A temporada de Sana, em um contexto antropológico e social, é uma das mais importantes na cronologia de Skam, por retratar, dentro de uma esfera social, a vida de uma adolescente muçulmana imersa em uma cultura distanciada dos padrões filosóficos e comportamentais estabelecidos pela religião seguida por sua família e, por isso, sujeita a todo tipo de mazela que os seus pares sociais podem lhe imputar por pura maldade ou por completa ignorância mesmo. Não quero dizer com isso que as demais temporadas de Skam não são importantes ou relevantes, muito pelo contrário, todas elas são importantíssimas, mas se formos parar para avaliar, existem muitas outras séries destinadas aos adolescentes que tratam de uma ou de outra temática retratada nas demais temporadas de Skam, tudo bem que cada uma dessas séries usa a sua própria linguagem para atingir o intento desejado, porém, creio eu, que para a maioria dessas séries não é interessante colocar uma adolescente muçulmana no foco das suas narrativas e em evidência,  por isso, carecemos desse tipo de debate no espectro juvenil. A série norueguesa trouxe tantos temas importantes para o debate (transtorno mental, orientação sexual, feminismo…) que seria injusto não os exaltar aqui, contudo, ao decidir abraçar a história de uma jovem muçulmana, Skam Noruega mostrou que a essência do carinho é realmente o cuidado e que só se combate a cultura de ódio e a intolerância através do esclarecimento e das respostas dadas mesmo que as perguntas lhes pareçam idiotas.

Depois do surpreendente sucesso da conceitual terceira temporada do remake francês, que trouxe para os holofotes o icônico casal formado pelos adoráveis Lucas e Eliott, Skam France nos entregou sem maiores delongas a sua quarta temporada, tendo como protagonista a estudante muçulmana Imane Bakhellal, interpretada pela atriz Assa Aïsha Sylla. Porém, antes de fazer um balanço geral da temporada como um todo, eu gostaria de me ater a duas ou três situações que julgo interessantes nesse início de conversa. A primeira dessas situações é sobre a falha gritante e incorrigível que esse remake apresentou ao não saber desenvolver Imane ao longo das suas três temporadas. Skam France teve absolutamente três temporadas para desenvolver uma personagem que foi regular o tempo todo e que eles já sabiam que seria protagonista da quarta temporada, mas não o fizeram. Imane sempre esteve lá, entre uma cena e outra, transitando entre os demais personagens, no entanto, nunca foi aprofundada ou teve uma fala realmente relevante que justificasse a sua multidimensionalidade. Essa seria a primeira Sana que um remake nos entregaria depois do advento da Sana original, que por sinal, essa sim é uma força da natureza, tudo que eu queria é que eles ao menos fossem cuidadosos durante o percurso, mas não foram. Começamos a temporada como cegos, tateando no escuro, esbarrando em informações, em situações desconhecidas e em personagens fora do lugar ou do contexto.

Um outro aspecto que também creio que seja digno de menção aqui nesse texto é sobre a situação dos muçulmanos em território francês. Faço questão de esclarecer um pouco dessa situação aqui nesse texto porque a vivência no Brasil é bem diferente da realidade na Europa, em se tratando de embates de cunho filosófico ou religioso, sobretudo quando estamos falando do Islamismo ou seus correlatos. A França tem a maior população de judeus e muçulmanos da Europa, e os muçulmanos são discriminados até pela polícia no que diz respeito a emprego e tratamento. Os crimes de ódio contra a população muçulmana, aumentaram drasticamente entre 2016 e 2017 e de lá para cá não param de crescer. Há uma visão que o processo de imigração estaria “islamizando” a França, mas isso não é verdade. O maior número de imigrantes regulares na França é de portugueses, na sua maioria católicos; já os refugiados são oriundos do Congo, Sudão, Bangladesh e Síria, enquanto os muçulmanos do norte da África que migram para França são da Argélia, da Tunísia e do Marrocos. Há uma mescla muito grande de comunidades judaicas e muçulmanas na França, mas não nos enganemos quanto ao tratamento destinado a essas comunidades, por mais que o governo francês esteja sendo combativo e lutando contra essa situação, a intolerância, o ódio e o preconceito destinados à comunidade muçulmana é avassalador em determinadas regiões da França, por isso, uma série francesa, com uma protagonista muçulmana e negra é muito mais relevante do que muitas pessoas podem supor.

