Uma reta final repleta de erros.

Há apenas dois episódios do final, já é possível dizer que Kaôh Rōng é uma temporada extremamente acirrada e cheia de emoção, uma grande temporada de um reality que não cansa de reinventar e nos surpreender. “Now’s the Time to Start Scheming” foi mais um ótimo episódio que prova que Survivor é capaz de manter a sua qualidade mesmo quando o nível dos competidores não é tão alto. Um reality show precisa muito mais de bons personagens do que de bons jogadores para se manter interessante e a chuva de decisões questionáveis prova que não temos nenhum Front Runner ou Mastermind desta vez. Pode até ser que esta visão de que os jogadores estão no mesmo nível seja mérito de um bom trabalho dos editores, mas eu realmente vejo jogos bem distantes da perfeição.

Após a eliminação de Julia, Jason se tornou uma espécie de zumbi, um dead man walking, e nenhum outro participante ouvia o que ele tinha para dizer ou queria ser associado a ele. Survivor é um jogo que consagra quem é capaz de pular do barco furaco, que está afundando, o quanto antes, procurando abrigo numa outra embarcação ou num bote salva vidas que seja. Entretanto, algo tão definido quanto a eliminação de Jason sempre é uma oportunidade para alguém avançar ainda mais a sua posição no jogo e já garantir uma consolidação no F4 ou F3. É exatamente neste ponto que as contradições de Kaôh Rōng ficam explicitas e nenhum jogador consegue unir tudo aquilo que é necessário para ganhar sem grande dificuldade. Existem grandes ideias, grandes intensões e bons planos, mas todos apresentam falhas e erros. Não que isto seja ruim, não acredito que tenha existido um jogo perfeito em nenhuma das 31 temporadas anteriores e Kaôh Rōng vem apresentando um jogo muito dinâmico justamente por conta das estratégias serem questionáveis.

Entre todo mundo, Tai é aquele que, de forma muita correta, sentiu a necessidade de adiantar o processo de eliminação de Michele ao invés de lidar apenas com Jason. Tai é um jogador de 8 ou 80, ou seja, apresenta muitos altos e baixos. Ele é muito bom no lado social, tem boas ideias e, apesar de sua personalidade, é capaz de tomar decisões completamente egoístas que tem como fim apenas o seu próprio bem. Entretanto, Tai também é facilmente manipulado, tem uma grande dificuldade de articulação e acaba sempre fazendo uma grande besteira quando fala demais no Tribal Council. Um caso de alguém que luta constantemente com si mesmo e não consegue separar suas atitudes no jogo de quem é na vida real e acaba sofrendo por isso. Estamos diante de Um participante que confunde muito o jogo para o telespectador, uma vez que não dá para ter certeza se o júri o ama ou o odeio, mas, nesta altura do campeonato, estou muito mais propenso à segunda hipótese.

Assim, Tai tinha o plano perfeito para este episódio, mas a sua execução foi um completo desastre e ainda esbarrou em erros de terceiros. Ao tentar impor suas ideias sem a menor noção de como se manipula alguém, Tai acabou comprometendo todo o seu raciocínio, que era lógico e bem estruturado por natureza. Tudo poderia ter dado muito certo mesmo assim, se Cydney fosse uma jogadora um pouco mais madura e menos emocional.

Ao invés de deixar Tai executar o seu plano e deixá-lo se queimar sozinho com o júri, Cydney resolveu não levar desaforo para casa e não aceitar ordens de alguém que é muito menor do que ela. Tentando encontrar explicações para as ações de Cydney, fico com a impressão de que ela age em parte por estar desesperada por ver um F3 entre Aubry, Tai e Joe se formando ao mesmo tempo em que é tomada pelo orgulho e vaidade. Para mim, o final mais natural seria entre Cydney, Aubry e Joe, sendo que a hora de lidar com Tai chegaria logo após a liquidação de Michele e Jason, mas Cydney de vez em quando não consegue segurar a sua personalidade forte e acaba comprando uma briga desnecessária. Precisamos ressaltar que ela ficou se estranhando com Joe de forma desnecessária e já agiu um pouco pela emoção quando resolveu trair Scot e Jason. Aquela Cydney paciente que conseguia calmamente navegar entre Alecia e os seus perseguidores deu lugar para uma mulher decididamente explosiva, que eu amo de paixão, mas não conseguiu deixar de ver as falhas deste comportamento.

