Num espetáculo, mesmo o menor papel, tem seu valor.

 Spoilers Abaixo:

No meu tempo de estudante de teatro, houve um brilhante diretor com quem trabalhei, que me ensinou o valor de se estar no palco. Para o diretor Mario de Oliveira, pisar no palco era coisa para os mais corajosos, dispostos a tudo, e que precisavam honrar essa oportunidade mesmo que fosse para entrar e dizer apenas: O café está servido. O palco era o campo de batalha, e o espetáculo era a guerra, onde sempre precisaria haver o antagonismo, a busca pela vitória e o resultado final. Todos os papéis estabelecidos e defensáveis. O que sobra são as impressões do espectador… O maior despojo de uma guerra, é o legado que ela deixa.

Correndo por uma temporada exímia, Spartacus começa o episódio seis com um clímax. Isso é para poucos, senhores. O espetáculo da semana começa como uma boa cruzada mítica: a tomada de um território. Aqui estão os reis Crassus e Spartacus, alternando suas estratégias de luta. No meio disso tudo? Soldados romanos apavorados com o fantasma da dizimação, e escravos rebeldes tateando no escuro. Como sempre, um espetáculo tem muitos coadjuvantes, mas quem determina o curso da história são os protagonistas.

Nenhuma grande morte na retomada da cidade, e respiramos aliviados mesmo sabendo que isso é só um adiamento. O coração aperta a cada espada levantada. Porém, os verdadeiros épicos sabem trabalhar com lentidão suas tensões. Os rebeldes (na posição de mocinhos da semana) correm apavorados, são cercados, e Spartacus usa a mesma estratégia de Caesar com o fogo, para fazer o inverso: impedir a abertura dos portões. Grandes épicos também exigem sacrifícios, e Gannicus se adianta se oferecendo a ele. Todos os elementos fervendo na nossa frente: os reis, os conselheiros, o vilão disfarçado, o momento frente a frente… E tudo ao som de cantos gregorianos dramatizados, como se cada sequência fosse ser a última. Assistir essa série é mais do que muita gente pode imaginar.

Começar com um clímax tem suas desvantagens, e o episódio se ameniza quando a fuga de Sinuessa se completa. Daí, acontece aquilo que acontece com todas as boas histórias que se prezem: sempre há um herói involuntário. E o nome do nosso é Gannicus. Mal posso expressar como gosto desse personagem, e faz muito tempo que ele vinha precisando de um canhão de luz virado só pra si. Demorou até que eu compreendesse que deixá-lo pra trás não era uma tentativa de nos preparar para seu fim, e sim uma maneira de rir na nossa cara, dizendo: Temos grandes personagens e muita criatividade aqui, não nos subestimem crianças.

Já preciso adiantar que não gosto de Sybil. E não gosto principalmente porque ela é uma manifestação de preconceito do roteiro, que acha que a loiraça guerreira e bem resolvida sexualmente, não pode ser objeto de expectativas românticas. Me aborreço em ver Gannicus favorecer um chavão machista ao só se apaixonar pela donzela ingênua, por mais realista que isso seja. Julgamentos como esse também fazem parte do espetáculo… De fato, são os artifícios mais velhos da história da dramaturgia, mas me recuso a ser passivo a eles.

Laeta também está de volta ao show… E veio triunfante, se repaginando toda. Junto com ela, Heracleo também ressurge, fugido da morte no confronto da semana passada. Ninguém esperava é que os destinos dos dois fosse acabar se esbarrando por conta do constante flerte com o a crueldade que forma o caráter de Crassus. Outra reviravolta fantástica: Laeta vendida como uma escrava, sem ser uma. E o recado do episódio saltando aos olhos: alguns papéis atribuídos a cada um no espetáculo, são inevitáveis. Laeta ouve de Caesar que não existe certo e errado, só funções pré-estabelecidas, e depois ouve de Heracleo que como mulher, ela não é muito melhor que um escravo. A grande constatação: certas batalhas merecem ser travadas, Laeta percebe enfim.