Isak, em uma conversa com Sana no episódio 4×07 de Skam Noruega, entre outras coisas, lhe disse: “(…) As perguntas idiotas são muito importantes. Se não fizermos as perguntas idiotas, começamos a criar as nossas próprias respostas. Mesmo que pareçam idiotas e racistas, é muito importante que você as responda. Você tem que responder! Quando você começa a procurar por ódio, você encontra. E quando você encontra ódio, começa a odiar a si mesmo.” Não é função do oprimido esclarecer o opressor e não é função do agredido, esclarecer o agressor, mas concordo em parte com a colocação de Isak, as vezes temos pessoas muito próximas de nós aparentemente intolerantes, homofóbicas, racistas, misóginas, machistas, mas que estão abertas ao esclarecimento e, por isso, fazem perguntas que soam como verdadeiras idiotices aberrantes (até mesmo nós já fizemos essas perguntas), por isso merecem (merecemos) esse tipo de esclarecimento para abrir as mentes trancadas em atavismos e idiossincrasias.

Um outro aspecto que também julgo interessante destacar é o fato de que em qualquer versão de Skam a amizade sempre vai ser a máxima permeando as relações, quer seja no grupo das garotas ou entre elas e os garotos, contudo, desde a sua primeira temporada, Skam France falhou miseravelmente na tentativa de estabelecer essas relações. Falei amplamente sobre esse tipo de falha em um texto anterior quando comentava sobre a inexistência da amizade entre Lucas e Yann ou entre o próprio Yann e o boy squad. Inclusive, na temporada passada, Yann protagonizou uma das piores cenas que validam essa minha fala, quando abandonou Lucas sozinho no pátio da escola após saber que o melhor amigo era gay. Claro que ele tentou se redimir um pouco mais tarde, mas como disse naquele texto, o estrago já estava feito. Bem, meus amigos e minhas amigas, esse texto vai ser um pouco diferente dos habituais textos de temporada dos remakes de Skam, não comentarei os fatos capítulo por capítulo, muito menos elencarei os acontecimentos cronologicamente divididos entre começo, meio e fim. Levando em consideração a temporada bagunçada dirigida por David Hourrègue e roteirizada por um grupo que pesou a mão e se perdeu no caminho, iniciarei essa crítica com o meu veredito final sobre a quarta temporada de Skam France e em seguida irei fundamentar as razões que me levaram a formular tal assertiva, mesmo assim, quero ressaltar que o meu amor pela série norueguesa e as suas versões continua inabalável.

Skam France/Imane

Em minha opinião, o maior erro de Skam France nessa quarta temporada foi o de não dar para a sua protagonista o protagonismo da sua própria temporada. Vimos Imane sendo achatada entre a chatíssima trama de Manon/Sofiane & Manon/Charles; eles não confiaram na capacidade técnica da sua atriz protagonista e por isso criaram um movimento escapista através da já comprovada competência de Marylin Lima, mas fica o questionamento, se não confiavam o suficiente na capacidade técnica de Assa, porque lhe deram uma temporada? Bastava mudar a perspectiva da quarta temporada para Eliott ou reciclar o arco de Manon mais uma vez.  Ainda tivemos um outro movimento escapista passando pela estranha relação desenvolvida entre Idris e Ingrid e da própria Ingrid com o squad das garotas, também tivemos, como pano de fundo, o romance de Daphne e Basile, que ofuscou bastante o plot da protagonista, chegando a ser mais interessante que o pretenso romance de Imane e Sofiane e, por fim, ainda tivemos a conturbada relação de Lucas e Eliott diante da possibilidade de Idris ter feito parte da vida de Elliot em um passado recente. Muitos pontos de distração dentro de uma temporada que prometia trazer Imane para o centro da narrativa.

