Quando a produção contraria os próprios deuses de Survivor.

Eis que, desde a época da estreia da temporada, estou programado para substituir nosso caríssimo Diogo Pacheco nesta semana, e é claro que meu pé frio atacou novamente e nos deu o episódio mais chato e sonolento de Survivor Ghost Island até agora. Nada de idol, nada de vantagem, nada de twist, só o mais puro e simples pagonging da tribo majoritária sobre a minoritária. Quem estava reclamando que, nos últimos tempos, estávamos tendo vantagens demais deve ter amado o episódio.

Mas não culpo ninguém pelo mais absoluto anti-jogo que houve neste episódio além da própria produção, que tinha a faca e o queijo na mão para nos entregar um momento épico, mas se recusou a fazer isso. O universo deixou claro: Stephanie era quem tinha que ir para a Ghost Island, jogar o jogo deixado de lado por Kellyn na semana anterior, ganhar uma vantagem, e nos entregar mais um episódio ótimo! Os deuses de Survivor pediram por isso! Mas a produção ignorou, afinal Steph não é um macho alfa, não é verdade?

Eu levei um tempo para decidir se gostei ou não do fato de que a produção tinha todo o poder nas mãos para manipular as vantagens saídas da Ghost Island. Afinal, se os jogadores precisam quebrar as urnas em ordem, é muito fácil alterá-las imediatamente antes da ida de determinado jogador para o local para que os poderes dos artefatos de lá fiquem exatamente nas mãos de quem eles querem (ou não cheguem às mãos de quem eles não querem).

Entretanto, a produção mostrou nesse episódio que não parece disposta a alterar a ordem das urnas nem mesmo quando faria sentido fazê-lo. Ora, se Kellyn se recusou a jogar o jogo (e essa oportunidade lhe foi dada em um momento em que havia mais vantagens no jogo do que quando Stephanie foi, então o problema aqui passa longe de ser excesso de vantagens), por que não manter a oportunidade de escolha para a próxima pessoa que for? Isso inclusive dificultaria a decisão de não jogar, pois, caso você decida não arriscar, pode estar dando de bandeja uma vantagem para o próximo que for. Ninguém reclamaria dessa lógica, e é algo que movimentaria muito mais a Ghost Island.

Outra coisa que se beneficiaria de uma mudança é a colher de chá de fazer com que a tribo perdedora sorteie nas pedras quem será enviado à Ghost Island caso a vencedora se recuse a nomear uma pessoa. Eu preferiria que, por exemplo, a tribo vencedora sorteasse nas pedras, e a pessoa que tirasse a pedra branca ganhasse, sozinha, o poder de escolha. Assim, a possibilidade do anti-jogo novamente seria quebrada aqui, e a Ghost Island se tornaria uma preocupação maior para os jogadores.

Mas chega de especulação e vamos falar sobre o que de fato aconteceu. Não que haja muito a ser dito. Você sabe que o episódio não tem assunto quando as melhores coisas que a promo consegue fazer são vender um romance falso de Jenna e Sebastian como se fosse real e destacar Desiree surfando com a cabeça submersa como um grande momento.

O momento mais interessante do episódio foi a grande surpresa que foi ver Chris finalmente sendo um bom jogador e fazendo seu primeiro episódio positivo da temporada. A esta altura, é chover no molhado dizer que Survivor tem menos a ver com alianças e mais a ver com conexões reais. Salvo exceções, encontrar pontos em comum com outros jogadores e mostrar a eles como se identificar com você em um nível pessoal é um movimento chave para o sucesso de uma aliança. Foi exatamente isso que Chris fez com Donathan, e a edição fez questão de nos mostrar que foi um movimento calculado pelo modelo, e não uma coincidência que por acaso eles descobriram conversando.

Essa sequência se destacou do restante do episódio porque, em geral, as narrativas contadas foram bastante pessoais e emocionais, uma espécie de fuga da ideia de Survivor como jogo de punhaladas e traições. A conexão entre Chris e Donathan não foge a essa regra, mas traz o elemento extra de movimento de jogo bem-sucedido feito por Chris, o que deixa tudo mais interessante e incerto em relação a quem vencerá a batalha Chris versus Domenick.

