Para início de conversa, vale lembrar que Skam é uma série de origem norueguesa, finalizada em junho de 2017, após quatro temporadas, que retrata a vida cotidiana de adolescentes da Hartvig Nissens Skole, uma conceituada escola no bairro rico de Frogner, em Oslo, acompanhando seus problemas, seus dilemas e as suas descobertas (leia mais sobre a versão original aqui). Skam terá, entre 2018 e 2019, diversos remakes ao redor do mundo (Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Espanha e Holanda), todos eles terão que respeitar o que reza o contrato para que ocorra a adaptação televisiva, ou seja, recriar de forma idêntica ao produto original os três primeiros episódios da nova série para só a partir do quarto episódio criar a sua própria mitologia, além disso, todas essas versões contarão impreterivelmente com a consultoria dos criadores do show original para que não fujam da proposta e da filosofia da série nórdica.
Dito isso, vamos falar sobre o remake francês!

Impressionados pelo estrondoso e inesperado sucesso de Skam Noruega, a France Télévisions decidiu lançar um remake deste drama concebido para adolescentes, buscando alcançar a fatia do público juvenil que, cansado das produções rasas das emissoras locais, optou por migrar para a internet e para as plataformas de streaming onde pode consumir livremente programas que dialogam de forma mais coerente e objetiva com as suas demandas, como por exemplo a veterana Skins e novata 13 Reasons Why.
Acompanhando a técnica adotada pela NRK que tinha o hábito de divulgar de forma prévia os conteúdos inéditos dos episódios nas plataformas digitais, a France Télévisions, através da sua nova plataforma digital, a France.tv Slash, também vem disponibilizando esses conteúdos durante a semana e criou perfis individuais para os protagonistas da série nas principais redes sociais, consolidando uma ofensiva idêntica à adotada pela emissora norueguesa.
A première da série francesa apresentou um episódio muito parecido com o piloto da série norueguesa, como era de se esperar. Logo de cara conhecemos a protagonista da primeira temporada, Emma Borgès (Philippine Stindel), contraparte francesa de Eva Mohn (Lisa Teige), em seguida fomos apresentados ao seu namorado Yann Cazas (Léo Daudin) que na versão anterior, além de ser interpretado por um ator branco, chamava-se Jonas Noah (Marlon Valdés) e conhecemos o seu amigo Lucas Lallemant (Axel Auriant), outrora chamado Isak Valtersen (Tarjei Sandvik Moe). Sei que é confuso ter que aprender todos esses novos nomes, já que os personagens não mantiveram os nomes usados na série de origem, sei que as comparações são/serão inevitáveis, mas mantenho a posição de que não adianta reclamar das mudanças ocorridas na trama, se fosse para ser uma cópia idêntica de Skam Noruega, era melhor rever a série dos alunos da Hartvig Nissens Skole do que dedicar tempo vendo esse remake, sendo assim, precisamos deixar a mente aberta para acompanhar essa nova produção.

Eva, Noora, Isak e Sana deram lugar a Emma, Manon, Lucas e Imane nessa versão francesa habilmente escrita pelo time composto por Cyril Tysz, Clemence Lebatteux, Karen Guillorel e Julien Capron, que de imediato já nos apresenta temas como o feminismo, o consumismo e a postura alienada da juventude que se fecha para o mundo frente aos apelos das novas tecnologias. Alguns diálogos são quase sem palavras e Skam França divide a sua história em pequenas cenas introduzidas com a data e a hora que ocorrem, nos situando na cronologia dos acontecimentos que envolvem a protagonista Emma.
Apesar do protagonismo da temporada ser direcionado para Emma, como bem já sabemos, a história não é somente dela. Com o pretexto de uma festa de aniversário em uma casa noturna, Skam França introduziu aos poucos os demais personagens que compõem esse universo tão peculiar e vasto. Não vou negar que me encantei com Manon Demissy (Maryin Lima), claro que não foi da mesma forma que me encantei com Noora Sætre, interpretada magistralmente pela carismática Josefine Pettersen, mas fiquei curiosa e querendo ver um pouco mais da personagem. A garota francesa é tão arrojada, desaforada e autêntica em seu posicionamento quanto a sua antecessora norueguesa. Por outro lado, não consegui achar Alex Martineau (Coline Preher) tão engraçada quanto Chris Berg (Ina Svenningdal) na cena da confusão dos nomes, mas prefiro esperar por mais dessa nova atriz que dá vida a uma personagem tão amada pelos fãs dessa série.
É tão estranho rever a cena de Vilde Lien (Ulrikke Falch) chorando no banheiro da casa noturna sendo feita pela atriz Lula Cotton Frappier, que na trama se chama Daphné Lecomte. Vilde e PCrhis foram os dois únicos personagens, dos que foram introduzidos nesse piloto, que eu senti o peso da mudança dos nomes. Achei o ator Théo Christine, que interpreta Alex Delano, tão engraçado e charmoso quanto o ator norueguês Hermann Tommeraas (PCrhis), porém menos cínico. Mas isso tudo é um mero detalhe diante das inúmeras possibilidades que esse remake tem em mãos, já que possui uma base de fãs ávida por devorar esse novo material.
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O episódio inaugural de Skam França apresentou os mesmos problemas encontrados no piloto da sua antecessora norueguesa e isso é fato! É um episódio curto, com pouco mais de 20 minutos, onde diversos personagens desfilam na nossa tela, com nomes difíceis, histórias complexas, ramificações e motivações desconhecidas para nós e não há a mínima intenção de nos apresentarem alguma explicação, por outro lado, muito tempo de tela é gasto com um conflito entre a protagonista da temporada (Emma) e a sua amiga (Ingrid), no entanto não fazemos ideia do que ocorreu entre elas (tampouco nos importamos com essa situação), o episódio ainda tem o desplante de finalizar sem a devida explicação. Para quem já viu a versão original, tudo bem, já sabe que as coisas tomam um rumo apropriado após o terceiro episódio, mas para quem ainda não assistiu a série nórdica, não há parâmetros ou comparações e isso tudo soa de forma cansativa e desestimulante, essa não é a melhor estratégia para uma série estreante, definitivamente.

É óbvio que as comparações foram a linha condutora desse texto, mas não poderia ser diferente, né? Após quatro exitosas temporadas e com quatro protagonistas incríveis, Skam Noruega arrebanhou uma legião de fãs pelo mundo todo, criou uma nova forma de dialogar com o público adolescente – não os tratando de forma idiotizada – e promoveu um amplo debate sobre religiosidade, identidade, intolerância, autodescobrimento, preconceito, sexualidade… e tantas outras temáticas que só alongariam essa crítica. Espero que esse novo squad composto por Emma, Manon, Daphné, Alexia e Imane nos faça rir, refletir, chorar e amar da mesma forma que o squad original composto por Eva, Noora, Chris, Vilde e Sana nos fez mergulhar nessa torrente de sentimentos. Espero que a série francesa vença a prova dos três primeiros episódios e apresente um material novo e cheio de identidade própria, para que tenhamos mais uma vez uma série que retrata de forma fiel as particularidades do seu país de origem, no caso, a França.
Outras informações:
1) A atriz Assa Aicha Sylla, que interpreta a muçulmana Imane Bakhellal, apareceu recentemente em fotos nas redes sociais e em vídeos promocionais da série sem o hijab, incendiando a controvérsia sobre a personagem e o seu posicionamento religioso menos ortodoxo em um país que vem tentado com grande dificuldade combater a islamofobia.

2) Houve um encontro entre as garotas do squad norueguês e do squad francês, onde ambos os grupos puderam trocar impressões sobre os seus personagens.
















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