O tempo de tela da protagonista foi fragmentado de forma reducionista e covarde, ao contrário do ocorrido na temporada de Lucas, que objetivamente teve todo tempo necessário para ser desenvolvido e aprofundado, apesar do brilho próprio de Maxence, ator que deu vida a Eliott, aparelhamento romântico do protagonista da terceira temporada, Axel teve tempo suficiente para mostrar o seu bom trabalho de ator, como também teve a oportunidade de desenvolver o romance entre o seu personagem e o seu interesse romântico. Um outro grande pecado de Skam France, que fez com que a temporada não fosse tão palatável, foi a construção equivocada da personalidade de Imane, que até então sempre havia se mostrado muito amiga de todos, nessa temporada ele sempre esteve na defensiva, se mostrou muito combativa e até agressiva em muitos momentos. Isso não ajudou a personagem em nada. Dificilmente nos importávamos com seus dramas ou sua suposta vulnerabilidade, quando tudo que tínhamos em cena era Imane despejando arrogância, petulância, traição e agressão contra os seus amigos. A desconstrução de Imane chegou a ser vergonhosa! A temporada prestou um desserviço à comunidade muçulmana ao retratar uma jovem religiosa, que segue a lei do amor e do perdão, de forma tão feroz, agressiva, invejosa e rancorosa. A direção desse show não foi cuidadosa na elaboração dos argumentos da sua protagonista, a atirou aos leões ao trazer para cena uma personagem que não refletia o sentimento de inadequação; que se mostrava impulsiva na tomada de decisões equivocadas, porém, incapaz de fazer o caminho de volta à procura da redenção. Até mesmo o fato de Imane ser a única garota negra do seu squad, não foi elaborado da forma correta, deixando todo o debate sobre preconceito e racismo de forma rasa e mal construída.

Skam France/Sofiane

Um outro fato que eu não consigo compreender é o que fizeram com o personagem Sofiane, que deveria ser leve, compassivo e politizado, todavia, nos entregaram um personagem despreocupado, pouco comprometido e até certo ponto desinteressante. Claro que não gostaria que copiassem integralmente a personalidade do Yousef original, mas custava ao menos terem desenvolvido o rapaz com um mínimo de coerência. Quer dizer, ele aparentava ter um real interesse em Imane, ao se ver preterido pela moça, ele rapidamente engatou uma relação pública com Manon, como se o que ele sentia por Imane não importasse, como se a recusa da moça não o tivesse atingido, como se isso não fosse significativo e tivesse sido um acontecimento isolado. Sei que Imane o rejeitou e isso o deixou praticamente livre para estar envolvido romanticamente com quem ele quisesse, mas foi muito estupido da parte dele se envolver com uma das melhores amigas da garota que ele dizia gostar. Sofiane sempre foi muito claro com Imane sobre os seus sentimentos por ela, daí o fato dele ter estado com Manon meio que pareceu uma espécie de pequena vingança em relação à rejeição sofrida. Essas, sem sombra de dúvidas, foram as piores linhas escritas para esse personagem, passamos a cultivar sentimentos antagônicos em relação a Sofiane por conta das suas más escolhas. Skam France errou feio com esse personagem e o colocou em um lugar que dificilmente ajudou o ator a entregar algo melhor do que ele fez durante toda a temporada. Um outro ponto muito ridículo na construção desse personagem foi o fato de ele estar namorando com Manon por tão pouco tempo, no entanto, se mostrou tão confortável dentro dessa situação que chegou a ir buscar a garota na escola, sair de mãos dadas, confrontar Charles e ir as vias de fato com o ex-namorado da garota. Tudo isso em fração de minutos entre um episódio e outro. O que vimos sobre Sofiane nos episódios finais contrasta gravemente com o personagem apresentado durante a temporada. Mesmo que a sequência de dança envolvendo o casal tenha sido visualmente linda e tocante, não apaga o fato que ele entrou em um relacionamento com Manon, mesmo sabendo que ela é uma das melhores amigas de Imane.

