De um leve flerte com os confortos promovidos pelo capitalismo ao confronto de ideologias.
The Americans segue nesta semana repetindo sua “fórmula de sucesso”, totalmente calcada em um ótimo roteiro assim como nas excelentes performances de seu sempre fantástico elenco.
Que episódio redondo dessa semana da série dos “Americanos”! Já foi deliciosamente interessante acompanhar logo no início o ritual de Philip levar o filho até uma concessionária de automóveis.
Evidentemente que o vendedor já estava com o discurso capitalista/consumista pronto para persuadir o potencial cliente, que estava “apenas olhando”. “Comprar um carro é sobre como ele faz você se sentir”. Alguém remeteu à Mad Men na hora?! Pois eu sim! Cartilha básica de Publicidade, Propaganda e Capitalismo.
De qualquer maneira já vi ali o futuro conflito que Philip teria com sua esposa. Eles já tiveram embates sobre o assunto antes. Elizabeth ainda acredita na missão deles. Em suas próprias palavras, o conforto proporcionado pelo american way of life e seu sistema econômico-social torna a vida apenas “mais fácil”, e não “melhor”. Nessa afirmativa, mais do que contundente, podemos apreciar a forte opinião de Liz sobre o estilo de vida americano.
É bom demais observar esse contraste: Philip levemente seduzido por tudo que o dinheiro pode lhe proporcionar de conforto material e Elizabeth, quase que idealista quanto à sua missão e os valores morais atribuídos pela Mãe Rússia e o sistema comunista/socialista. Já seus filhos parecem estar fadados a viver na cultura americana, já que nasceram e foram totalmente criados nela.
O foco em New Car foi novamente Philip, mostrando o perfeito equilíbrio da temporada na abordagem dos protagonistas, deixando cada um ter seu momento sob os holofotes. Eu compartilho do sentimento de Philip, afinal todos nós brasileiros já nascemos imersos nesse sistema socioeconômico. Afinal, quem não aprecia o direito à propriedade privada assim como a (muitas vezes falsa) possibilidade de ascensão social?!
Além disso, particularmente, não creio muito na aplicação prática do sistema comunista e/ou socialista. Acredito que deva ser muito bonito e utópico na teoria de seus idealizadores, Karl Marx e Friederich Weber, dos quais saliento não ter lido nenhum trabalho original. Porém não consigo acreditar no empirismo de um sistema que tenha como premissa a total igualdade social e econômica que permita regalias aos seus tutores e governantes. É simplesmente inadmissível!
Mas como é da natureza humana, sendo inerente ou socialmente imputada, nenhuma ideia tão utópica assim, quase onírica, poderia ser posta em prática assim sem nenhuma violação e/ou deturpação de seus ideais. Deixo aqui expressa minha total descrença na humanidade, de maneira geral. Ainda assim, nesse caso específico, deve se odiar o(s) jogador(es) e não o jogo proposto.
Mas seguindo em frente, Elizabeth também teve alguns contratempos e conflitos morais para lidar. Sempre priorizando o plano maior, ela teve que tomar a importante decisão de simplesmente não impedir a morte de Lucia, sua protegida, a fim de deixar que um recurso temporariamente mais valioso prevalecesse. Cena extremamente forte, do ponto de vista dramático para a personagem. Consegui sentir ali toda a dor do conflito moral e sentimental vivenciado por Liz graças a mais uma vez excelente atuação de Keri Russel! Felicity, te amo!
Philip também viveu um pequeno dilema quando não conseguiu levar à frente seu plano cruel, porém necessário, de fazer Martha continuar espionando seu setor por e para ele. Isso mostra a complexidade do personagem numa série que está longe de cair na fácil armadilha do maniqueísmo. Além disso, faz aumentar ainda mais a empatia e admiração que o público telespectador já possui pelo personagem.
Stan teve bastante destaque em New Car, embora eu ainda sinta falta das interações dele com Philip. Sinto falta da época em que Os Americanos estavam mais próximos de serem descobertos pelo FBI, criando um clima constante de paranoia e suspense. Já Nina segue tentando sobreviver a um jogo mais perigoso que o dos tronos e sinceramente temo pelo futuro da personagem agora que Oleg demonstrou sinais de uma personalidade excessivamente dominadora.
E, felizmente, o pequeno plot de Henry invadindo a casa dos vizinhos para jogar vídeo game rendeu um excelente fruto. A semente plantada na semana passada provou ser nada aleatória. Foi catártica a leitura que fiz da cena final do episódio. Enquanto o pequeno Henry desesperadamente pedia desculpas aos pais afirmando ser uma boa pessoa, pude observar ali um ritual de expiação. Elizabeth (arrasada pela morte por omissão de Lucia) e Philip pareciam tentar convencer a si próprios de que também não eram más pessoas, que seus ideais e verdadeiras profissões eram legítimos, justificados.
Mas não temam nobres protagonistas! Felizmente nada é tão preto no branco em The Americans! Nesse magnífico seriado maniqueísmo está longe de ser prioridade na construção das histórias. Os tons são cinza, como na vida e nas pessoas reais. Em New Car pudemos relembrar como a série sabe encerrar cada episódio sempre de forma brilhante! E sobre a trama da temporada: segue se desenvolvendo, no tempo certo, sem pressa nenhuma.