Formando o trio de jogadores mais ativos ao lado de Tai e Cydney, Aubry também errou bastante e pode ter comprometido bastante um jogo que parecia extremamente favorável. Aubry é muito boa ao ler o jogo, mas já vimos ela ficar um tanto quanto perdida quando existem opiniões contrastantes na sua aliança. Mais uma vez, ela se viu diante de uma complicada escolha, trair a confiança de Tai ou a de Cydney. Vendo de fora, parece fácil dizer que o certo seria manter o plano de permanecer com Tai e Joe e eliminar logo Michele, mas acho que Aubry arregou diante do ímpeto de Cydney, que não aceitaria tão fácil uma possível traição e ficaria louca por vingança. Assim, ela optou por desagradar Tai, alguém que já flipou por falta de apoio, e ainda não eliminou quem considerava a ameaça maior entre Jason e Michele.

Muita gente ao tentar defender o jogo de Michele afirma que ela é quem erra menos e isto pode até ser verdade num mundo em que fazer muito pouco não é considerado um erro. Para mim, é um grande erro e um dos mais cometidos nas 32 temporadas já vistas. São poucas pessoas que fazem jogadas extremamente burras e suicidas, mas é enorme o número de participantes que passa a temporada toda sem se comprometer e acaba morrendo na praia e sem se destacar. Para mim, tanto Joe quanto Michele até aqui foram apenas números, que votaram com a maioria em muitas oportunidades sem consagrar uma estratégia própria. É óbvio que Michele tem claras condições de vencer, enquanto Joe não, mas estrategicamente (na questão física e social Michele está na frente) os dois estão no mesmo nível.

Para piorar, o panorama estratégico deste episódio, o eliminado também teve um desempenho patético e votou de forma completamente sem sentido. Logo depois de Tai abordar Jason mirando em Michele, Jason disse no confessional que, na verdade, queria tirar Joe, mas não deu nenhuma explicação para este improvável voto. Provavelmente, ele tinha algum motivo para acreditar que Joe teria mais votos. Acredito que Cydney mandou Jason para a direção errada, uma vez que a edição não deixaria de mostrar caso a autora desta ação fosse Michele. De qualquer forma, acredito que Jason deveria ter sentido o clima no Tribal Council e votado em Michele. Outra possibilidade seria tentar atrair votos para Tai, mas ir em Joe foi um tiro na água completamente longe de um alvo concreto.

Jason foi um ótimo participante. Um vilão já odiado pelos americanos que fez bullyng com Alecia, sabotou o acampamento e ainda due um verdadeiro show teatral no Tribal Council da eliminação de Debbie. Entretanto, ele pode ter decepcionado aqueles que achavam que ele conseguiria ser uma espécie de Russel Hantz. Nem de longe ele é bom como Russel na manipulação ou estratégia e nem tão ruim como Russel nos pontos em que o vilão de Samoa não obteve muito sucesso. Em alguns momentos, acredito que a edição tentou ajudá-lo a sofrer menos com o ódio do público no pós-jogo, mostrando Jason falando sobre a filha autista em inúmeras ocasiões. Acho que não foi muito suficiente e ele deve abraçar seu lado vilão e apreciar os haters, que são muitos. Eu, particularmente, acabei gostando de Jason e nunca o enxerguei como alguém que perderia de qualquer um. De qualquer forma, só consigo apostar facilmente em Jason como um candidato a retornar, principalmente se a CBS resolver apostar num Heroes Vs. Villains 2.

Ranking da Semana

1- Mark The Chicken. Além de ser um dos participantes mais um dos participantes mais amados, Mark, além de ter escapado do facão em várias ocasiões, ele é o único que me parece garantido no dia 39 e ainda teve todos os outros participantes aos seus pés neste último episódio.

