Uma nova Supergirl para o melhor episódio da série.

Faltando quatro episódios para o final da temporada, antes mesmo do crossover com The Flash, Supergirl entregou o seu episódio mais forte até agora. Com um único vilão para enfrentar e apenas uma história para desenvolver a série conseguiu passar o roteiro mais estruturado que já teve. Tudo isso graças a transformação radical da protagonista, a nossa Supergirl.

É engraçado ver como a série conseguiu mudar bastante quando decidiu focalizar sua lente em apenas uma trama recorrente para o episódio, forçando assim o trabalho conjunto em cima do mesmo tópico para os dois núcleos, DEO e CatCo. Já havia comentado antes que este é um dos maiores problemas para a série e ter a nova abordagem melhorou, mas também deixou evidente que não é apenas uma impressão. Ela sempre está dividida entre duas instancias completamente diferentes. O DEO não oferece muito além do relacionamento entre Alex, J’onn e Kara. E como já ficou bem claro, ganhamos bem mais quando os três não estão debaixo da base secreta de defesa contra ameaças extraterrestres. Quando a divisão deixa de existir e todo mundo começa a se preocupar com um tema apenas, a mudança de “humor” da Supergirl, tudo se torna bem mais apresentável. Até as pequenas interações entre Hank e a senadora antes e depois da revelação adicionaram uma nuance pouco explorada na agência, o aspecto da vida privada.

O episódio foi extremamente emocional, de um jeito que apenas Supergirl é capaz de criar. A partir do momento em que Kara está livre do efeito da kryptonita vermelha, a primeira pergunta que ela faz é: “Eu matei alguém?”, para em seguida me destruir com suas lágrimas. Melissa Benoist é a melhor Supergirl que já existiu, ela é também o melhor Superman já criado para o formato live action. Sua interpretação da personagem sem limitações foi muito competente. Indo além, fugiu totalmente do esperado para o tipo de abordagem. Em determinado momento eu realmente senti a ameaça que o restante dos personagens mencionavam. Um mérito da atriz e também da direção do episódio, feita pelo competente Larry Teng, o mesmo de Human for a Day, outro marco emocional da produção.

Utilizar um artefato para mudar a personalidade de um herói ou heroína não é novidade para o mundo de vigilantes mascarados. Contudo, em Supergirl existem consequências reais para aquele meio. Seria muito fácil terminar o episódio da mesma maneira que começamos, com todos perdoando a Kara pelas palavras e seguindo em frente, afinal, aquela não era verdadeiramente a amiga e irmã que todos amam. Mas o roteiro da produção vai além e através de diálogos intimistas impõe uma mudança na dinâmica do grupo que é muito importante. Aquela era a Kara, mas sem inibições. Aqueles pensamentos, como a própria protagonista falou, já haviam aparecido em sua mente antes. Todo mundo tem um lado sombrio, mesmo quem nunca aparentou. Aquela menina bondosa que sempre coloca a necessidade dos outros à frente da sua? Ela também tem pensamentos egoístas, maldosos, ciumentos. A imperfeição é o que faz da Supergirl uma super-heroína completa e o entendimento da equipe técnica da série em cima desta característica é o que constantemente excede as expectativas.

Supergirl é uma heroína convencional. O tipo de “amiga” que vai aparecer para te defender caso os valentões da escola decidam te importunar. Ela tem o cuidado de olhar com sua visão de raios-X para descobrir o seu nome. É fácil entender o orgulho que National City tinha por ela e apesar de tudo ter caído com muita velocidade, também é compatível com o comportamento que várias pessoas demonstram atualmente. Imagina aquele ator que todo mundo ama e faz propaganda de margarina, aparecendo com um filhote de carneiro morto? Facilmente o apelo emocional que ele antes exercia será trocado por muita raiva e ranger de dentes. É assim que o mundo funciona e por isso ter aquele tipo de reação dos habitantes da cidade em uma montagem de partir o coração foi um dos pontos altos do episódio. Um episódio que teve praticamente 100% de aproveitamento no quesito ponto alto.

