Lendo um texto da Lígia Krás na internet outro dia, vi que ela listava dez curiosidades sobre a Noruega, detalhava as peculiaridades do país e exaltava a soberania de lá. Claro que a Noruega tem as suas problemáticas, como qualquer outro país, mas o que a distingue de muitos outros países é a forma como a lei é cumprida e respeitada pelo seu povo. Listo abaixo e contextualizo com Skam três desses dez motivos coletados pela Lígia para que vocês possam entender o funcionamento da Noruega, onde se passa a série Skam:
O primeiro dos três motivos em destaque é que a Noruega tem os mais altos impostos do mundo, porém, com o melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo. Paga-se muito caro para se viver na Noruega. A bebida é cara demais; o cigarro é absurdamente caro; o passe de transporte para uma semana que permite usar o bonde azul, o ônibus ou metrô em Oslo custa uma pequena fortuna; a alimentação e o aluguel são extremamente caros, mas tudo funciona muito bem por conta dessa arrecadação de impostos. Em dezembro, o cidadão em dia com a sua contribuição não paga impostos na Noruega, essa é uma forma de compensação pela sua pontualidade. Repare que quase não se vê os personagens de Skam andando de carro, ao contrário, eles usam as bicicletas e o transporte público ou caminham a pé, uma realidade comum em um país onde o transporte público tem qualidade, é limpo e funciona de verdade. Contudo, aqueles que possuem um automóvel, tipo o Willian, procuram respeitar as leis de trânsito, respeitar o pedestre e manter em bom estado de conservação o veículo, já que as multas são pesadas e as sanções são rígidas.
O segundo motivo em destaque é que a Noruega é o melhor lugar do mundo para ser mãe, já que possui a menor taxa de mortalidade materna e infantil no mundo. E o cidadão norueguês tem do nascimento ao fim de sua vida tudo bancado pelo governo, a licença maternidade é de nove meses e a lei obriga que o pai também tire cerca de três meses para ficar com o bebê. Isso só é possível por conta da efetividade do pagamento dos impostos. Vemos em Skam jovens de variadas camadas sociais usufruindo de uma mesma escola. Isso acontece porque existe na Noruega uma escola pública de qualidade para todos (nativos e imigrantes) e há um investimento altíssimo em educação desde o nascimento da criança até a sua idade adulta. Vemos em Skam os personagens falando fluentemente outro idioma, a Sana e a Chris fazem alemão juntas e a Eva e a Noora fazem espanhol na mesma classe – fato comum entre os estudantes noruegueses do colegial que são estimulados ao aprendizado de outros idiomas -, apresentando uma vida escolar bastante movimentada e envolvidos em ações culturais corriqueiras no país. A série foi bastante fiel ao retratar o jovem norueguês, seus dramas e a sua rotina, faço essa observação por experiência própria.
Skam – 1ª temporada/Squad das garotas.

O terceiro motivo é que a Noruega é uma das sociedades mais avançadas em igualdade de gênero no mundo. Além do governo reconhecer a união entre pessoas do mesmo sexo, há na Noruega uma convenção onde se crê que os direitos são iguais entre homens e mulheres. Os homens na Noruega não se sentem na obrigação de ser cavalheiros ou gentis e ficar pagando drinques e jantares. Cada um paga o seu, já que dentro da sociedade norueguesa os salários são iguais para homens e mulheres. Observamos em Skam que sempre quando há uma festa os personagens levam suas sacolas com bebidas para serem consumidas por lá. Essa prática é muito comum na Noruega, cada pessoa que vai para uma festa leva a sua cota de bebidas, isso seria um absurdo no Brasil! A gente ama uma boca livre e um open bar!
Afinal, o que é o ônibus de Skam?
Realmente estamos falando de um ônibus. Existe na Noruega uma tradição louca durante o ensino médio, onde os jovens formam seus bondes/grupos e assim que entram nessa fase escolar, eles têm o intuito de transformar esse período tão conturbado em uma experiência salutar e, consequentemente, organizar desde cedo a formatura de final de curso. Esse grupo segue junto durante todo o ensino médio se blindando contra um possível caso de bullying, estendendo os laços de amizade em acampamentos ou se confraternizando em saídas para festas nas casas uns dos outros.
Skam – 1ª temporada / Russ Bus norueguês

O Russ Bus é uma tradição anual, onde esses jovens arrecadam e juntam dinheiro ou conseguem patrocínio para comprar e ornamentar um ônibus que vai levá-los pela estrada em festas insanas na primavera, no final do colegial, até o feriado da Constituição. Esse é um rito de passagem característico no final da graduação do ensino médio norueguês. O Russ Bus é, muitas vezes, incentivado e patrocinado pelos próprios pais dos estudantes. Muito mais do que um lugar para perder a cabeça e o limite, o ônibus é uma forma de desenvolver o princípio de pertencimento social e de autodescobrimento, quer seja na escolha de uma profissão futura ou na experimentação da sua própria sexualidade e é o melhor meio de apoio que cada jovem norueguês encontra ao entrar em uma escola nova, sem amigos, vulnerável ou quando sai de casa por volta dos 17 anos.
De possível cópia de Skins a queridinha do público

