Uma das séries mais comentadas atualmente, Stranger Things conquistou uma legião de fãs desde sua estreia, três anos atrás. A qualidade da série, para muitos, é inegável, seja na trilha sonora, no roteiro, ou na própria escolha dos atores, que além de conquistar o público em cena, se demonstram extremamente carismáticos e receptivos na vida real também. Entretanto, um outro fator que também faz a série ter o peso que tem é a direção de arte: quem não se lembra do clássico visual da Eleven na primeira temporada, com o vestido rosa e a jaqueta azul? Ou do conhecido boné azul, vermelho e branco do personagem Dustin? É possível dizer que até a cenografia também marcou bastante a identidade da série, com as clássicas luzes de natal pregadas com o alfabeto pintado na parede, algo que se tornou uma marca registrada da obra.
A direção de arte é responsável pelo aspecto visual plástico de uma obra audiovisual, desenvolvendo tanto uma ideia de arquitetura para os ambientes narrativos quanto os demais elementos cênicos que irão compor os quadros narrativos – ou seja, desenvolve tudo aquilo que vemos em cena, desde a cor das paredes de uma sala até o brinco de uma personagem. Como a série se passa nos anos 80, a equipe de direção de arte – assim como diversas outras áreas da produção, como os roteiristas – certamente teve um grande trabalho para desenvolver o aspecto visual verossimilhante com a época em questão, ou seja, tiveram que desenvolver cenários, figurinos e maquiagens que fizessem sentido com proposta oitentista da série, e é isso que comentaremos a seguir.

Primeiro, na cenografia, a série consegue nos colocar muito bem nos anos 80, com diversos aspectos que nos remetem automaticamente àquela época. Ao longo da cidade de Hawkins é possível notar, mais pontualmente, o trabalho da cenografia, como no cinema da primeira temporada, onde vemos a típica representação de cinemas estadounidenses da época, com um grande letreiro brilhante e os filmes listados abaixo; já na segunda temporada, vemos o fliperama da cidade também muito bem representado, com uma grande placa brilhante e diversas formas feitas de neon, algo que era bastante comum na época. A equipe de direção teve o trabalho, portanto, de achar locações que se encaixassem no perfil de um cinema e de um fliperama, em ruas que combinassem com os principais aspectos visuais de Hawkins e que fossem promissoras para as adaptações necessárias.


E na terceira temporada, lançada no começo deste mês, não foi diferente. O shopping Starcourt, que foi palco do principal plot deste ano da série, também teve um incrível trabalho de direção de arte. A equipe foi atrás de um local que se assemelhasse à proposta da trama, e o shopping Gwinnett Place, da Georgia, foi o escolhido pela direção de arte para dar vida ao Starcourt – e, adivinhem, teve neon utilizado como principal ferramenta para se transformar em um shopping oitentista.

Poderíamos também comentar sobre a cenografia da sala de aula do Sr. Clarke, a qual possui diversas referências à NASA e viagens espaciais, algo bastante comentado na época, ou sobre o quarto dos personagens, que possuem diversos objetos relacionados a filmes da época – como Caça Fantasmas, Tubarão, Star Wars, entre vários outros. Tais escolhas pontuais da direção de arte não só servem para referenciar obras conhecidas pelo espectador, mas também para agregar e demonstrar um pouco mais da personalidade dos personagens, além de aprimorar a localização temporal da série nos anos 80.
A situação também não foi diferente com os figurinos e maquiagens da série, tendo estes sido bem pensados para não só compor a identidade de cada personagem, mas também para localizá-los nos anos 80 – garantindo assim uma maior abrangência daquela época e, também, uma maior verossimilhança. Começando pelo cabelo, temos diversas referências à época oitentista, como por exemplo os penteados com bastante volume, como podemos ver em diversos personagens – como Steve Harrington e Karen Wheeler.