Absolutamente todas as cenas com a Cat enriqueceram e muito Falling. Calista Flockhart é muito poderosa e consegue transformar até mesmo a mais fraca das falas em algo memorável. É notável que ela é a pessoa mais investida no sucesso da Supergirl. Como uma feminista a personagem sabe exatamente quão prejudicial para a causa ter é o símbolo de National City se voltando contra seu povo. Ao invés de moldar seu personagem para que ele se encaixe em qualquer saída do roteiro, a produção preza por fazer com que o texto seja escrito de acordo com a personalidade já estabelecida de seu grupo. Com muita força e determinação Cat despreza a primeira informação vinda de Siobhan, dando o benefício da dúvida para sua “criação”, para depois de já conformada com a mudança da heroína aparecer discretamente limpando as lágrimas do rosto. Cat Grant é uma mulher forte, mas mesmo as mulheres fortes estão sujeitas a sucumbir a algo maior.

Gostei bastante da ironia de todo o episódio em colocar a Cat para defender sua criação, Supergirl, no programa The Talk. É uma conveniência do roteiro, que também colocou a senadora para aparecer no DEO e reconhecer seus preconceitos justamente quando a heroína está para ser infectada por um alterador de personalidade. Porém o recurso encaixa bem dentro da proposta e não termina como um clichê mal utilizado, ou uma muleta. Por falar em clichês, sempre gosto de deixar claro em minhas críticas que não existe problema algum na utilização destes momentos comuns. Ao contrário, um clichê quando bem utilizado oferece uma espécie de conforto narrativo para o episódio. É um tipo de âncora, aproveitando momentos pouco usuais para não deixar que a série se afaste totalmente de seu clima habitual. Em Falling alguns desses períodos citados agem exatamente dessa forma. Cenas previsíveis são desenvolvidas, mas com resultado acima de qualquer expectativa.

Supergirl permanece entregando uma temporada bem estruturada. São momentos especiais que encaixam perfeitamente na história da mitologia da família Super, mas sem soar como uma cópia. É verdadeiramente uma homenagem ao que o Superman já apresentou de melhor e que dificilmente conseguiria um espaço nas ambições hollywoodianas. Este décimo sexto episódio expõe toda a força da série. A equipe de roteiristas e produtores não tem medo de agir através de momentos que definem a personalidade e o mundo ao redor dos seus personagens principais e secundários. Cada passo dado reflete futuramente em uma consequência e o resultado é visível. Seria muito fácil esquecer o trabalho de episódios anteriores, mas até mesmo através de Maxwell Lord a série deixou claro o crescimento e acompanhamento de cada criação realizada para a mitologia do seriado. Nada ali é difícil de compreender e acreditar, na verdade, olhando a história já contada fica muito simples de entender o que cada personagem se tornou e porque ainda estamos fiéis aos charmes de Kara Zor-El.

Easter eggs e outras informações

– Superman tem o costume de trocar de roupa dentro de um depósito no ‘Planeta Diário’. Acho que ele vai ficar bem decepcionado quando descobrir que o da CatCo está inutilizado após as aventuras de Winn e Siobhan.

– Existem várias interpretações da kryptonita vermelha dentro das adaptações da família Super. Em Smallville ela afeta Clak Kent da mesma maneira que em Supergirl, mas não é manufaturada e sim uma outra espécie de fragmento radioativo de Krypton.

– Na nona arte durante a pré-crise a pedra avermelhada é uma derivação da verde, modificada após a exposição a uma nuvem vermelha. Diferente do que estamos acostumados, ela não tem um efeito fixo e pode variar consideravelmente de uma exposição para a outra. No pós-crise a pedra é capaz de retirar os poderes do Superman e é uma criação do Mr. Mxyzptlk. Existiu uma versão adaptada por Ra’s al Ghul que deixava a pele do Superman translúcida e aumentava exponencialmente sua absorção de radiação solar, fazendo do herói alguém descontrolado e extremamente perigoso – algo similar foi feito em Lois & Clark.

– Em Superman III a kryptonita vermelha foi fabricada por Lex Luthor e tinha uma efeito similar ao explorado na série.

– Por falar em Superman III, a cena com a Kara destruindo garrafas com amendoins é uma homenagem ao terceiro filme do Kal-El.

– Khund o “vilão” do episódio é o nome de uma raça que tentou tomar o controle do planeta Terra no evento Invasion!

– Foi possível ver o nome do editor do Planeta Diário, Perry White, enquanto Kara bisbilhotava o e-mail da Siobhan.

– Melhor momento do Winn no episódio: “Ela matou a Sra. Grant?”.

– Bye bye Siobhan, te vejo no episódio crossover.

– James não sucumbiu a Kara em seu momento sem inibições, uma amostra de que seu sentimento pela “amiga” é pelo lado gentil e altruísta, não por seus atributos físicos, ou algum desejo hormonal. Boa sacada, série.

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