O que fez da série Skam esse fenômeno de popularidade? O que há de diferente na sua forma de contar uma história? Porque o seus elenco é tão festejado e seguido nas redes sociais? Me fiz todas essas perguntas quando comecei a assistir a primeira temporada, achando que veria a cópia norueguesa de Skins. Eu não sabia que seria arrebatada por uma narrativa coerente, consistente e, até certo ponto, bem simples. Eu não imaginava que aquele elenco tão jovem, falando uma língua tão estranha para nós brasileiros, em episódios tão curtos, iria me mostrar que às vezes menos é mais quando estamos falando de atuação e de uma bela narrativa.
Os dois primeiros episódios da primeira temporada de Skam apresentam vários clichês corriqueiros no universo das séries voltadas para o público juvenil. Vemos nesses dois episódios que toda a narrativa será desenvolvida a partir da perspectiva da Eva e dos seus dramas pessoais, contudo, a série se mostra bem competente ao apresentar os demais personagens que gravitarão no eterno da Eva. Tanto o Jonas quanto o Isak são apresentados para o grande público, sendo que o primeiro nos desperta vários sentimentos antagônicos, enquanto que o segundo nos desperta bastante simpatia. Vemos uma Eva ressentida com sua ex-melhor amiga Ingrid, solitária apesar de estar envolvida romanticamente com Jonas, em busca de adequação e aceitação em algum grupo social.
Passamos a conhecer as inseguranças, os segredos e as vulnerabilidades da Eva e mergulhamos nas personalidades da Vilde, Chris, Noora e Isak, e tudo isso regado por uma bela trilha sonora que passeia pelos hits do Justin Bieber, Selena Gomez, Lana del Rey, entre outros grandes ícones da música pop.
Um ponto baixo dessa temporada foi não terem investido um pouco mais na Chris como alívio cômico. Inicialmente ele se mostrou extremamente interessante ao fazer piada das situações trágicas do grupo e ao flertar com o Isak usando uma colher como objeto de sedução, mas à partir do meio da temporada, percebi que a personagem perdeu o foco e cedeu espaço para a chegada da Noora e da Sana ao grupo.
Skam – 1ª temporada/Noora

Aliás, pausa para falar da Noora! Que mulher!!! Noora falando espanhol lindamente. Noora fã de Suits. Noora cantando Justin Bibier. Noora desafiando o William. Noora sendo linda e dando os melhores conselhos para as amigas. Noora sendo feminista e defendendo Eva. Noora aceitando convite de amizade em rede social. Porque tão perfeita, Noora? A chegada da Noora e Sana para o squad no terceiro episódio me fez crer que estava assistindo a uma série diferente de Skins, apesar de respeitar o legado da antecessora. Vi em ambas as personagens um discurso tão afiado e politizado, coisa que sempre cobrei em Skins.
Skam – 1ª temporada/Sana

O que falar da Sana? Vamos todos seguir a palavra da Sana! “Alô!? Sou muçulmana em um país sem fé. Sou a maior perdedora de todas nós”. As melhores frases de Skam são de Sana. A personagem chegou na série sendo considerada rude, fria e radical, mas em pouquíssimo tempo conquistou os nossos corações com a sua maturidade e a sua forma de enxergar a vida à partir do ponto de vista de uma jovem muçulmana em um país onde a maior parte da população é ateia. Até mesmo Vilde, que foi contra a sua integração ao Russ Bus e que a caracterizava como uma integrante de uma gangue muçulmana, se curvou diante da perspicácia, da lealdade e do companheirismo da moça, vide a sequência do socorro que ela e as demais prestam a líder do ônibus depois de um momento embaraçoso na festa.
Falando em Vilde, ela é apresentada inicialmente como uma garota bastante fútil e cabeça de vento. Ao longo da temporada, Vilde se mostra mais amadurecida, depois de correr como uma louca atrás de William e das festas do Penetration. Após o susto de uma possível gravidez, de duas cenas cômicas durante a consulta médica e de ser humilhada por William, Vilde diz uma das frases mais inesperadas e que comprovam que no final, a jornada é que conta: temos que entender que se um cara não gosta de você o problema não é você, é ele! Ou seja, a garota não é a idiota que se imaginava.
Falando em idiota, odiamos logo de cara o Jonas e a sua sobrancelha feia, achamos que ele não merecia Eva e que estaria traindo a garota com a sua rival e ex-amiga, Ingrid. Como assim, faltar no jantar na casa da crush? Levar amiguinhos para um final de semana a dois na cabana? No final das contas, percebemos que Eva é quem acabou traindo ele e também a sua ex-melhor amiga no passado. Jonas falou meia dúzia de verdades para Eva durante o momento de fúria, mas o bacana é que transcenderam para um patamar acima do envolvimento amoroso e nos proporcionaram cenas emocionantes no momento do término. Dessa forma, percebemos que Jonas até que era um cara legal. A história do fofo do Isak também nos presenteou com um belo twist nos dois últimos episódios da temporada, mostrando que o rapaz talvez fosse um pouco falsiane com Eva. Seria Isak apaixonado pela Eva? O histórico do celular dele mostrou o contrário disso.
Enfim, Skam apresentou uma primeira temporada maravilhosa! Perceberam que usei a palavra ‘maravilhosa’ para caracterizar a primeira temporada? Sim, foi maravilhosa mesmo! A temporada inaugural de Skam foi bastante competente em apresentar os seus personagens imersos no cotidiano da vida escolar em Oslo; o show conseguiu trabalhar na medida certa a protagonista da temporada, sem deixar de apresentar as circunstâncias e dramas vivenciados pelos demais personagens; tivemos plots twists interessantes e até um pouco surpreendentes; assuntos significativos foram tratados de forma simples e descomplicado (drogas, sexo, sexualidade, feminismo, política, família, companheirismo…) e ao término da temporada, já nos sentíamos íntimos de cada personagem. Skam não reinventou a roda, não apresentou nada de tão novo ou que já não tenhamos visto até em Malhação, mas nos proporcionou uma jornada emocionante e visceral junto aos seus personagens incríveis durante toda a sua primeira temporada. E se a jornada foi boa, toda a caminhada valeu a pena!
Lembrem de seguir a palavra da Sana!
Até o próximo texto de Skam com um apanhado da segunda temporada!














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