The Good Doctor encerrou seu terceiro ano com decisões polêmicas e consequências que poderão mudar completamente o curso da trama. Retirando um dos personagens principais da série e colocando em risco a permanência de outros dois, a decisão tomada pelos roteiristas é extremamente arriscada e pode se mostrar precipitada e desnecessária.

A morte de um personagem pode servir para adicionar carga dramática, tensão e imprevisibilidade na série. Em muitos momentos, o falecimento de alguém pode ser mais significativo que qualquer ação que tomou enquanto estava vivo e as consequências do óbito podem se tornar base para mudanças de tramas, conflitos novos e muitos acontecimentos ainda não trabalhados.

Além disso, quando um personagem importante morre, percebemos que estamos diante de uma reprodução artística da vida real e que ninguém está a salvo da única certeza que temos, a morte. Essa tensão de pensar que todos os personagens estão em risco cria um ambiente propício para novos episódios de tirar o fôlego, permitindo que os roteiristas brinquem com sua audiência deixando-os em dúvida sobre quem terá sua vida ceifada ou apenas quem terá que se recuperar de um momento tão difícil.

Estando por detrás do show o mesmo roteirista de House, David Shore, era apenas uma questão de tempo até sermos bombardeados com uma tragédia. Shore é muito bom em fazer o público acreditar que um personagem está em perigo enquanto prepara o ambiente para mostrar que estávamos olhando para a pessoa errada. Como um bom ilusionista, David nos engana e nos pega de tamanha surpresa que esquecemos de prestar atenção nos detalhes e somos preenchidos com uma mistura de sentimentos, sendo muito difícil em pouco tempo compreender tudo que estamos sentindo e ainda reparar se o que está acontecendo faz sentido e se teve um bom desenvolvimento.

Todavia, todos estão sujeitos a erro e dessa vez, David Shore errou muito em minha opinião. Ganhando espaço na tela e muito destaque ao longo dos 3 anos, Neil Melendez se tornou o personagem que mais tinha relações com os demais depois de Shaun. Sendo um exemplo para os residentes, admirado por todos os colegas e o amor de 2 personagens, Melendez quase dividiu o protagonismo com Murphy na terceira temporada, aparecendo mais do que Andrews e Lim juntos.

Ficando cada vez mais iminente um relacionamento amoroso entre ele e Claire, parecia que estávamos diante de uma trama que ainda duraria bastante, uma vez que paixões entre chefes e residentes sempre são complicadas e a hierarquia foi o motivo utilizado para terminar seu último relacionamento. Melendez estava no início de uma trama que o público torceu por muito tempo. Neil era peça fundamental no hospital, uma vez que a própria série boicota a Lim e Andrews não possui nem 0,1% da simpatia que ele tem. Era óbvio que o impacto de sua morte seria o mais pesado e afetaria mais pessoas, considerando que não dá para matar o Shaun. Entretanto, tudo soou forçado e apenas uma jogada para causar impacto no público. Sua morte pareceu uma forma fácil de criar tragédia na season finale e um grande erro que uma série pode cometer é criar tragédias apenas por criar.

A morte de Melendez não deixou nenhum gancho para novas tramas a não ser uma possível amizade entre Lim e Claire. Sua morte não teve um culpado; não fará com que Claire chegue ao fundo do poço, pois ela já se encontrava lá e foi ele que a resgatou; não fará com que Lim tenha um arco de recuperação da tragédia, pois não combina com a personalidade da personagem; e por fim, terminará com uma relação amorosa que estava apenas começando, que poderia trazer inúmeros plots e que, além disso, teria o seu lado de fan service, deixando o público feliz.

Matar um personagem querido é uma decisão arriscada, pois qualquer pessoa que entrar no seu lugar terá que batalhar muito para conquistar seu espaço. Assim, a justificativa para tirar o personagem da série tem que ser muito maior do que apenas para causar impacto. Melendez fará falta e seu arco de despedida apenas mostrou que os roteiristas nunca souberam trabalhar direito os relacionamentos amorosos, criando dois casais com Neil apenas para desenvolver nenhum dos dois.

E mostrando que o desenvolvimento é extremamente importante para o resultado da tragédia fazer sentido na série, o baque emocional que Park teve no último episódio foi extremamente bem escrito. Após ter tantos problemas com seu filho, se encontrar em um dilema entre ser mais presente e continuar em um bom cargo, Alex foi obrigado pela ironia da vida a tratar de um garoto da idade do seu filho com problemas relacionáveis ao que está vivendo.