Chris ainda pode muito bem perder e sair no próximo episódio, mas é inegável o fato de que ele aumentou suas chances de sucesso daqui pra frente, e eu não o considero mais carta fora do baralho como considerava até agora. Imaginem se, caso os jogadores se dividam em três tribos de 5, Chris cair com Donathan e Angela, por exemplo? A última temporada do Australian Survivor já nos ensinou que jogadores que começam com o pé esquerdo podem acabar dando a volta por cima se as condições permitirem.

Survivor 36×05: A Diamond in the Rough

Chris também foi o grande destaque no reward challenge, destruindo e humilhando completamente a tribo rival com seus arremessos, o que só o torna um candidato cada vez menos provável de sair na fase tribal, mas ao mesmo tempo aumenta seu alvo na fase individual do jogo (e ficar se gabando de ser o arremessador do time de baseball definitivamente é coisa do “velho Chris”, aquele que não se ajuda e aumenta a vontade das pessoas de eliminá-lo). Já no desafio de imunidade, é estranho que Chelsea tenha sido escolhida para ir surfar duas vezes, enquanto Desiree, que claramente fez bonito e tirou o atraso para sua tribo, tenha ido apenas uma. Esse erro estratégico pode ter sido o que custou à tribo a vitória, já que Kellyn e Bradley pareciam estar indo bem no puzzle, mas começaram com muito tempo de desvantagem.

O clima da tribo antes do Tribal Council não nos deu nada estrategicamente interessante, já que se tratava apenas de um pagonging, mas a edição fez uma boa escolha ao nos mostrar como o processo de decisão da eliminação pode ser inconstante. A cada momento, a tribo combinava um nome diferente. Alguém dizia alguma coisa, e o nome mudava. No fim, o que importa realmente tende a ser o que foi dito no momento mais próximo possível do Tribal Council, porque em ocasiões como essa é muito fácil mudar de ideia. Também foi divertido ver como cada um dos três jogadores escolheu sobreviver: Michael se vendeu como útil nos desafios, Steph como alguém que quer muito ficar e pode trabalhar com eles, e Jenna usou o flerte.

Pode-se questionar a execução, mas a estratégia de Michael e Jenna me pareceu realmente superior, e o Tribal Council refletiu isso. Não há nada mais ineficaz do que apelar para o emocional dos jogadores e tentar usar do argumento “é o meu sonho, quero muito jogar!”. Esse tipo de argumento só enfatiza que você pode se tornar uma pessoa perigosa, e portanto uma melhor candidata à eliminação. Stephanie parece ter feito tudo o que pôde para se manter no jogo, incluindo oferecer-se como número para ajudar os Navitis, mas deu esse passo em falso. Ainda assim, não acredito que foi por isso que ela saiu. Steph era a melhor opção de eliminação mesmo, já que Jenna é uma ótima inútil para ser arrastada e Michael um ótimo alvo para esconder os Bradleys e Kellyns na merge. Entre os três, Steph certamente era a mais perigosa e precisava ser eliminada.

Não vou cair no erro comum de diminuir o jogo de Stephanie após sua eliminação. Ao meu ver, a premiere foi mais que suficiente para mostrar que ela era uma excelente jogadora, mas acabou ficando do lado errado dos números justamente na tribo em que os Navitis se uniram como uma rocha. A carga dramática em torno de Stephanie nos dois últimos episódios me parece mais uma escolha narrativa do que uma desistência dela. Tenho certeza de que ela lutou bravamente para sobreviver, mas não deu.

O mais surpreendente foi ver o air time gigantesco que alguém que saiu no episódio 5 conseguiu nesta temporada. Steph entrou para o rol das personagens femininas que saem ainda no pré-merge, mas não sem antes a edição retratar como aparentes ótimas jogadoras em um certo ponto. Anna, Mari e Ali têm uma nova companheira nesse rol da fama. Torci com todas as minhas forças para que os Navitis dessem uma bobeira e eliminassem Jenna, mas claro que a racionalidade dificultava muito que acreditássemos nessa possibilidade. O importante é que o show tem que continuar, e, com uma swap pela frente, tudo pode acontecer. Esperemos por episódios com mais jogo de agora em diante.

