Como não morrer de saudades?

Spoilers Abaixo:

Todos sabemos que o ano de 2013 não foi lá muito feliz para Smash, desde a estreia mais inesperadamente flopada da midseason até a mudança do dia de exibição para os sábados, quando até mesmo os fãs da série estão fora de casa (afinal, eles gostam de teatro). O cancelamento era certo e, apesar de ter demorado, veio.

 Mas duvido que vocês, assim como eu, não tenham conseguido esquecer todos os pesares quando assistiram a esse belíssimo series finale, que deixou a série toda redondinha e acabou se revelando um fechamento muito digno. Tivemos direito até a uso do “mundo dos sonhos” para nos dar de presente uma ótima performance com pequenos solos de todo o elenco (incluindo Jack Davenport e a ilustríssima Anjelica Huston) da excelente “Under Pressure”, do Queen. Apesar de ter me deliciado com tudo aquilo, foi o momento em que realmente fiquei com o coração apertado pelo clima de “é, tá acabando”.

Mas comecemos pelo começo, com The Nominations, a primeira hora de exibição. Fiquei meio confuso com todos aqueles prêmios já tendo sido entregues de uma hora para a outra – sendo pouquíssimos deles para Bombshell e nenhum para a pobre Ivy. Depois me situei melhor e entendi que estávamos falando sobre os Outer Critics Circle Awards, uma espécie de termômetro para o Tony. Torci, claro, para que o termômetro estivesse quebrado no universo da série, já que os únicos prêmios de Bombshell foram para Julia (roteiro) e Tom (direção), este último, ainda por cima, empatado com Derek. Ainda assim, cada discurso foi um ótimo momento. Mas o melhor momento veio mesmo foi depois.

 A principal função de The Nominations foi estabelecer o clima de rivalidade entre os integrantes das duas peças, que me lembra muito a relação entre nós, fãs de Smash, cada um torcendo por uma atriz ou por um espetáculo. Smash mostrou que o descontrole pode tornar esse tipo de sentimento tóxico, e, claro, usou pra isso o personagem mais insuportável que a série já viu: Jimmy. O cara teve a capacidade de soltar os cachorros em Julia, apenas a pessoa que tornou Hit List possível na Broadway após a morte de Kyle – porque ingratidão pouca é bobagem, né, minha gente? Ivy acabou entrando no fogo cruzado e falando mais do que devia (observação: a bicha má dizendo que Ivy “fez o Cisne Negro” em Boston foi simplesmente genial!). Cruel? Certamente. Mas o que ela disse não deixa de ser verdade e, diante da maneira ridícula como Jimmy – intencionalmente ou não – fez questão de desvalorizar o papel de Marilyn, fica difícil culpá-la por sentir raiva, ainda mais com todo o telefone sem fio pelo qual a informação passou até chegar à atriz.

 A epifania de Jimmy enquanto assistia ao próprio espetáculo, a meu ver, foi tardia e insignificante perto de todo o desconforto que ele já causou, mas não tem problema. Ao menos serviu para estabelecer um clima de paz antes da batalha final que eram os Tonys. Adorei o pessoal vendo as indicações, e vou confessar que caí na pegadinha: fiquei com o coração apertado, partido mesmo, por não ver Ivy Lynn sendo indicada. Foram alguns segundos da mais pura tristeza. Imaginem o meu alívio (e vontade de xingar os roteiristas, claro), quando a verdade foi revelada. No fim, acabei adorando a ideia, e achando todo o episódio bem divertido!

Também com o intuito de divertir, mas nem tão bem-sucedida, foi a pequena trama do flerte de Tom com Patrick – participação especialíssima de Luke MacFarlane, outro nome que começou na Broadway e é mais conhecido por ter dado vida a Scotty, o personagem mais adorável de Brothers & Sisters. Vou dizer que fiquei chocado com o novo visual do ator, que parece ter passado os últimos anos malhando como se não houvesse amanhã!

 Eu realmente me incomodo com essa insistência da série em mostrar pessoas mexendo no celular durante um espetáculo, principalmente se essa pessoa é alguém com tanta experiência na Broadway como Tom, alguém que deveria dar o exemplo para o público leigo. A cena com o vinho também foi bastante previsível e quase um pastelão desnecessário. E já estava bastante claro que Tom não só conquistaria o voto de Patrick (em um discurso que realmente foi de tirar o chapéu!), como também daria uns pegas no cara. Na contramão de todo o resto desse arco, a cena final acabou sendo uma das mais interessantes do series finale por ter feito mão de um recurso que adoro: a quebra da chamada “quarta parede”.