2- Aubry. Errou bastante neste episódio ao ficar divida entre os seus aliados, ao invés de impor a sua opinião. Aubry é inteligente e tem uma abordagem interessante ao sempre respeitar a opinião de seus aliados, mas em alguns momentos ela precisa enfrentar os cabeças dura e seguir a própria intuição, que normalmente está correta. Gosto do seu jogo sutil e da ideia de fazer mais amigos do que inimigos ao mesmo tempo que consegue passar uma ideia de mulher forte. Ela se mantém no topo porque ainda é muito difícil imaginá-la perdendo num Final Tribal Council, mas não é a minha aposta para vencer. Em recao no podcast do Rob Cesternino, Parvati apontou Aubry como a grande favorita e ainda comparou a sua edição com a do vencedor de Blood Vs. Water. Eu realmente vejo semelhanças, mas acho que a grande diferença é que em Blood Vs. Water não existia outra opção de vencedor.

3- Cydney. Acredito que tenha chances menores do que as de Tai e Michele em relação à vitória, mas Cydney, apesar de pecar por agir emocionalmente (lembrando que vimos alguns confessionais de Aubry ressaltando a importância de inteligência emocional no começo da temporada), tem um jogo bem melhor do que os outros dois.  Ela nunca se conforma com seu status atual e fez de Michele uma boa alternativa para o futuro, alguém que depende dela para sobreviver e não tem muitos feitos para vencer. Ainda não vi alguém que não gosta de Cydney, a rainha das caras e bocas e a grande enfrentadora dos vilões da temporada. Infelizmente, sua edição é bem desfavorável desde a merge e não consigo imaginá-la vencendo.

4- Michele. Não estou com aqueles que acreditam que ela é quem erra menos. Se esconder do jogo pode ser uma erro fatal e acontece muito. O hype exagerado da edição não me engana e não posso falar bem dela apenas porque ela tem um grande tempo de tela e ótimas chances de vencer. Preciso fazer justiça e manter a coerência de quem sempre malhou as plantas nas reviews. Simplesmente, não consigo falar muito bem de alguém que ao saber que pode ser eliminada diz “Eu espero que seja Jason e não eu hoje” e comparo Michele a Sierra de Worlds Apart, Woo e muitas Kellys espalhadas em 32 temporadas. Respeito quem gosta de Michele, mas não entendo. Neste episódio, ela ainda enfrentou Tai no Tribal Council e isto pode lhe dar muitos pontos com o júri, se ela conseguir chegar até o final e Tai ser o odiado da vez.

5- Tai. Neste momento, vejo Tai fazendo um jogo imprevisível de uma maneira ruim. Ele continua flipando a todo episódio sem se manter leal a ninguém e agindo por ansiedade. Vejo ele como alguém que se perdeu, justamente, por não saber separar a sua consciência do jogo e ao invés desta consciência fazê-lo se manter firme tudo acaba saindo do controle. Algo parecido com o que acontecia com Lisa em Philippines. Pelo menos, ele está dando o seu melhor e ganharia um bom currículo caso sua jogada com o voto extra tivesse funcionado.

6- Joe. Na minha opinião, este episódio foi do Joe e ele se consagrou como o velho gagá rabugento sem noção que faz várias cagadas hilárias. Joe se frustrou com a bola no Reward Challenge, como se fosse culpa dela a derrota, quase colocou fogo no acampamento e me fez gargalhar ao errar inúmeras vezes no Soletrando. Com um pouco mais de edição neste sentido, Joe poderia ter se consagrado com um bom alívio cômico como Tarzan em One World ou Keith em Cambodia, mas a edição preferiu dar 1.500 confessionais sem graça para Michele, dizendo que é uma mulher forte, independente e que não vai tolerar ser pisada no jogo.

PS: Kaôh Rōng está na sua reta final, mas ainda dá tempo de entrar nas discussões de Survivor no Telegram, em que estamos debatendo constantemente a temporada atual e até as antigas. Novos membros são sempre aceitos. Vem comentar com a gente. É só ter telegrama e usar nesse link.

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