David Shore já disse que apenas Melendez e Carly sairão da série. Dessa forma podemos descartar o que foi dito por Park no final do episódio, entretanto sua trama com certeza irá sofrer uma grande reviravolta e veremos mais sobre a família do personagem, uma decisão muito inteligente, uma vez que foi o único plot do personagem que conseguiu colocá-lo em destaque e ser interessante.

Completando a terceira tragédia do episódio, Morgan se encontra na pior situação que poderia imaginar. Sendo altruísta, buscando realmente salvar a vida de seus pacientes e mostrando que ela não pensa apenas em sua carreira, Reznick conquistou o respeito dos seus superiores de volta, porém fez uma cirurgia que lhe trará incapacidade no futuro e que lhe permitiu operar por apenas mais uma vez.

Existe a possibilidade de que Andrews tenha feito uma análise muito rápida e que ela ainda seja capaz de operar, porém seu arco vem sendo desenvolvido ao lado de Glassman e tudo indica que ela começará a trabalhar com ele, utilizando seus conhecimentos médicos em outras áreas que não a cirurgia. É impossível não se sentir triste por Morgan, porém foi uma forma interessante de mostrar o perigo em ser ambicioso demais e não pensar nos limites do próprio corpo. Uma lição de humildade em seu nível mais extremo.

E então, finalizamos o episódio com a decisão mais controversa da série. Enquanto alguns amaram e aplaudiram, outros quiseram quebrar a televisão de raiva. Não acredito que alguém tenha ficado apenas inerte ao beijo entre Shaun e Lea, e entre esses dois lados, me encontro no dos que queriam chutar o David Shore.

Desde o início do relacionamento, Shaun e Lea eram o casal inesperado, mas quase impossível de não shippar. Aprendendo um com o outro, lidando bem com suas diferenças e sempre fazendo com que o outro se sinta a vontade, Murphy realmente ajudava Lea a ser melhor e vice-versa.

Todavia, tudo mudou quando ele recusou aceitar o não de Lea. Como dito nas outras reviews, o autismo de Shaun não justifica suas reações. Murphy errou em achar que tudo poderia ser consertado como se a decisão de Lea, seus sentimentos fossem apenas mais um problema médico que ele seria capaz de solucionar. Ainda que seja compreensível a dor do personagem e Lea tenha dito coisas pesadas, ela nunca disse algo que não era verdade e ela não era obrigada a ficar com ele se não acreditava que a relação poderia dar certo. O desejo dela nunca foi respeitado e o final da série apenas acabou de enterrá-lo.

O discurso de Shaun enquanto estava com Vera foi realmente lindo e nem o clichê absurdo de Lea escutar pelo rádio nesse momento conseguiu prejudicá-lo, porém acabou por aí. Foi um discurso lindo? Foi. Isso muda tudo o que aconteceu e faz com que Lea necessariamente tenha que mudar de ideia? Não.

Como bem dito pelo fantasma de seu irmão, Murphy não é o herói, o grande salvador da donzela indefesa. Ele precisa aceitar o não, precisa respeitar a decisão de quem ele diz tanto amar e talvez se isso acontecesse, o beijo dos dois mais para frente, na outra temporada, tivesse sentido. Shaun continuou dizendo para Vera que desistir de Lea era aceitar a falha e que se você ama alguém você não desiste, porém é exatamente o oposto. Se ele realmente a ama e a quer ver feliz, ele tem que deixá-la ir. Ele precisa compreender que é normal gostarmos de alguém e essa pessoa não gostar da gente da mesma maneira, e que precisamos respeitar essa decisão, precisamos compreender que não é questão de falhar, mas de entender que nem tudo ocorre como desejamos e que não podemos obrigar ninguém a nos amar.

Após colocar o personagem dizendo atrocidades quando não conseguiu quebrar o carro, a série simplesmente criou um clima de tragédia e um discurso bonitinho para fazer com que o casal fizesse sentido, porém não fez. Nenhum amor é sustentado por sentimentos impulsionados pelo medo da morte da outra pessoa e nenhuma relação deve começar antes de os dois lidarem com os problemas acontecidos no passado. A série jogou toda a sujeira para debaixo do tapete e forçou um casal que nunca precisou ser forçado. Mais uma vez The Good Doctor mostra não saber lidar com relacionamentos amorosos e responsabilidade emocional.

REVISÃO GERAL
Nota:
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