Skam France/Girl Squad

Falando em Manon, eu não poderia ter ficado mais irritada com algo do que com essa loucura de reciclagem de plot chamada Manon 2.0. Em que momento esses roteiristas em conjunto com a equipe que produz esse show chegaram à conclusão que essa proposta seria interessante dentro dessa temporada? Chega a ser inacreditável de tão incoerente que é essa decisão. Muitas pessoas guardam mágoa de Noora original por ele ter dado um beijo no Yousef original, mas o que dizer de Manon que engatou um romance com Sofiane? Ah, mas ela não sabia da história de Sofiane com Imane! Mas os roteiristas sabiam!  E isso ficou feio, muito feio! A partir da decisão de emparelhar Manon com Sofiane, a temporada passou a ser sobre Manon 2.0, porém, à partir da perspectiva de Imane. A estudante muçulmana passou a ser expectadora da sua própria temporada. Ela passou a ser uma peça dentro do tabuleiro de xadrez dos romances, das brigas e desventuras de Manon e seus namorados. Essa, sem sombra de dúvidas, foi a pior decisão tomada por esse show. Não só desvirtuou a temporada como um todo, como comprometeu e subverteu a narrativa quando essa ainda nem havia sido desenvolvida. Pouco adiantou a declaração de Manon no penúltimo episódio ao dizer para Imane que ela era apenas a número dois para Sofiane. Será que ela não percebeu o quanto machucou a amiga? Será que não cabia ali uma conversa mais particular sobre esse fato? Não cabia, segundo esses roteiristas. Limitaram a situação a apenas uma frase e um abraço coletivo, como se isso apagasse o fato de que Imane mandou um e-mail não autorizado para Charles, violando a conta particular da amiga. Ou seja, ambas pisaram na bola e precisariam fazer o caminho de volta. Mas optaram por resumir a situação no retorno de Manon para o embuste do Charles e para Imane correndo atrás de Sofiane. Como se tudo se resumisse a essa corrida por relacionamentos.

O reencontro do squad das garotas após a cisão foi a coisa mais horrível que esse remake poderia produzir em termos de representação de amizade nessa temporada. Não digo isso pela cena somente, que foi até bem bonita, mas depois de todo o drama desencadeado por uma sucessão de erros de todas as partes, depois de Manon ter dito que não seria capaz de perdoar Imane, depois de Alexia ter brigado com a amiga por conta da sabotagem na seleção para o cast do musical e depois de toda a repercussão da situação envolvendo Ingrid, Idris e o squad das garotas, como aceitar que elas não conversaram nem nada e está tudo bem como em um passe de mágica? Ingrid se mostrou incapaz de admitir que possivelmente foi racista e islamofóbica com Imane, ela se mostrou incapaz de escutar e aprender um pouco sobre como é ser Imane em um mundo intolerante e racista. Um outro ponto a se destacar é o fato de que apesar de toda essa tensão, o squad se manteve firme em preservar a sua relação com Ingrid, em alguns momentos sendo ostensivo em mostrar que a garota era a nova integrante do grupo, deixando, de certa forma, Imane de escanteio, distanciada, promovendo na estudante um sentimento de inadequação, coisa que ela já cultivava em seu interior. Imane se desculpou pelos seus atos através de mensagens de texto e presencialmente, mas não ouviu uma só voz do squad lhe pedindo desculpas ou tentando argumentar porque agiram dessa forma. Elas apenas aceitaram que a única errada na situação era a estudante muçulmana e, por essa razão, somente ela deveria se desculpar. O argumento de Emma para negar a suposição de que seria racista por ter namorado Yann e Alex, dois garotos negros, soou tão ofensivo, era como se ela estivesse dizendo ‘eu até tenho amigos negros…’ para validar a sua tese. Não imagino como os roteiristas foram capazes de escrever essas linhas e como elas foram aprovadas. Principalmente em uma temporada cuja protagonista é uma garota negra.