“use the shampoo and conditioner, and when your hair’s damp — it’s not wet, okay? When it’s damp, you do four puffs of the Farrah Fawcett spray.”
Nos anos 80, era comum vermos diversas pessoas utilizando esse tipo de penteado, além de ser comum também o uso de topetes, e o personagem interpretado por Joe Keery, inclusive, comenta o segredo de como fazer o seu penteado – com shampoo, condicionar e quatro espirros do spray Farrah Fawcett. No final da segunda temporada, o personagem Dustin, tentando ficar bonito para “fazer sucesso” no baile escolar, se utiliza desse mesmo tipo de penteado – com bastante volume e com direito a um mullet. A personagem Nancy também se utiliza de um penteado com bastante volume durante o terceiro ano da série, se assemelhando com a mãe – algo que dá ainda mais significado para a cena em que as duas se tornam mais próximas, tendo no jeito de arrumar o cabelo um fator de semelhança e identificação entre a personalidade das duas.

Podemos citar também os cabelos de Will Byers e Billy Hargrove. O cabelo tigelinha era bastante comum em crianças na década de oitenta, e é uma marca registrada de Will Byers nas três temporadas da série. Pensado especialmente para o personagem, tal corte de cabelo nos remete à uma ideia de inocência e puerilidade – extremamente condizente com o personagem, que é apresentado para o espectador como bastante jovem e inocente. Já o personagem Billy é apresentado, desde o começo, como um bad boy, e seu cabelo – assim como suas roupas e seu carro – ajudam a passar tal imagem. Baseado no personagem de Rob Lowe no filme “St. Elmo’s Fire”(o “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas”, no Brasil), logo percebemos um personagem sedutor, mulherengo e remetente à ideia de popularidade.

Poderíamos também comentar sobre a maquiagem de algumas personagens, como Nancy e sua mãe, que também foram escolhidas para destacar a moda oitentista vigente na série. Porém, para finalizar, abordaremos o figurino de alguns dos personagens, um dos fatores da direção de arte mais marcantes da série. Como já comentado, o boné do personagem Dustin e o figurino da personagem Eleven na primeira temporada foram marcas visuais garantidas da série, mas que outros aspectos do figurino de Stranger Things nos remetem à cultura oitentista?
Assim como o neon, as cores florescentes também marcaram bastante a década de 80 – e podemos vê-las ao redor de todo o shopping Starcourt durante o último episódio –, e também podem ser vistas em diversos figurinos da série. O uso de tons vibrantes nas roupas foi um dos elementos que se sobressaíram na terceira temporada, sendo útil também para destacar a moda oitentista de uma maneira bastante eficiente e dinâmica para os espectadores.


Não só isso, alguns outros fatores da moda dos anos 80 também se destacam nessa temporada. O primeiro deles podemos ver no figurino das personagens Nancy e Eleven, e pode ser contextualizado historicamente: na época abordada, as mulheres estavam conquistando maior espaço no mercado de trabalho, o que influenciou na moda a partir do uso de diversas peças, entre elas suspensórios e calças de cintura alta. Outra coisa bastante comum nos anos 80 era o uso de shorts bem curtos, outra característica que se sobressai na série – até porque alguns personagens acabam chamando atenção.

E, por último, vale muito apena comentar sobre o figurino de Jim Hopper, que não só destaca o período oitentista da obra audiovisual, como também faz referência a um seriado bastante famoso da década: Magnum. A camisa colorida que Jim usa durante grande parte da temporada lembra bastante aos figurinos da série em questão, nos mostrando mais uma vez que a direção de arte de Stranger Things teve um grande trabalho no desenvolvimento de um figurino que, ao mesmo tempo em que se relacionasse com a persona de cada um dos nossos heróis, também contextualizasse a série em sua localização temporal proposta.
> LA CASA DE PAPEL 3 – Menos Novela e Mais Ação!

Seja por meio de referências, caracterizações ou pela cenografia, a história de um menino de 12 anos que desapareceu de uma pequena cidade de Indiana se propõe a colocar os espectadores dentro de um mundo oitentista por meio de um aspecto visual belo, encantador e florescente. Portanto, vemos que por melhor que seja o roteiro, a fotografia, a trilha sonora ou as atuações da série, a direção de arte também é um dos principais fatores que dão forma à Stranger Things. Por meio de tamanha abordagem de uma série que se tornou tão popular, os anos 80 acabaram ganhando, nos últimos três anos, mais charme e glamour do que já tinham – se é que isso é possível.














