Como o título já sugeria, o terceiro episódio da nova temporada de Grace and Frankie toma certo distanciamento dos conflitos abordados nos dois primeiros. É uma ótima tática para que os dramas das personagens não sejam explorados em demasia e isso torne a trama cansativa. É preciso retomar o fôlego às vezes para mergulhar novamente nas questões tão bem abordadas e na desconstrução da vida de ambas. The Negotiation faz um bom trabalho nesse aspecto, seu texto, por mais atrapalhado que se torne, é perfeito para deixar descansar os corações de nossas protagonistas, pelo menos o de uma delas, e lidar com novos assuntos condizentes à rotina delas.

A trama com o lubrificante brinca com a fronteira da escatologia que a série está sempre a um passo de cruzar — e às vezes cruza. Nesse caso, nem sempre funciona, mas aqui está bem aplicada por utilizar dos derivados da questão, e não da questão em si. Ganhamos uma Frankie entrando no mundo dos negócios e ganhando um sábio conselho da companheira de casa. É uma ótima ideia uni-la a Brianna, e as cenas das duas são impagáveis, principalmente no que diz respeito ao ato de sentar ou não sentar. Como brinde, temos apelidos novos para a garota amarga e um possível novo-velho flerte de Frankie. Sua empolgação é compreensível, pois sabemos que ela encontra esse jogo de paquera mais de quarenta anos depois de ter abdicado da prática. A forma quase infantil usada por ela para lidar com o beijo e suas consequência é divertida de ver. O ato gera um clima de cumplicidade entre ela e Grace, já que as duas estão na mesma posição no que diz respeito a adicionar outro homem a suas vidas.

Falando em Grace, é interessante como a cada episódio vamos descobrindo e investigando uma nova faceta de sua personalidade. Sabíamos desde a primeira temporada como sua vida era agitada e o quanto disso impactava em sua família: da farsa do casamento controlado ao relacionamento complicado com os filhos. Agora pudemos vislumbrar a visão deles dos acontecimentos. Ela precisou encarar algo que dissera há muito tempo, sem perceber, em meio a rotina caótica que vivia, mas que ficou martelando na cabeça da filha, mesmo que esta não tenha lhe dito até então. Esse desentendimento entre elas foi tratado de maneira madura. Como bônus, assistimos ao desdobrar de Grace tentando achar uma forma de se comunicar com os netos que, no fim, pode ter achado. As referências envolvendo Literatura foram ótimos. Livros podem sim ser divertidos!

Não dá para passar por esse episódio sem falar da ótima subtrama envolvendo Sol e Robert. Se o que os preocupava antes era encontrar o equilíbrio perfeito na vida de casal, agora precisam repensar a forma como querem que o mundo os veja. O primeiro, mais movido por ciúmes do que por convicção, afasta o marido de qualquer coisa que os defina como gays demais. Por experiência própria, posso dizer que essa é sim uma questão muito discutida entre os casais e gostei de ter sido abordada aqui. Tempo é tudo o que eles querem, e talvez tempo seja a única coisa que não possam ter — ou não tanto quanto desejam. Há uma vida inteira a explorar, coisas a fazer, assuntos a debater, lugares a frequentar e pessoas a conhecer… O primeiro passo já foi dado, pelo menos.

Grace and Frankie fecha seu trio de episódios novos de forma divertida, mesmo em seus momentos mais aflitivos, mostrando que é uma comédia relevante, atual e bem escrita, além de muito bem atuada — mas isso já é chover no molhado; ou molhar o lubrificante. Não, espera…

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.