 A quarta parede, conhecido conceito da dramaturgia, é uma metáfora que corresponde à separação entre a fantasia imposta pelo roteiro e a nossa realidade. A quarta parede nos impede de estar inseridos no mesmo mundo que os personagens que admiramos, é o que não nos deixa esquecer de que não estamos lá dentro, somos apenas observadores. Smash, como toda série que já assisti, nunca havia de fato quebrado essa quarta parede (embora já tenha ameaçado algumas vezes com o ótimo clima de inserção em espetáculos de teatro que criava com certa frequência), e foi muito divertido ver isso acontecendo durante a cena do beijo entre Tom e Patrick, em que o diretor-compositor olha para a câmera e gesticula, como quem se comunica conosco sobre a estranheza da situação. Recurso divertido e extremamente oportuno.

 A parte séria da trama fica por conta de Derek e a chantagem que sofreu. Incentivado por Ivy (sem nos avisar, o roteiro decidiu que Derek trocou de musa inspiradora, mas tudo bem), o diretor acaba confessando todo o esquema por meio da imprensa, e torna-se odiadíssimo na classe teatral. Foi um desfecho esperado, mas nem por isso deixou de ser satisfatório. Sem dúvida, desbancar a caricata Daisy em plena cerimônia do Tony foi interessante, mas Ana merecia um pouco mais de brilho nesse finale. Acho que essa seria minha maior reclamação.

 Já que começamos a falar de Tonys, vamos a eles? Todo o último episódio girou em torno da premiação, o momento que todos esperávamos! Quem venceria o embate? Karen ou Ivy? Bombshell ou Hit List? Cheguei a tentar prever esses resultados há algumas semanas, e devo dizer que comecei até bem, mas depois foi piorando.

 Kyle realmente levou um prêmio póstumo pelo roteiro (o que chega a ser irônico, visto que em meados da temporada havia ficado claro que o texto era péssimo, e no fundo foi a ajuda de Julia que garantiu esse prêmio a Hit List). Debra Messing foi a responsável por transformar a cena em um dos grandes destaques do último episódio. Ri de verdade pela interpretação da atriz do momento em que ela descobre que não era tão altruísta quanto parecia e havia ficado mordida por ter perdido de Kyle, no fim das contas. O discurso em nome do parceiro garantiu a Jimmy seus 15 minutos sob os holofotes, com direito até a referência ao season finale da temporada passada. Por pouco Jimmy não transforma tudo em um tributo a Karen em vez de Jimmy, mas, para a minha tranquilidade, foi só uma ameaça.

 A indicação do rapaz propriamente dita viria em outra categoria, a das composições, que ele perdeu para a maravilhosa dupla Tom & Julia. Mais do que justo, já que eles são quem acompanhamos desde o início da série, foi a partir de uma ideia desses dois que tudo o que assistimos começou. E, sejamos francos, as músicas de Bombshell são um arraso, muito melhores que as de Hit List, apesar de o repertório da segunda também ter seus pontos fortes. O prêmio catapultou a dupla para o cinema, graças ao convite de Patrick, deixando claro, para a nossa felicidade, que o fim de Houston-Levitt ainda está bem longe de chegar.

 A revolta tomou conta da minha pessoa quando vi Ivy e Leigh perdendo para a pessoa mais antiprofissional de toda a série, nossa querida ruiva Daisy. Esse Tony era da Ana, sua vadia!!! E Derek ganhar o prêmio de coreografia por Hit List? Por favor, Bombshell era infinitamente melhor nessa categoria, não havia dúvida! Também me causou estranhamento a ausência completa da entrega do prêmio pela categoria de melhor direção no episódio, o que me fez concluir que nem Tom, nem Derek venceram.

 Mas vamos ao que interessa, que é o prêmio de melhor atriz??? Então vamos!!!

 And the winner is… [haja unha para tanta tensão!!!]

 IVY LYNN!!!!

 Muita emoção ver Ivy sendo anunciada depois de tudo por que passamos!!! Fiquei extremamente emocionado ao vê-la recebendo o tão merecido reconhecimento. Aquilo não foi só um prêmio para Ivy, foi um prêmio para tudo o que Megan Hilty entregou à série. A atriz foi realmente a grande revelação de Smash, e o grande símbolo de tudo o que o show representa: o amor pelo teatro. E, assim, pensando nisso tudo, me peguei em meio a discretas lágrimas e exclamações de alegria pelo tão aguardado momento, e fui obrigado a me levantar aplaudir de pé enquanto a atriz subia ao palco para receber seu prêmio. Um prêmio praticamente metalinguístico, a meu ver, regado com o discurso mais belo de todo o finale, um discurso que saiu da ficção e falou a nós, fãs, que seguimos com Smash até o fim. E valeu muito a pena!

 É claro que os fãs de Karen Cartwright não foram esquecidos, e tivemos uma bela cena de Eileen mostrando que aquilo não era nenhuma derrota, era apenas mais um passo para a vitória, que viria no devido tempo. Justíssimo.

