Manolo como a marcha ré dessa trama.

Esse terceiro episódio de Magnífica 70, mesmo mostrando andamento em algumas histórias e entrelaçamento em outras, foi o mais irregular aqui. Atribuo tal feito não só ao uso largo do flashback como pelo destaque à trama dispensável de Manolo e seus problemas de impotência sexual.

A sensação constante que temos ao assistir à série é de que algo está faltando. Na verdade, podemos dizer que há uma sobra com coisas que não contribuem com o andamento da trama e ausência de foco no que realmente importa.

Dentre as tramas que merecem destaque, a storyline de Dora (não consigo chamá-la de Vera) certamente ganhou um up ao trazer das sombras aquele para quem Dario deve favores. Walter, diferente de seu “protegido”, tem inteligência e periculosidade equivalentes. Colocou suas asas sobre o rapaz não por caridade, mas como investimento, e mesmo a recente manifestação de Dora em transformar sua carreira de atriz em algo real não comoveu o homem.

Ainda falando sobre Dora, podemos ver que os roteiristas realmente estão investindo em construir a relação dela com Vicente, inclusive incluindo cenas de ciúmes de Manolo e a antecipando a descoberta de Isabel de uma parte do segredo do marido. Por enquanto esse clima de possível romance não interessa muito, e sim a parceria de ambos, especialmente porque o empenho de Dora puxa Vicente cada vez mais para o universo da Boca do Lixo.

Inclusive a deixa de colocar Vicente na direção, ainda que previsível, se mostrou atraente na construção. Afinal, diante das suspeitas de Manolo do interesse do censor em Dora, ele precisava de um motivo bem forte para poder lançar mão do rapaz. O desentendimento com Flint (um personagem que concorre nariz a nariz com Manolo na arte de causar asco) somado à exigência de Larsen em reduzir os custos para ganhar mais dinheiro à custa dos investidores acabou resultando na nomeação de Vicente para o comando do filme.

Outra storyline que promete é a de Inácio, diretor do filme “A virgem encarcerada”. O pedido de ajuda a Manolo promete colocá-lo cara a cara com Vicente e comprometer-lhe o disfarce.

Aos poucos vemos mudanças na visão de Vicente com o próprio trabalho. A cena em que ele foi preso tentando ajudar um “subversivo” no episódio passado deixou claro que ele não é totalmente entregue à censura, mesmo quando o vimos submerso em tal visão no início da série. E, à medida que seus conhecimentos da produção cinematográfica crescem, sua paixão e revolta aparecem à superfície, mostrando o choque cada vez mais visível dos dois mundos.

A Produção mostrou que Magnífica 70 pode e deve focar em storylines mais interessantes e deixar outras coisas mais desinteressantes de lado, para que seus episódios ganhem o impulso necessário para que possa engrenar de vez.

Relatório final: 

– Conversa de Dario e Dora mostrou como a classe artística não era bem vista na década de 1970. Definitivamente não era a carreira que os pais e mães daquela época desejavam aos seus filhos;

–  Aliás, a classe artística era tão alvo da censura e repressão quanto os comunistas. Peças de teatro, por exemplo, eram observadas de perto e censuradas sem qualquer cerimônia;

– A conversa em torno do filme de Inácio mostrou como havia uma atenção especial com determinados artistas, especialmente quando eles possuíam tendências ideológicas consideradas subversivas, como o comunismo.

– Dentre nossos artistas, podemos citar Chico Buarque de Holanda. A censura o olhava com o dobro de cuidado pelo simples fato de ser filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, que possuía um alinhamento político que acendia uma luz verde aos mantenedores do regime;

– No flashback de Manolo vimos uma cena de um dos filmes de Mazzaropi, um dos ícones do cinema brasileiro, especialmente por seus personagens que representavam o imaginário do caipira;

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