O sentimento clássico de Star Wars não é só estimado por Rebels. Ele é reverenciado. A animação abraça a herança deixada pelos três longas originais sem vergonha alguma. É espirituosa, de coração leve e aventuresca (como eu amo tripla adjetivação!). Uma fábula adorável.

A série conta a jornada de um grupo de rebeldes que abriga um jovem delinquente chamado Ezra Bridger. Logo após conhece-los, Ezra demonstra ser um possível usuário da Força e deve ser treinado por Kanan, o líder do bando

A galeria de personagens, se diagnosticada dentro da cultura fantasiosa da saga, é ótima. Seria errado exigir que a turma de Ezra fosse composta por heróis trágicos gregos e figuras saídas de um romance de Dostoiévski, porque Star Wars não é sobre isso. O que temos são rebeldes divertidos e clichês. Em outro lugar, o segundo poderia soar como um insulto, mas não aqui. Ezra, Kanan, Hera, Sabine, Zeb e Chopper são arquétipos tradicionais de RPG. Construídos até o ponto ideal, porém sem abandonar ou se esquecer do seu objetivo.

E esse caráter singelo e desambicioso é o que mais adoro nos filmes com Luke Skywalker. Uma space opera sobre um herói bondoso, uma princesa autoritária e um fora-da-lei sarcástico contra um império do mal. Fim. Maravilhosamente honesto.

Não nego a existência de problemas, é claro. Muito pelo contrário. Uma enorme quantidade de problemas surgem do próprio desenvolvimento de Ezra. Para começar, o pirralho é um Aladdin de cabelo azul, tanto no conceito quanto na aparência. É compreensível a decisão de optar por um protagonista jovem. De verdade. O personagem acaba sendo um avatar para todas as crianças que estão descobrindo a Galáxia e só imagino o quanto isso deve deixar a experiência mais catártica para elas. Então, o meu problema com Ezra não é esse. Tampouco a sua personalidade, que foi um grande alvo de críticas. A questão é muito mais modesta: ele é simplesmente um peso para a trama.

Se não fosse por Ezra poderíamos ter mais Kanan, por exemplo. Nós já vimos as coisas a partir da perspectiva de um padawan antes. Então, é natural que me interesse mais conhecer um padawan que nunca chegou a completar o seu treinamento e tem de se tornar um jedi por conta própria. E eu sei que sem Ezra seria um pouco mais complicado de se tocar no lado ‘mestre’ de Kanan, mas não muda em nada o quanto Ezra parece uma pedra no caminho.

Apesar de detestar Ezra, eu não tenho nada contra o tom ‘bobinho’ da série. Não dá para ser como The Clone Wars, porque ao contrário dela, Rebels não tem a mínima intenção de deixar de ser um desenho infantil. E nem deveria! Pessoalmente, sinto repulsa por essa nova tendência de tornar tudo sombrio e realista (leia-se melancólico). É bem egoísta. Eu não gostaria de ver True Detective se transformando numa história para crianças dos 5 aos 8 anos, então não tentem fazer de Rebels um Star Trek em animação. Já vamos ter os novos filmes para isso, deixem Rebels ser Rebels.

O design é impecável. O próprio visual de Zeb foi tirado da concept art original de Ralph McQuarrie para o Chewbacca. A arquitetura futurista é tosca, as naves têm acabamento rudimentar e sem qualquer sentido aerodinâmico e existe uma camada de imundície e corrosão que parece cobrir a própria tela onde você assiste a série. Se você assistir num computador de última geração vai sentir que ele é uma velharia obsoleta. É tudo estupendamente disfuncional e inútil. Mas se você é daqueles que se queixam do sabre com guardas de O Despertar da Força pelo ‘perigo que representa para o portador’, você entendeu Star Wars errado e Rebels não é para você.

O triste é que a animação é fraca. De medíocre para ruim mesmo. Se for para colocar na balança com a de The Clone Wars, chega a ser lamentável. Poucos elementos passam a noção de peso e impacto e alguns movimentos dos personagens são mais plásticos do que os dos meus bonequinhos de Star Wars.

Mas os duelos de sabres de luz são bonitos. Quer dizer, se você gosta do novo estilo de combate. Sou dos puristas chatos que ainda preferem a doutrina jedi filosófica e as batalhas lentas à lá Kurosawa (os jedi são samurais, afinal). Mais HEMA e kenjutsu e menos Cirque du Soleil faz de mim um fã muito feliz. Só que seria um pouco estúpido da minha parte dizer que os confrontos de Rebels são feios, então está aí um parágrafo só sobre eles.

As participações especiais despertam sorrisos. A do Lando e do Tarkin são as mais bacanas. Cá entre nós, eu preferia continuar vendo o velho Tarkin e não ter o Darth Vader na próxima temporada. Sim, Vader é o vilão absoluto de Star Wars, mas é um personagem tão… saturado. Que aproveitem mais o Tarkin ou voltem logo com o Inquisidor, que é (ou era) igualmente fantástico. Só torço para que não deem mais atenção aos personagens consagrados do que aos novos. Se eu quiser ver a Ahsoka, assisto The Clone Wars.

Também é compreensível que o formato procedural tenha sido escolhido, mas dá para engatilhar uma linha nuclear mais definida para unir as histórinhas soltas. Rebeldes roubando cargas, rebeldes sacaneando os sistemas do Império, rebeldes fazendo isso, rebeldes fazendo aquilo… é muito cansativo e chato. Faz os episódios terem consistência de gelatina. A segunda temporada aparentemente terá um plot mais calculista e concentrado na fundação da Aliança, então vamos esperar para ver o potencial completo disso tudo.

Como está agora, Rebels é apenas divertida, não indispensável. Vindo de uma pessoa com paixão patológica por Star Wars isso é péssimo. Eu deveria me sentir obrigado a acompanhar as aventuras do grupo de Kanan, mas não me sinto.

E isso me perturba profundamente, porque Rebels deveria ser um prato impossível de dar errado. A receita está sendo fielmente seguida, os ingredientes são da mais alta qualidade e o cozinheiro sabe o que está fazendo. Só falta uma pitada de foco para dar o sabor perfeito.

Artigo anteriorRevelado o ator mirim que vai estrelar a adaptação do filme O Pestinha
Próximo artigoBlack Sails 2×06: XIV