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Shameless 6×03: The F* Word

Shameless 6×03: The F* Word

Uns a partir dos outros.

Tem uma frase meio moralista, que pressiona de modo descarado, todas as pessoas que precisam conviver com crianças e adolescentes: dê o exemplo. Já me esqueci de quantas vezes vi meus irmãos ouvindo isso da minha mãe, que invocava um certo sentimento de culpa de dentro deles, insinuando que suas atitudes poderiam ser replicadas e aproveitando para incutir uma ordem velada de bom comportamento. Ou seja, fazer direito trará benefícios a vocês e sem dúvida a todos os que estão em volta. Era quase o mesmo que dizer que formação de caráter era algo decidido através da osmose.

Shameless é uma série que não suporta esse conceito… Não da forma convencional. De certa maneira, há uma correlação específica entre ação e meio onde se está inserido, mas a questão com os Gallaghers transcende a geografia. Não há uma só pessoa próxima deles que poderia segui-los como exemplo, mas tampouco há qualquer um dos Gallaghers que poderia ouvir de alguém dê o exemplo. Eles só são exemplos daquilo que nunca pode ser seguido. Ainda assim, eles se refletem e influenciam os outros membros da família. Sempre da maneira mais transgressora, mas ainda assim inevitável. 

Fiona e Debbie 

Esse é caso mais crítico e é onde grande parte da dramaturgia desse começo de temporada tem estado concentrada. Quando os roteiristas resolveram engravidar Fiona, foi para que ela ganhasse uma outra perspectiva com relação ao aborto que tenta fazer a irmã engolir. Ao contrário do que a própria Debbie poderia pensar, os olhos de Fiona não se abrem para uma maternidade iminente, mas somente para a compreensão mais sensível de algo que tudo a sua volta grita-lhe para fazer: livrar-se do bebê. Porque sim, uma decisão como essa tem a ver, sobretudo, com você mesmo. Se Debbie quer a todo custo, ela tem que arcar com isso. 

A menina nunca teve os tais bons exemplos. Sua experiência com a mãe, com Sheila, com a própria Fiona, deveriam lhe sinalizar para a EVIDÊNCIA de que não é o momento ideal para ser uma tutora. Porém, Debbie enxerga a gravidez como uma forma de compensação e não como um traço recorrente de fracasso. A conversa entre ela e Fiona foi muito importante e me agradou muito. Mesmo assim, esse é um plot muito passível de chatice e gostaria que fosse superado. Não será, principalmente porque Fiona não tem muita certeza de quem é o pai de seu rebento e a sequência em que é humilhada pela música de Gus é uma prova de que suas escolhas erradas podem ter reverberado como exemplo ou argumento. Fiona é mesmo uma pessoa que pode devastar – não de propósito – a vida de qualquer um que se aproxime dela. Debbie pode ser ela um dia, facilmente. 

Ian e Lip 

Aqui há outro espelho invertido. Já tivemos vários momentos nas temporadas em que Lip estava bem e Ian estava mal. Depois, o contrário. A ida de Lip para a faculdade colocou sobre ele uma aura de possibilidades e o ajudou a criar uma outra rotina, um outro ciclo, um outro porto… Tudo sempre envolvido da moral duvidosa da família. Mas, ainda assim, uma rotina individual e independente. Ele sofreu muito para conseguir repelir aquela cozinha familiar regada de pressões e pesares, ele não quer ser sugado de volta. 

Ian está há muito tempo numa trilha perdida. A doença foi um movimento calculado pelo roteiro, já a saída de Mickey não foi. Reajustar o personagem tem se mostrado uma coisa muito complicada, porque qualquer caminho ainda soa fora de contexto. Porém, enviá-lo até Lip, que mesmo com seu talento para a irresponsabilidade ainda tem êxito, foi uma ideia interessante. Até dentro do clã dos Gallaghers, do seu modo distorcido, há espaço para olhar e exclamar: siga esse exemplo. E pode parecer extremamente absurdo que haja essa possibilidade, já que eles resolvem tudo com violência e mentira. Lip é um ferrado e Ian estava lá limpando “a sujeira dele”, porque, em uma surpreendente esfera da existência, Lip teve êxito. Ian pode ser salvo por essa visita e isso pode ser o sinal de um redirecionamento independente que o salve da relevância. A última cena do episódio pode ter ao menos dois bons significados. 

Então temos os outros três plots correndo por fora. A venda de armas promovida por Carl, que é insana e leva a um verdadeiro festival de armas apontadas no meio do refeitório… Como não dizer que essa poderia ter sido uma influência natural de Frank? O outro plot é o do próprio Frank querendo usar os filhos de Fiona e Debbie como fontes de renda. Já vimos isso antes, em outras versões e isso deveria dizer MUITO para Debbie sobre ter filhos nessa família… Mas, nada diz nada para Debbie enquanto ela teima em não ouvir… E por fim, Kevin amarga a culpa por ter causado a paralisia de Yanis, o cara que ninguém suporta na vizinhança e que agora poderá dar um descanso. Somente em Shameless um quase homicídio com resultados devastadores pode terminar como um insight de heroísmo. 

Depois de passarmos a temporada passada inteira ouvindo sobre “histórias de amor”, não gostaria que relacionamentos amorosos fossem o foco central desse ano. Há uma possibilidade de que a sexta temporada se embase nas diferenças e reflexos invertidos entre os membros da família Gallagher e esse é o caminho mais bacana que a gente pode ter até então.