 E tudo valeu a pena não só por Ivy, mas também por Eileen e sua Bombshell, lindamente premiadas na categoria de melhor musical. Eu não poderia desejar um final diferente deste, com todos os integrantes do elenco segurando seus merecidos Tonys lá em cima, numa belíssima visão! Conclusão: o Outer Critics Circle Awards parece ser o pior termômetro do mundo, já que os Tonys foram distribuídos quase de maneira inversa!

 Tivemos um pequeno trecho novelesco no final, mostrando que todas as mulheres arranjaram um homem para chamarem de seus (com direito até a Michael Swift sendo desenterrado, sem falas, na última cena de Julia). Nem vou entrar no mérito de toda a história da cadeia de Jimmy, porque aquilo tudo foi tão inverossímil que não merece espaço aqui.

 Até porque os problemas ficam pequenos quando chegamos ao final do nosso show, com um último dueto das maravilhosas Katharine McPhee e Megan Hilty – aparentemente Josh Safran também sabe que os melhores números musicais da série foram aqueles em que essas duas magníficas performers dividiram o palco. A escolhida foi a originalíssima “Big Finish”, que não poderia ser mais apropriada. A cena das duas estrelas se despedindo de nós, público, também foi emblemática e a melhor maneira possível de um show como Smash nos dizer adeus.

 Apesar de Smash ter se despedido da TV como um dos maiores – se não o maior – fracasso da midseason, não tenho vergonha alguma de dizer que adorei esta segunda temporada, e que ninguém perdeu mais do que as pessoas que abandonaram a série antes de seu fim. Vou morrer de saudades do talento gigantesco de Debra Messing e da química entre ela e Christian Borle, outro que fará falta. Vou morrer de saudades de ver nomes da Broadway sendo aproveitados em uma série de televisão. E nem preciso falar sobre a falta que vou sentir da diva Anjelica Houston e seus Manhattans, e do talento enorme como cantora de Katharine McPhee – por Deus, até da cara de margarina light de McPhee eu vou sentir falta! Mas é Megan Hilty quem será um desfalque imensurável para a TV. Fico triste de verdade por me despedir dela, e sem muita expectativa de que a atriz voltará a encontrar um papel à altura – ao menos não fora da Broadway, à qual ela pertence e para onde certamente deve voltar.

 Entre o sem-número de séries médicas, jurídicas, investigativas e sitcoms, um musical sobre a Broadway foi uma verdadeira brisa de ar fresco no mundo dos série maníacos. Não podemos negar, Smash surgiu como uma alternativa a Glee (enfrentando uma rivalidade completamente desnecessária) e jamais teria sido transformada em realidade se não fosse sua precursora. Mas nós, fãs, sabemos que não é a mesma coisa, e que havia, sim, espaço para ambos os projetos no mercado. Viver a realidade do teatro, especialmente dos musicais que vários de nós já amamos, foi uma experiência única para a TV americana. Experiência que, diante do alto custo e do fracasso de audiência, provavelmente jamais será repetida.

 Mas nada disso importa. O que importa é que valeu a pena, e que saio de Smash com uma visão extremamente mais rica dos espetáculos que eu tanto admirava e que jamais olharei novamente da mesma maneira simplista como olhava antes. Obrigado a todos os que sobreviveram a tantos obstáculos e acompanharam esta cobertura da segunda temporada. Vocês fizeram com que, mesmo com a consciência do fim, eu fosse capaz de manter minha alegria durante uma cobertura que não foi nada além de prazerosa e cheia de satisfação. Para encerrar, fiquem com o maravilhoso discurso de Ivy Lynn, e continuemos abraçando o inusitado e embarcando em novos projetos na TV, que tanto amamos, mas lembremo-nos: não há nesta vida experiência cultural como um espetáculo ao vivo. Até a próxima!

 “I would like to thank my mother, the magnificent Leigh Conroy, for giving me the greatest gift, and that is a life in the theater. I can only hope that one day, I can give that gift to my children. There is nothing more magical than that moment right as the lights go down and the crowd is waiting in silence with anticipation for the show to begin. It’s a moment full of hopes and full of possibilities. So I’d like to thank the audience for coming, and for believing, as I do, that there is nothing more important or special as live theater. Thank you so much!”

 Ivy Lynn, vencedora do Tony de melhor atriz por Bombshell.

 

Músicas do episódio:

 – Feelin’ Alright (Traffic), por Megan Hilty;

If You Want Me (do musical Once), por Krysta Rodriguez;

Rewrite This Story (original), por Katharine McPhee;

Under Pressure (Queen), por todo o elenco de Smash;

Broadway, Here I Come! (original), por todo o elenco de Hit List;

Big Finish (original), por Katharine McPhee e Megan Hilty.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.