Quando grandes revelações viram um espetáculo visual.
O mistério sempre foi a principal chave para prender o leitor/telespectador dentro da narrativa. Seja em situações simples como um crime sendo desvendado ou uma ilha com poderes sobrenaturais, o mistério rodeia campos não lineares para contar uma história que no final irá se mostrar compreensível e, de certa forma, contextualizada. Mas a partir do momento em que uma série como The Expanse cria um enigma e articula suas causas/efeitos por 8 longos episódios, o resultado poderia (para os mais céticos) ser básico e frustante, afinal, estamos falando de uma produção de ficção científica, o que automaticamente abre espaço para um preconceito de que os temas abordados serão guerras/revoluções espaciais envolvendo alienígenas ou mundos paralelos à níveis surreais. Nesse ínterim, a produção de The Expanse, que chegou de forma discreta ao público, resolveu seu principal mistério no maravilhoso episódio Salvage e ao mesmo tempo provou ser uma narrativa que não precisa de grandes encadeamentos para se mostrar atraente, muito pelo contrário, bastou apenas saber a hora certa para resolvê-los.
Confesso que fiquei muito satisfeito com a conclusão do episódio e de uma forma totalmente inexplicável. Poder ver o encontro entre Holden e Miller foi uma experiência em que eu não tinha ideia do que iria resultar. Aliás, toda a sequência entre o hotel Blue Falcon e a revelação sobre o destino de Julie Mao foi o que alavancou a mais nova produção do Syfy para um patamar das grandes apostas para o próximo ano. Foram poucos minutos mas que fizeram de Salvage um dos melhores episódios até agora e que traduziram o sentimento de que o show finalmente concluiu sua primeira etapa, antes mesmo de apresentar a Season Finale. E o interessante disso tudo é que estamos apenas visualizando a ponta do iceberg.
A Rocinante alcança o destino dentro das coordenadas de sua missão. Acontece que a localização é um asteroide que abriga uma nave similar com a que destruiu a Canterbury. Na sequência Naomi e Holden descobrem uma espécie de vida habitando o núcleo do veículo intitulado Anubis, e que se alimenta da energia provida pela máquina. Uma espécie de parasita biológico cruzando com as características de um ciborgue. Foi uma ótima transição que a narrativa proporcionou até agora e pode ser (ou não) uma pista de alienígenas, até por que isso não é o objetivo da produção, tanto que meu chute seria uma arma biológica ou algo do tipo. Entretanto o show está construindo uma identidade realista dentro de um universo rico e engenhoso e isso é ponto suficiente para se animar com a história.
A relação entre a nave Anubis e a Scopuli ainda é incerta, mas não precisa de muita pista para descobrir que ambas se deram mal por carregarem uma arma biológica tão poderosa que vem alterando o curso de tudo e gerando confusões diplomáticas. Após essa descoberta Holden e sua equipe seguem viagem para Eros, destino final do nosso amigo Miller. Foi refrescante o diálogo entre o detetive e o mórmom. Um dos poucos momentos que fazem da série uma homenagem legítima sobre o real objetivo da Ficção Científica. Pois não importa a distância que a humanidade alcance no universo, a Religião e seus dogmas ainda terão poder suficiente pare reger a fé daqueles que acreditam num futuro melhor, e isso tudo dentro de um cenário pintando o nosso possível futuro. Irônico não? Por outro lado o plot acabou sendo interessante para intercalar com o caráter de Fred Johnson e a construção da magnífica Nauvoo: uma espécie de arca para os mórmons, com uma tenologia avançada e uma matriz de comunicação com alcance extremo. E por falar em Fred Johnson, o episódio foi brilhante em criar um cliffhanger com a sua descoberta dentro de tantas revelações sendo ilustradas pelo roteiro. Um plot em lenta construção, mas que pode causar um alvoroço mais pra frente, assim como a Nauvoo e sua influência no Sistema.
Na Terra, após criar uma empatia por Holden, Chrisjen defendeu a ideia de compreender melhor o que aconteceu com a Canterbury ao invés de eliminar o herói e quem sabe agravar com as revoltas, porém seus clamores foram em vão e a ONU está cada vez mais convicta do destino que Jim merece. E pra piorar ela recebe a notícia de que o embaixador de Marte, que ela manipulou para conseguir influência no assunto, acabou tirando a própria vida, ou pelo menos essa foi a história plantada para apaziguar a possível guerra entre Terra e o planeta vermelho. Foi uma cena curta mas que serviu para desenhar ainda mais o contexto da subsecretária e o pano de fundo das consequências dessa “possível embate”.
Minha sequência favorita até agora ficou por conta do que ocorreu no hotel Blue Falcon. Toda a caracterização como apresentação do lugar, o cenário, a trilha sonora e os olhares tensos com diálogos curtos foram de um nível muito acima do que o show vinha apresentando. Sem falar que foi um dos poucos momentos de ação (com gravidade) da série. Confesso que meu coração geek sentiu um arrepio ao fazer a conexão da cena com a Mos Eisley Cantina de Star Wars, apesar de serem cenas e ambientes completamente diferentes. Entretanto foi prazeroso ver a equipe da Rocinante trocando tiros e por fim sendo salva por ninguém menos que Miller. O curso segue e o grupo finalmente descobre o que se encontra no quarto 22, porém não é nada do que eles (ou o público) esperavam. O estado com que eles encontram Julie Mao foi assustadoramente lindo. E não digo isso pela maquiagem e derivados. Mas o choque de encontrar uma personagem que ficou sendo analisada por tanto tempo numa situação macabra foi o que fez deste capítulo um salto na trajetória que The Expanse vem provocando. A série parece responder seus mistérios com mais incógnitas, porém não usa disso para iludir o público, e isso com apenas mais 2 episódios para terminar seu primeiro ano. A impressão até agora é de que a vontade de reescrever nosso futuro com uma inspiração no passado é que o vem transformando o show num espetáculo e isso, querendo ou não, é revigorante.
PS1: Thomas Jane continua sendo um brilho de atuação.
PS2: Capricharam demais na maquiagem sobre o corpo de Julie Mao. Aliás, não só a maquiagem como os efeitos especiais estão num nível muito acima de muitos filmes atuais inclusive.
PS3: A Season Finale será apresentada em dose dupla. Os dois últimos episódios (Critical Mass e Leviathan Wakes) serão exibidos juntos. E o trailer já entrega uma sequência incrível: assista aqui.
PS4: Eu tenho algumas teorias do que pode ser esse vírus biológico, mas queria saber de vocês: o que estão achando desse mistério e do show até agora?
















