O quebra-cabeças de Stranger Things começa a tomar forma com The Pollywog.
Assim como Eleven, durante mais um de seus flashbacks, estamos montando um grande quebra-cabeças com Stranger Things, que até agora mostrou pouco de sua segunda temporada. Mostrar pouco, contudo, não é um problema e o avanço gradual da trama recorrente da série está se mostrando cada vez mais satisfatório. Claro que para alguém que demanda repostas rápidas e espera que uma produção de apenas 9 capítulos não enrole muito, a trinca de episódios pode parecer um pouco cheia de enrolação, mas para uma história que está mostrando um pequeno prólogo e deverá, a partir do próximo episódio, avançar em sua história, a sensação é sim gratificante.
A começar pela relação entre Hopp e Eleven, também característica em termos de uma narrativa linear e clichê, especialmente quando consideramos que a filha de Hopp, Sara, morreu há um tempo. Seu relacionamento com a garota é muito particular e consigo sentir o afeto que ele tem por ela, que seria rapidamente levada embora pelos cientistas se estes descobrirem seu paradeiro. A pequena caixa florida marcada com o nome de Sara na cabana também expressa o sentimentalismo daquele pai que encontrou em El um reflexo de sua perda. Este é um relacionamento que estou ansioso para desvendar, especialmente porque considerei Hopp como um homem perigoso durante a primeira temporada. Agora já não o vejo assim e esses traços de história adicionados através dos flashbacks estão sendo demasiadamente úteis para esta nova visão do detetive carrancudo.
Contudo já é possível ver pequenos rompimentos na estrutura do relacionamento dos dois. Primeiro porque Hopp não entende o que é criar uma criança, especialmente uma menina especial como El. Seu desejo de protege-la entra em conflito com o desejo dela de voltar a ver os amigos e de ter uma vida normal. Também é perigoso porque existe uma quebra de regras que ambos participam. Hopp mente para El, mas não a respeito do “em breve” e sim sobre sua mãe, que não morreu e está em estado catatônico. Eleven quebra a promessa de respeitar as três regras e sai de casa. Este é, porém, um típico relacionamento de pai e filha, especialmente quando temos Hopper lendo Anne of Green Gables para a garota, antes de dormir.
Outro ponto que está sendo bem trabalhado, apesar de continuar na faixa do mistério, é a utilização do novo monstro e a inclusão do mundo invertido, assim como a equipe cientifica que está trabalhando no mesmo laboratório dos russos. A nova equipe releva o acordo que foi feito entre eles e o detetive, além de oferecer uma compreensão maior a respeito das plantações “envenenadas”. É, novamente, um reflexo da imprudência do governo com o experimental e o sobrenatural, um fator que já movimentou diversos filmes clássicos, Mortos Vivos como o melhor exemplo.

Claramente a pequena criatura que dá o título do episódio é mais uma referência dos irmãos Duffer a um filme clássico dos anos 80, neste caso Gremlins – ou seria Alien? A criatura aparentemente dócil tem aversão a luz clara, uma das regras de como cuidar do seu Gremlin, que também incluem não dar ao bichinho nenhuma água e também não alimentá-lo depois do anoitecer. Claro que toda criação de Stranger Things pode agir como uma cortina de fumaça. A criatura expelida por Will no final da primeira temporada pode ainda estar por aí, em Hawkins, apenas esperando uma oportunidade para aparecer e este Pollywog pode muito bem ter saído de um daqueles ovos da season finale. Só descobriremos com o tempo, mas é bom ficar atento.
Também tivemos um pequeno lembrete a respeito da festa de Halloween e do triangulo vivido por Nancy, Jonathan e Steve. O plano de Nancy de entregar para a família de Barb um conforto, ou algo do tipo, é estúpido, mas ela é uma jovem inteligente e quero ver o que acontecerá neste núcleo, além da tradicional tensão sexual. Só espero que estes personagens estejam levando a sério a regra dos filmes de terror, em que fazer sexo nunca é um bom sinal para jovens desavisados. Outro ponto que está começando a tomar forma, apesar de não ter nenhum sentido e tão pouco se conectar com a trama da série, é a presença instável de Billy, o garoto que quer desafiar o mais popular da escola, Steve. Não vejo nada interessante saindo daí, além da maneira que o rebelde Billy trata Max, mas vale ficar de olho. Stranger Things gosta de usar personagens menores para impulsionar seus protagonistas, enquanto deixa as interações entre os principais como suporte, basicamente.
E por falar em Max, a adição da garota no time está servindo para dois propósitos, até agora. Ela age como a forasteira e força o telespectador a relembrar alguns fatos, mas também funciona como ponto de tensão, forçando Eleven para longe de Mike. Até o momento ela serve como um motivador de alivio cômico de Dustin e Lucas, sem oferecer algo além. Sua introdução como Mad Max agiu como uma grande promessa que não está sendo cumprida, até agora. Claro que tudo pode mudar e quero que ela faça parte do time, algo que ofereceria uma dinâmica interessante entre duas meninas, mas também é essencial que a presença de Max não termine exatamente aí, como mero combustível para a tensão interna.
The Pollywog não é tão grandioso quanto deveria, mas como citei lá em cima, funciona como o fim de um prólogo em três partes. Com o final do episódio mostrando Will sendo tomado pelo monstro de fumaça, além da presença da misteriosa criatura, o rumo incerto deixa de ser tão misterioso e começa a tomar formas mais compreensíveis. Stranger Things continua mostrando todo o seu poder e emula com cada vez mais força a nostalgia, sem deixar de lado o inédito. Claro que ainda temos alguns personagens sem tanto propósito, como Bob, mas sua presença é facilmente justificável quando ele serve para movimentar outros personagens, como Joyce, a instigando a “socar” e mudar seu tom, que fluiu da mãe perdida na primeira temporada para a detetive da segundo, além de Will, que decidiu confrontar seu medo por causa do conselho dado por Bob e terminou envolto em uma névoa pouco convidativa.
Pitacos aleatórios do mundo invertido em The Pollywog:
– Quando Dustin está colocando o Pollywog dentro do aquário de Yertle, é possível ver um boneco do E.T. ao fundo.
– Acima do boneco temos um certificado de Proficiência Anti-Paranormal dos Caça Fantasma, que era o brinde recebido quando se fazia a inscrição no fã clube oficial do filme.
– Yertle é uma referência a Yertle the turtle, personagem de Dr. Seuss.
> THE WALKING DEAD 8ª temporada!
– D’Artagnan, nome dado por Durstin ao Pollywog, é o nome do doce favorito do personagem e também de um dos três mosqueteiros.
– Dart também pode ser uma referência ao xenomorfo de Alien. Afinal, ele saiu de dentro do Will. Será que saiu?
– Poliwag também o nome de um Pokémon, mas aí já é coisa dos anos 90.
– A história do Bob a respeito do palhaço que o aterrorizava é uma clara referência a IT, livro de Stephen King que recebeu sua segunda versão em filme em 2017.