 

A fuga de Gannicus da cidade foi muito boa. E também foi emblemática pra outro personagem: Caesar, que foi privado de uma vitória três vezes. A primeira quando Crassus deixou o bando fugir, depois quando o rebelde suicidou-se antes de ser morto, e enfim, quando Gannicus, sozinho, conseguiu atravessar os portões de Sinuessa, triunfante.

 

Acho que apenas Tiberius ainda precisa encontrar o tom dessa participação nessa peça. O menino às vezes parece uma vilãzinha medíocre, por mais que as artimanhas romanas, na época, fossem sempre medíocres. Os sentimentos e reações do filho de Crassus são previsíveis, assim como é previsível a negação do pai perante tudo que fez o filho passar: Tiberius se vingaria. Qualquer um que o conhecesse por cinco minutos, saberia disso. Perdoamos por conta do laço de sangue, que costuma mesmo cobrir com névoa os olhos. O antagonismo do rapaz com Caesar não vai resultar em nada bom pra ele. Só esperar.

 

Na review da semana passada alguns ótimos comentários falaram sobre o destino histórico do personagem principal. Leitores como Mario Matto abriram uma discussão interessante sobre a incerteza do que aconteceu com Spartacus. Realmente a história não é clara sobre o que aconteceu com ele, e há a possibilidade de que ele tenha desaparecido antes de ser capturado. Pessoalmente, não gosto dessa solução. E acho que o próprio Spartacus não lidaria bem com um legado de fuga, deixando que todos os seus seguidores fossem crucificados de cabeça pra baixo sem que ele os acompanhasse. Esse pessoal valoriza demais a honra. Fugir não é uma opção. Além disso, não acredito que os roteiristas fossem se deixar levar pelo amor ao personagem, negando-lhe um final trágico. Exatamente para não haver a impressão de que um lado desse espetáculo venceria, os episódios tem se focado em não estabelecer certo e errado, e sim um emaranhado de equívocos e fundamentalismos estúpidos.

 

A quatro episódios do fim, chegamos perto do fim da linha, onde historicamente, os eventos se confundem um pouco. A trincheira e o muro que aparecem no final do episódio são sim atribuídos à Crassus, mas enquanto alguns relatos afirmam que o deboche de Spartacus ao vê-los resultou em sua derrota, outros afirmam que essa foi a última batalha que ele ganhou antes do momento definitivo. Vale lembrar que a série tem se focado muito nos relatos de Plutarco, e que, segundo ele, Spartacus não queria mais lutar contra a escravidão, e sim dar à seus seguidores um destino de liberdade quando chegassem à Gália. Estou mais inclinado a entender o personagem dessa forma, e receio que a constante falta de disciplina de seus guerreiros, é o que também impedirá esse feito.

 

Enfim, a série tem sido uma experiência fantástica, e que nos oferece o melhor da ação e o melhor da filosofia dramaturgica. Impossível não sofrer pelos próximos episódios. Precisamos ter em mente que a morte seria a maior honra do trácio, mas que com roteiristas tão fantásticos, isso será feito de uma maneira especial, perturbadoramente poética, e justa. Mas não esperemos fantasias de sobrevivência. 6000 rebeldes foram sacrificados por toda Via Ápia após a batalha final… Eu não gostaria de ver Spartacus dando as costas à isso.

 

A Roma da Liberdade: A pergunta é: todas as mulheres daquele tempo eram bissexuais? Que eram muito peludas a gente já sabe.

 

A Roma dos Refugiados: Agron merece um final honrado. Um grande personagem da série, e cada vez mais competente em demonstrar os sentimentos conflitantes de seu relacionamento com Nassir. Gosto muito que o mais honrado dos seguidores de Spartacus seja ele. A homossexualidade não tem que ser parâmetro de caráter, mas o efeito social que um personagem assim provoca, é muitíssimo bem vindo. Salve Agron.

 

A Roma dos Escrotos: Naevia está tão maléfica que já foi achando que Laeta era prisioneira… E por Deus, o que eram aquelas execuções dos rebeldes que não escaparam ao ataque romano? De dar um frio na espinha.

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