Na sacola de decisões equivocadas nessa quarta temporada de Skam France, temos também a desnecessária decisão de promoverem Ingrid para o elenco regular, como se ela fosse um sexto elemento no squad das garotas. Aprovamos essa promoção? Claro que não! A ascenção de Ingrid para o squad das garotas, creio eu, deveria funcionar como um contraponto à perspectiva de Imane, no entanto, tudo que tivemos em cena foi a presença inoportuna e intrometida de Ingrid vomitando preconceito e intolerância, sendo a voz das garotas em momentos críticos sem sequer pedir autorização. Ingrid se transformou em um grande obstáculo para o desenvolvimento de Imane, por estar na escola, nos encontros privados das garotas e por estar dentro da casa de Imane com Idris. Quer cena pior do que a sequência em que Imane discute com Ingrid tentando mostrar como suas palavras destilaram preconceito ao se referir de forma pejorativa sobre um rapaz árabe e todo o squad se volta contra Imane sem ao menos ponderar por um segundo que talvez a estudante muçulmana tivesse razão em seu argumento? Sei que Imane foi muito dura com Ingrid ao tentar defender a sua perspectiva perante aquela narrativa esdruxula dela, mas custava as meninas colocarem na balança ambas argumentações? Nunca um squad das garotas agiria de forma tão parcial e descuidada para com uma das meninas! E essa situação se repetiu mais adiante quando Imane foi confrontada por todo o grupo plus Ingrid. Essa cena, em minha opinião, decretou o fim desse squad enquanto grupo de apoio mutuo e acolhimento e nada do que fosse feito nos episódios restantes poderia apagar essa desconstrução do conceito de amizade.

Admito que Alexia e Manon tinham motivos para estarem chateadas com Imane – não foi legal da parte de Imane ter retirado Alexia do cast para o musical, como também não foi uma boa atitude ela ter mandado o e-mail para Charles -, mas quais eram mesmo os motivos para Daphné, Ingrid e Emma estarem chateadas com a moça? Elas (todas elas) foram incapazes de tentar entender o que estava se passando com a ‘amiga’. Elas andam juntas há quatro malditas temporadas, porém, foram incapazes de perceber a agonia, o medo e o estranhamento que Imane estava passando. Como não foram capazes de chamar a ‘amiga’ e perguntar: o que é que está acontecendo? Por que você fez todas essas coisas? Há algo de errado acontecendo com você? Não! O que tivemos foi Manon dizendo-se incapaz de perdoar as falhas de Imane, quando ela mesma na segunda temporada cometeu uma falha grave ao trair a confiança de Daphné e se relacionar com o interesse amoroso da outra. Emma foi a primeira a virar as costas para Imane, no entanto, na primeira temporada ela passou horrores por ter traído a amizade de Ingrid e ter ficado com o seu namorado ou por ter beijado outro garoto enquanto ainda estava em uma situação romântica complicada com Yann. Tanto Manon, quanto Daphné e Emma encontraram redenção e apoio para seus erros nas temporadas passadas, agora, na vez de Imane, todas elas agiram como juiz e carrasco da estudante muçulmana.

Da mesma forma que faltou diálogo na reconciliação do squad das garotas, faltou muita conversa entre Imane e Sofiane. Achei belíssima a cena de ambos dançando juntos, contudo, isso não resolveu a situação pendente construída durante toda a temporada, Sofiane se relacionou romanticamente com Manon ao invés de Imane. Como disse antes, sei que Imane dispensou o rapaz (ela errou ao fazer isso), mas ele teve uma atitude reprovável ao iniciar um romance com uma das suas melhores amigas, daí nos seus minutos derradeiros, Manon libera o rapaz, avisa que voltou para o embuste do Charles e Imane simplesmente vai correndo para os braços do garoto como se nada tivesse acontecido. Vamos com calma, Skam France! Imane machucou Sofiane ao dispensá-lo de forma tão indiferente. Sofiane machucou Imane ao namorar Manon bem na sua frente. Se ambos estavam machucados, não cabia aí uma conversa franca e honesta para cortar as arestas? Não, o que eles fizeram? Um vídeo de dança romântica e ponto final! Isso não é desenvolvimento de personagem, isso é desserviço na construção do personagem. Imane foi pintada com cores que não deveria. Em alguns momentos tornou-se desbotada e translucida em sua própria temporada, quase um fantasma. Em outros momentos, usou uma paleta de cores tão intensa que até não a conhecíamos de tão arrogante, agressiva e reativa que era. Não souberam dosar a intensidade dessas cores, nos entregaram uma personagem muito diferente da que estávamos habituados a ver ao longo dessas quatro temporadas. Imane se mostrou relacionável com Lucas e Eliott, com Idris e seu pai e até com as suas amigas de fé, no entanto, se mostrou apartada e estranha com o seu grupo permanente de amigas, coisa que nunca havíamos visto nesse show.