Ranking da semana após “A Diamond in the Rough”:

1 – Kellyn: está numa posição interessante e, entre Domenick, Chris e Bradley, não parece que será alvo tão cedo. Grande candidata a finalista e a vencedora.

2 – Wendell: tem bem menos destaque que Kellyn, mas está se mostrando uma pessoa bem quista até pela aliança rival, que cogita se voltar contra sua antiga tribo para protegê-lo. Se isso não é um ótimo jogo, não sei o que é.

3 – Domenick: começou bem Tony, mas soube a hora de pisar no freio e solidificar suas relações em vez de sair em polvorosa por aí. Sumiu neste episódio, e isso faz todo o sentido pensando em um episódio em que o anti-jogo predominou, e mesmo assim continua sendo o participante de maior destaque da edição na temporada.

4 – Laurel: parece ser uma boa jogadora e segue numa posição confortável, cercando-se de boas relações por todos os lados, mas a edição já escancarou que não é a história dela que está sendo contada nesta temporada.

5 – Michael: provavelmente só se salvou neste episódio porque os Bradleys e Kellyns da vida querem alfas para se tornar alvos na merge, mas já provou que é um bom jogador e que tem condições de ir mais longe do que o esperado.

6 – Chris: até este episódio, eu o colocaria no bottom 3 da temporada, mas não sinto mais que sua trajetória será tão unidimensional assim. Ainda há tempo para se recuperar.

7 – Donathan: está numa posição muito segura e tem tudo pra ir longe, mas a sensação é de que o destaque que recebe tem a ver com ser um bom personagem, não um bom jogador.

8 – Bradley: começou a temporada meio purple, mas tornou-se destaque constante assim que começou a ir aos Tribal Councils, e todos os colegas de tribo mantiveram sua lealdade a ele quando ela foi testada. Estava apostando muito em um flop, agora não tenho mais essa certeza.

9 – James: também não parece ser um grande personagem da nossa história, mas é difícil esquecer como jogou bem no episódio da eliminação de Morgan, e ainda está na minha lista dos que podem surpreender.

10 – Sebastian: nunca pensei que me identificaria tanto com Sebastian quanto na cena do flerte com Jenna. “Guto, fala alguma coisa bacana pra impressionar” / “Oi, seu cabelo tem cheiro de doninha morta!” Sebastian está naquele meio termo: não deve sair antes da merge, mas não é possível vê-lo como vencedor.

11 – Libby: em cinco eliminações, ela foi a três Tribal Councils, só não foi irrelevante em um deles, e ainda eliminando alguém que confiava nela. As chances definitivamente não parecem estar a favor de Libby.

12 – Desiree: nem quando Desiree deu uma ideia decisiva (mirar em Brendan) a edição se preocupou em dar crédito a ela. Jamais imaginaria que seria uma personagem tão apagada.

13 – Jenna: quem nasceu para ser Jenna nunca será Parvati. Até Sebastian, que não parece lá ser a pessoa mais perspicaz do universo, entendeu perfeitamente a estratégia desesperada dela. No fim, só ficou porque ninguém a considera relevante suficiente para precisar ser eliminada.

14 – Chelsea: está sempre por ali, andando na praia com a galera, dando uns pitacos… mas o que ela realmente pensa a gente nunca sabe, coitada.

15 – Angela: assim que lembro da cara dela fico com preguiça da vida.

Como eu me sinto quando passo o fim de semana em casa vendo todos se divertirem no Lolla:

Survivor 36×05: A Diamond in the Rough
REVISÃO GERAL
Nota:
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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.
survivor-36x05-a-diamond-in-the-roughUm episódio que representou o anti-jogo, com gostinho extra de oportunidade perdida pela produção. A competente edição conseguiu tirar o máximo de seu elenco explorando-os como personagens, e isso ajuda, mas não salvou o episódio de ser o pior da temporada até aqui com bastante folga.