Um episódio sobre a batalha de ser você mesmo.

Antes de aprofundar sobre o episódio em questão, é gratificante ver que séries em canais abertos estão tratando de temas que eram tabus e costumam ser tratados mais facilmente em canais fechados. Passando ainda na Globoplay, The Good Doctor alcança um público que não está acostumado a ter vários streamings ou outras formas de acompanhar séries, sendo maravilhoso pensar que temas tão importantes serão debatidos e assistidos por essas pessoas.

Falando do episódio, assim que ficou claro que haveria uma discussão sobre racismo, machismo, transfobia e homofobia, fiquei apreensivo sobre como os temas seriam conduzidos e posso dizer que fiquei muito feliz com o roteiro de Sam Chanse e Liz Friedman. Tratando de forma cautelosa e com uma boa divisão de tela, Irresponsible Salad Bar Practices conseguiu durante 40 minutos falar sobre como o preconceito impacta todos os âmbitos da vida daquele que sofre e como suas consequências perduram ao longo dos anos.

A discriminação nem sempre vem de forma chamativa e explícita. O preconceito possui diversas camadas, formas e muitas vezes são destilados sem que ninguém perceba, com exceção da pessoa que é vítima do ataque. Ser atacado, menosprezado, subjugado pela sua existência é uma das maiores violências que um ser humano pode sofrer. Literalmente inexistindo opção para mudar quem se é, pessoas são discriminadas pela sua cor, pelo seu gênero e pela sua orientação sexual. Viver sofrendo preconceito é saber que qualquer ação tomada terá o peso multiplicado por dez e que talvez até um pensamento alto pode se tornar motivo para mais violências.

De um ponto de vista pessoal, apenas posso dizer com propriedade o que é ser discriminado por sua orientação sexual e tenho certeza que todos aqueles que já foram vítimas de ataques preconceituosos se identificaram com algum ponto, momento do episódio. Sendo fora do padrão da sociedade, sendo relembrado a todo o instante que sua persona em si é um ponto fora da curva do normal”, do “aceitável”, uma batalha interna é criada e a grande maioria das pessoas se molda e cria uma personagem para tentar ser aceito.

Como dito por Zara, Claire passou sua vida tentando ser uma pessoa que não incomode brancos. Da mesma forma que fora pontuado por Zara, podemos pensar em lgbts que aprendem a não ter trejeitos, bem como em mulheres que aprendem a não usar certas roupas. Como se já não fosse difícil crescer, o preconceito faz com que as suas vítimas precisem colocar armaduras, camadas e camadas de proteção, pois às vezes é mais fácil se moldar ao que a sociedade quer ver do que ter que lidar com tanto ataque.

A esperança é de que o respeito à diversidade seja propagado e que as pessoas não precisem mais ter que se esconder para serem aceitas. A esperança é de que portas não se fechem por causa da sua cor, gênero ou orientação sexual. A esperança é de que a liberdade de cada pessoa seja pertencente somente a ela mesma. Porém, infelizmente, a esperança não é a realidade.

Pegando a trama de Lim e Claire, a série foi muito inteligente e sábia em mostrar que não era uma mera teimosia de Lim. Como disse na última review, Audrey conquistou cada espaço na sua vida com muito suor, engolindo muito sapo e tendo que ser a melhor das melhores para ser tratada em pé de igualdade com um homem medíocre. Sendo uma vítima de preconceito durante toda a sua vida, Lim sabe que mostrar qualquer sinal que possa ser entendido como fraqueza pela sociedade significa que existe uma grande chance dela ser estereotipada, julgada e menosprezada novamente.

É extremamente difícil perceber que ainda que ela reconheça que precisa de ajuda, trava uma batalha interna que diz que mais uma vez é necessário colocar uma máscara e fingir que está tudo bem para não incomodar aqueles que têm poder, que possuem o mundo criado para eles e que não perdem uma noite de sono rebaixando todos que não estão no seu molde.

Seguindo para a trama de Claire, o episódio ainda mostra como o preconceito estrutural movimenta a sociedade de uma forma que aquele que sofre a discriminação acaba reproduzindo ataques, seja de forma a tentar se tirar do holofote ou apenas por ser algo tão introjetado na sociedade que se torna comum ter esse pensamento/atitude. Buscando se moldar para ser aceito e ter alguma chance nesse mundo de pessoas crueis, não é difícil que o oprimido acabe reproduzindo atitudes, falas do opressor e depois sinta uma culpa profunda, apenas adicionando mais tristeza, raiva e frustração.

Estamos em 2021, ano em que um presidente preconceituoso perdeu as eleições dos EUA, mas que não só no Brasil como em outros países, ainda somos governados por pessoas que tentam legitimizar discursos de ódio. Muito mais do que um episódio para entreter, esse episódio de The Good Doctor serve para tentar difundir o respeito ao próximo, a diversidade, buscando educar um pouco que seja.

Ninguém deveria ter que aprender a não ser ele mesmo. Ninguém deveria se odiar por apenas ter nascido do jeito que nasceu.

P.s.: Gostei muito da rapidez com que já lidaram com o fato da Claire ter pedido pro Glassman intervir, sem afastar a Lim obrigatoriamente e fazendo com que ela percebesse que apesar do risco, precisava cuidar de si e que tem pessoas para apoiá-la.

P.s.²: Mais uma vez, ainda que engraçadinho, Lea é limitada a algum desafio social amoroso passado por Shaun. Desisto de reclamar como a personagem é desperdiçada, pois nem tenho mais esperanças, uma vez que outros também seguem esse caminho, como Morgan que só apresenta casos, Park que só dá conselhos e Olivia que mal cresceu já foi esquecida no churrasco.

REVISÃO GERAL
Nota:
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the-good-doctor-4x09-irresponsible-salad-bar-practicesMuito mais do que um episódio para entreter, esse episódio de The Good Doctor serve para tentar difundir o respeito ao próximo, a diversidade, buscando educar um pouco que seja.