Skam France/Sofiane e Imane

O cenário escolhido para o episódio final foi o do Eid al-Fitr de Imane e, isso não poderia ter sido mais oportuno, já que o evento em questão nada mais é que uma celebração muçulmana que marca o fim do jejum do Ramadã. Eid al-Fitr significa literalmente “Celebração do fim do jejum”. Celebra-se no primeiro dia do mês de Shawwal, o décimo mês do calendário islâmico. Na ocasião é oferecido um grande almoço, as casas ficam abertas para receber parentes e amigos para a celebração e, geralmente, o perdão das ofensas e a remissão dos erros prevalecem. Por isso achei a escolha do evento bem apropriada, da mesma forma que foi para a Sana original. A festa em si foi muito bonita, celebrava a diversidade e a inclusão, dando visibilidade para quão representativa essa temporada de Skam France tentou ser. Mas pecou pelo excesso de acontecimentos que mais serviram para roubar a atenção do arco de imane que estava sendo concluído. Por exemplo, aquele diálogo entre Manon e Charles não acrescentou muita coisa à trama; ou aquele telefonema que Daphné recebeu da sua mãe (a não ser que tivéssemos a confirmação que Daphné seria a protagonista de uma quinta temporada). Da mesma forma que achei estranho Lisa propor para Mika uma parceria para terem um filho juntos. Essa garota praticamente quase nunca abriu a boca durante essas quatro temporadas, agora vem falar em ter um filho com Mika. Até Lucas e Eliott ficaram meio deslocados naquela festa. O refresco ficou por conta daquela família linda de Imane, da sua roupa rosa, igual à da Sana original e do beijo desajeitado que a garota trocou com Sofiane. Pode isso? Claro que pode! Alah tudo entende! Alah, tudo perdoa!

Skam France

Faltou tudo nessa quarta temporada, inclusive amizade verdadeira! O último episódio conseguiu fazer o que a temporada inteira não fez, colocar Imane como protagonista da sua própria história, pena que isso tenha acontecido tardiamente. Finalmente Imane ganhou o merecido destaque, a moça conseguiu estabelecer uma conversa minimamente razoável com Sofiane, coisa que não aconteceu durante a temporada inteira; a estudante conversou com Ingrid e, apesar de eu não ter gostado do teor da conversa, pelo menos tivemos esse momento entre essas duas garotas.  Achei a cena da médica divertida, porém, deslocada dentro do episódio. Imane e Idris sendo cumplices novamente foi a coisa mais linda que essa família poderia mostrar.

Enfim, infelizmente, o remake francês não foi tão cuidadoso em sua quarta temporada quanto deveria ser. Nos entregou alguns plots reciclados das temporadas antecessoras, promoveu personagens desnecessários e oprimiu covardemente a sua protagonista entre um desfile inexplicável de tantos outros personagens que efetivamente já haviam tido a sua chance de brilhar em suas próprias temporadas, isso enfraqueceu a sua trama central, tornando a sua narrativa desinteressante, bagunçada, confusa e distanciada do seu telespectador.

> CHERNOBYL (Minissérie HBO) – Você vai sentir a radiação no corpo!

Tivemos um final de temporada extremamente agridoce. Skam France repetiu o feito da sua terceira temporada, ao criar muito drama desnecessário, ao abrir plots que não tinha a intenção de fechar ou não sabia mesmo como fechá-los; conduziu a sua season finale com algumas cenas lindamente emblemáticas, porém, sem nenhum efeito conclusivo ou emocional. David Hourrègue, diretor do remake, deu a entender que esse realmente foi o series finale de Skam France – primeiro remake a finalizar uma quarta temporada -, principalmente porque ele não chegou a confirmar se teria ou não conseguido expandir o universo do remake para além, das suas já conhecidas quatro temporadas, no entanto, apesar da sempre relevante mensagem que Skam carrega desde as suas origens, não sei até que ponto seria válido uma outra temporada tão bagunçada quanto essa, dando foco a Daphné ou a Eliott. Ao menos a série finalizou os seus serviços propagando a mensagem que somos humanos, erramos o tempo todo, mas também aprendemos com os nossos erros todos os dias.

Nos veremos em breve!

Merci pour tout!

REVISÃO GERAL
Nota:
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