Ensaiando os passos ao som do pot-pourri da renovação.
Quando a leveza se torna confusa e o realismo se transforma em uma sinistra sequência de ações duvidosas começo a me questionar se estou exigindo coerência demais de uma série descompromissada em se consolidar junto ao público e disposta a tomar rumos inesperados para atrair novos espectadores.
Esse retorno de The Fosters para o seu terceiro ciclo, tinha sobre si ao menos duas importantes missões, dar uma sequência satisfatória aos arcos deixados ao fim da segunda temporada, especialmente o cliffhanger do acidente, e ainda apresentar uma nova maneira de contar a história dessa família sem perder a sua essência habitual de simplicidade. Mas, nem sempre missão dada é missão cumprida. The Fosters volta com um gosto amargo no que diz respeito a condução de seus principais personagens e peca em suas tentativas de expulsar manter a empatia do telespectador.
Achei preguiçoso o roteiro transformar a vítima fatal do acidente em um pesadelo constante de Stef. Assim como o precipitado alerta policial enganou Stef, também me senti enganado e me sentirei assim de novo quando Jesus aparecer sendo interpretado por outro ator. Sou importuno a pouco de me espantar quando Daario surgiu sendo interpretado por outro ator na quarta temporada de Game of Thrones e confesso que fiquei chateado quando soube que Dumbledore não seria mais encarnado por Richard Harris, quando o ator irlandês veio a falecer. Em suma, preferiria um final trágico para Jesus com direito a episódio duplo de luto (O’Malley feelings) a vê-lo esporadicamente nas festas da família Adams-Foster representado por algum ator pior do que Jake T. Austin.
Antes de falar do maior erro do episódio, tenho que expressar meu descontentamento com o conflito psicológico vivido pela mãe loira. Lidar com uma tragédia e demonstrar força em meio às fragilidades não é uma tarefa nada fácil, no entanto, Stef já passou por algumas situações em que seus filhos tiveram sua segurança em risco. Basta lembrarmos do cara tatuado com quem Ana vivia na primeira temporada ou até do mais recente disparo que acabou atingindo Connor, quero dizer que a vida da policial por si só, já envolve ocorrências desastrosas e além disso, Teri Polo não me convenceu com seu coração despedaçado. Ainda bem que a cena clichê inicial de Stef em câmera lenta chegando ao local do acidente foi bem orquestrada.
A maior descaracterização de personagens da história da ABC Family (me desculpem pelo exagero consciente) ocorreu com envolvimento tosco entre Mariana e o ex de Callie. Ainda bem que não assisti à cena de propaganda da Loreal made in Venezuela de barriga cheia, dessa maneira o roteiro joga por terra grande parte da evolução da personagem latina. Em relação a Wyatt, trata-se de um andarilho cabeludo que os produtores trazem para Anchor Beach quando lhes é conveniente. Em nada me agradou essa mistura de libido, condicionador e álcool que me pareceu apenas um isqueirinho na relação fraternal entre Callie e Mariana. Por mais profundo que o roteiro tente transparecer daqui para frente neste plot, restam apenas as vozes incitantes da adolescência “Orra, não deixava! ”.
Em meio a essas falhas, ainda é possível enxergar a luz de uma série de qualidade afinal, ainda estamos no início do túnel. Os personagens novos começaram com sutileza e aparente contradição, Kat em sua animosidade à parceria com Brandon após uma demonstração de simpatia e A.J. com sua sofrência e golpe posterior contra Callie.
Prefiro ver Brandon explorando o seu lado compositor e achei bom o roteiro inseri-lo em um ambiente diferente em Idyllwild, sem aparente conexão com o restante da série. Por sua vez, o ataque do abandonado A.J. contra a confiança de Callie o tornam iguais, com a clara diferença de que a protagonista encontrou um lar para viver com o irmão. Espero que Rafael volte atrás na decisão de demitir a garota de uma função na qual ela é útil por sua compreensão do universo dos lares temporários e ainda tem papel fundamental para a sua vida estudantil.
A dança de Jonnor apresenta um claro amadurecimento para esta nova temporada. Apesar da insatisfação de Jude em ser rotulado a vida inteira, o relacionamento dos garotos já é exposto na escola e isto facilitará a abordagem de temas batidos, mas inevitáveis quando se trata de adolescentes como bullying, assédio, homofobia e por aí vai. Jude apresenta insegurança em relação às decisões de caráter pessoal, não sou psicólogo e nem quero polemizar, porém acredito que uma figura paterna, que sempre faltou na vida do garoto, faria a diferença racional para suas convicções a respeito dos sentimentos e o ajudaria a se encontrar como indivíduo.
Ainda é cedo para dizer que o roteiro está se perdendo em meio a almejada renovação de The Fosters, mas o fato dessa première ter sido escrita e dirigida pelos criadores da série acende o alerta de possível escassez criativa frente aos recursos utilizados com esmero na temporada passada há pouco mais de dois meses. Vamos torcer para que o pensamento de Salvador Dalí se concretize.
É preciso provocar sistematicamente confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida.”
Lar: Será que A.J. ou seu irmão tem algo a ver com o acidente?
Doce: Omiti intencionalmente da crítica os plots entediantes de Ana e sua bebê, assim como o afastamento de Lena e a diretora bissexual.
Lar: Daqui a quantos episódios Callie irá recorrer a Quinn? Faça suas apostas.















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