aproximar de qualquer coisa recorde aquele lugar são compreensíveis. Moira demorou meses para ir atrás de informações sobre sua namorada, e aqueles momentos naquela sala, olhando fichário após fichário, procurando interminavelmente entre centenas de pessoas assassinadas, nos mostra o que um regime totalitário é capaz de fazer. Me espanta que uma série de TV mostre isso e no Brasil de 2018 tenha gente que peça por isso. Pessoas sendo assassinadas unicamente por serem quem são, por amarem alguém do mesmo sexo, por não se enquadrarem no aspecto social e moral que uma minoria radical e organizada quer.
Samira Wiley está, mais uma vez, irretocável em sua composição, entregando o Emmy tape e carimbando o passaporte para a corrida do Emmy 2018.
Voltando a Gilead, Serena solucionou o problema que o novo homem no poder trouxe, forjando e emitindo uma ordem de prisão para ele como mentor do ataque. Quem ousaria questionar o todo poderoso Fred Waterford e seu olho, mesmo que fora do jogo temporariamente? Mas é ai que temos o ponto alto desse episódio tão bem escrito: Emily e Janine voltando para Gilead! Quem emitiu esse mandado? Quem ordenou essa reposição? Não sabemos, ainda. Janine, a esperançosa Janine, no fim das contas, estava certa, sempre há um plano maior que pode alterar tudo.
A confusão nos olhos de Emily ao retornar ao seu antigo posto, num misto de ódio e conformismo, impulsiona a uma das cenas mais bonitas da série: June revela seu nome à sua antiga aliada. Em Gilead abraços não são permitidos, atos de rebelião massacram, mas a simplicidade em revelar seu nome, em criar uma unidade ali, em subverter o jogo deles com o seu próprio após todo aquele horror deixa a mensagem muito clara: a esperança resiste e a luz surge novamente em meio a neblina do ódio cego de fanáticos religiosos. Separar a escrava da mulher, da pessoa, mostra o poder que um nome pode ter em cada um.
A presença de Éden ali não foi por acaso e a enigmática garota se mostra, cada vez mais, peça chave nos problemas que podem vir no futuro.
A última cena de After entrega um momento de união entre desafetos, salientando, mais uma vez, que todas as mulheres ali estão em posições que as destroem, dia após dia. O simples clicar de um botão muda tudo, seja esse o botão de um detonador ou de uma caneta e eis que a luz surge mais uma vez.
NOS MUROS DE GILEAD:
I – June de fato não ama Nick, esse traço da protagonista, colocando-a como alguém que usa o motorista para sobreviver só traz mais genialidade a construção de Elisabeth Moss.
II – Janine, Alma, Brianna, Emily… June!
III – Algo me diz que o Comandante Crushing ainda vai causar problemas, nada é colocado por acaso nessa série.
> SENSE8, O Que Esperar do Episódio FINAL (Sem Spoilers)!
IV – Lillie Fuller é o nome de Ofglen II! Louvada seja essa mulher que fez churrasco de gente louca.
















