
Unidos por The Wire.
Spoilers Abaixo:
A terceira temporada de Suits traz muitas semelhanças em relação à segunda. Especialmente no que diz respeito ao posicionamento de seus personagens e às premissas que evocam todos os conflitos. Talvez por isso, é difícil não ver este ano como algo ligeiramente inferior ao belo momento vivido pela série há pouco tempo. Não por ser repetitivo, já que não é, mas por criar arcos que compartilham princípios com os anteriores. E este Conflict of Interest é a prova cabal dessa tese, mantendo o nível de qualidade dos três primeiros episódios da temporada, ainda que patine em momentos pontuais.
Escrito por Daniel Arkin, o roteiro traz a sequência direta dos acontecimentos de Unfinished Business, novamente se focando na acusação contra Ava Hessington, desta vez opondo Harvey a Louis, que acredita que a atual CEO deve ser sacrificada pelo bem da empresa e da Pearson Darby, conseguindo o apoio de Jessica. Enquanto isso, Mike continua sua rixa com Katrina, que tem mais em comum com ele do que se imaginava, ainda que ainda esteja do lado de Litt. Já Donna continua flertando com Stephen, à sua maneira, mas se esquecendo completamente de Harvey no processo.
Note como, mais uma vez, os conflitos em Suits se resumem à Harvey e Louis, que provavelmente são os advogados de uma mesma firma que mais se enfrentaram na história da advocacia. Ainda que isso possa soar como uma mera repetição de tramas, é importante perceber que o reuso desse recurso não chega a ser um problema para o episódio (apesar de a série necessitar de um escape para essa situação). Primeiramente porque, desta vez, o duelo não chega a ser explícito, se tornando meramente um símbolo do conflito interno vivido dentro da Pearson Darby e da crise no relacionamento entre Harvey e Jessica.
Aliás, a intensificação dos problemas internos da firma é o verdadeiro ponto-chave de Conflict of Interest. Especialmente por conta da presença pontual e precisa de Darby na trama. Quando a fusão entre o escritório americano e o britânico ocorreu, obviamente sabíamos que algum problema existiria ali, mas Edward não parecia uma ameaça tão perigosa quanto Daniel Hardman. Aqui, no entanto, vemos que Jessica mais uma vez se encontra em uma posição desconfortável, desta vez sem contar com seu homem de confiança, mesmo sem saber que o próprio pretende derrubá-la em um futuro muito próximo.
É exatamente esse o ponto crucial que diferencia a segunda temporada da terceira, que podemos ver claramente quando Louis, sempre menosprezado, se coloca ao lado de Jessica, enquanto Harvey age sozinho. O curioso é que, novamente, o dentuço advogado parece estar do lado errado da briga, já que é pouco provável que a investida de Harvey não dê resultado diante do poderio financeiro e político de Darby. Na verdade, essa enorme atração pela derrota de Louis é importante para estabelecer a diferença entre ele e seu grande rival. Enquanto um pensa à frente e é extremamente racional, a paixão do outro prejudica a visão clara das coisas, fazendo-o tomar atitudes de forma bastante atrasada.
Mas Conflict of Interest não é apenas sobre o conflito que se desenha dentro da Pearson Darby. A forma como o episódio conduz a trama de Ava, dando seguimento ao que vimos anteriormente, é interessante. Tanto Louis quanto Harvey encontram diversos obstáculos, e, embora demonstrem seus talentos, acabam por não atingir seus objetivos. Dessa forma, o roteiro não se mostra conveniente, evoluindo a história com competência e sem atropelos. Da mesma forma, o desabafo de Ava, quando convence até a Harvey sobre não ter culpa nos assassinatos, é mostrado em tela com eficácia, criando uma reviravolta inesperada diante da frieza da personagem, mas sem distorcê-la.
Para que isso aconteça, as cenas entre Mike e Katrina são importantes. Acreditava que Suits investiria por mais algum tempo na guerra entre os dois, mas fico feliz por estar enganado. Ao invés de opô-los completamente, a série logo trata de aproximá-los através de identificações bobas, mas precisas, da mesma forma que Harvey e Louis no princípio de suas carreiras, para evidenciar esse paralelo mais uma vez. E, de fato, os diálogos entre eles são interessantes – ainda que desnecessariamente expositivos em alguns momentos – por acrescentar à história do episódio em si e por colocar os personagens em uma posição diferente.
Pensando nisso, não é por acaso que Rachel praticamente desaparece do campo de visão de Mike durante todo o episódio. Ao longo dos quarenta minutos, é crescente a tensão sexual entre ele e Katrina, que é a chave da rápida resolução entre eles. Afinal, não há dúvidas de que se Harvey e Louis fossem de sexos opostos ou os dois fossem gays suas diferenças já teriam sido resolvidas há tempos, tal como vimos com Scottie. E, para que essa tensão funcione, Rachel não poderia aparecer a cada instante como namorada.
É por isso que ela se limita a ser o escape feminino do episódio juntamente com Donna. Os diálogos entre elas funcionam somente como alívio cômico, mas são bem colocados diante de histórias em que traição e desentendimentos marcam o ritmo. Essa é uma característica que Suits sempre aproveita muito bem, equilibrando situações como essas com competência.
Além disso, Donna é a figura que simboliza a união entre Harvey e Darby. É a primeira vez que ela se esquece de pensar em seu chefe, especialmente por conta de outro homem, o que revela que ela finalmente pretende se dedicar a algo que não seja seu trabalho. E não é coincidência que essa pessoa seja exatamente Stephen, tão parecido com Harvey e representante da parcela britânica da firma.
À parte de tudo isso, Conflict of Interest tem seus problemas. Além dos já citados diálogos expositivos, o episódio resolve investir, já em seus minutos finais, em um momento romântico que destoa do restante das tramas, em que Mike diz pela primeira vez as famosas três palavras para Rachel. Era evidente que isso iria acontecer eventualmente, e é mais uma vez inteligente que Suits o faça sem grandes dramas, mas isso certamente teria maior impacto em outra ocasião.
Mesmo assim, Conflict of Interest mantém o bom nível desta temporada. Curiosamente, vejo os quatro episódios como estando em um mesmo patamar. Nada que se revele fantástico, mas tampouco próximo de não ter qualidade.












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