Só para esclarecer, ser gay não livra nenhum homem de ser misógino. Isso não é como se o homem tivesse um passe livre para fazer/dizer o que quiser com/sobre as mulheres e sair ileso e isento ao apresentar qualquer comportamento machista, misógino ou preconceituoso. Trocando em miúdos, Lucas vem apresentando todos esses comportamentos ao longo desses cinco episódios, quer seja ao lado do squad dos garotos, ao lado de Mika ou próximo a Chloé. Ah, mas ele está passando por muitos problemas, é só um adolescente que está tentando se descobrir! Alguns dirão e eu concordarei, até certo ponto… até o ponto em que Lucas trate Chloé de forma digna e respeitosa e não da forma desonesta como ele vem conduzindo até então a sua relação com a garota apaixonada; concordarei até o ponto em que ele compreenda que é tão gay quanto Mika, já que não existem gradações dentro dessa suposta escala gay criada na cabeça dele, a pessoa é o que é e ponto final. Ele desdenhou de Chloé da pior forma possível! Lucas apenas tratou Chloé como um objeto, não dando importância à sua personalidade, aos seus sentimentos ou a sua dignidade e isso não pode ser apagado ou esquecido. A narrativa seguirá o seu curso, torceremos ardorosamente pelo shipp do momento, ficaremos animados com as cenas delicadas ou as mais intensas produzidas por esse novo casal e, em algum momento, até nos pegaremos desejando que o autodescobrimento de Lucas sirva de justificativa para todas as coisas desonestas e rudes que ele vem fazendo com todos que estão ao seu redor. Sou/estou solidária ao drama de Lucas e a sua necessidade de se ajustar ao seu novo status, creio que enquanto o estudante agir por impulso, se esconder e não retirar a máscara que encobre o seu verdadeiro eu, ele andará errático pelas sombras, levando o seu sofrimento e o seu descontentamento por onde andar.

Skam France/Eliott e Lucas

Sei que o desconhecimento absoluto de quem somos, de quais são os nossos desejos e do que nos proporciona prazer deve ser aterrador e pode nos forçar a fazer coisas das quais nos arrependeremos mais tarde, contudo, Skam France colocou o seu protagonista em um beco sem uma saída aparente. Lucas só é legal e mais humano quando está com Eliott, na ausência do amado, ele se porta de maneira desproporcional e por vezes até agressiva, como forma de ocultar os seus verdadeiros sentimentos. O modo como ele trata o (péssimo) boy squad é horrível e indiferente; da mesma forma, ele aparenta não gostar dos seus colegas de apartamento, sempre os tratando de forma fria e irritadiça e, apesar da boa dinâmica empreendida entre ele o squad das garotas, ele apenas as tolera. Até a sua relação com Imani é estranha e superficial. A equipe criativa desse show, por vezes, esquece que quando se é adolescente tudo é muito transitório, intenso e passageiro. Em um ínfimo momento a pessoa está triste, achando que o mundo é um lugar péssimo e que nada vale a pena, contudo, em um átimo de segundo muda-se a percepção da realidade e tudo passa a ser divertido e interessante. Os roteiristas desse show têm esquecido de inserir esses pequenos momentos de leveza na vida conturbada de Lucas – aliás, o sorriso de Axel é lindíssimo na vida real, sinto falta disso nos episódios. O remake francês isolou o seu protagonista de uma forma tão claustrofóbica, que agora de dentro dessa masmorra escura está difícil arrumar as cenas necessárias sem que elas não pareçam jogadas na trama, vide a conversa de Lucas com Imane em 3×04 ou o seu embate com Mika nesse capítulo. Não houve a mínima construção para que ambas as cenas acontecessem, elas apenas brotaram no meio do nada, como se quisessem justificar a importância da existência de ambas as cenas apenas através da força do próprio discurso. Tenho gostado bastante da condução que estão dando para o casal Evak francês no decorrer dessa temporada, mas tenho me preocupado com os textos pobres apresentados para os demais personagens e com a forma solta e desorganizada do conjunto da obra envolvendo todos os núcleos dessa versão.

Skam France/Mika

Falando em discurso, finalmente a cena em que Mika enquadra Lucas aconteceu. Eu gosto muito dessa cena na versão norueguesa de Skam, onde Eskild ajuda Isak a se desconstruir e renascer a fórceps através das suas duras e sábias palavras sobre o orgulho gay e a necessidade de se aceitar do jeito que é. Considero Eskild um dos melhores personagens de Skam Noruega, ele sempre transitou nos diversos núcleos, sempre foi desconstruído, alegre, amigo e solidário. Deu abrigo a Isak no pior momento da sua vida, foi o amigo que Linn e Noora necessitavam em tempos de conflitos e estava lá para qualquer situação que se apresentasse. Considero a fala descrita abaixo como uma das mais importantes para a catarse e a conversão de Isak e já a repeti em diversos textos que fiz ao longo do tempo sobre Skam:

Preciso te dizer uma coisa sobre essas pessoas que você não quer se associar, Isak. Sobre os que usaram rímel, calças justas e saíram para lutar pelo direito de serem quem são. São pessoas que escolheram suportar abuso e ódio, que apanharam e foram mortas e não porque querem muito ser diferentes. Porque preferiram morrer do que fingir ser quem não eram. Isso requer coragem em um nível que a maioria dos seres humanos não entenderiam (…) então você pode sentar aí e pensar no que eu disse.

A conversa de Eskild com Isak foi a responsável pelo ponto de mutação na vida do rapaz, foi a partir daquele momento que Isak percebeu o quanto era egoísta e vivia dentro de uma bolha, conhecia apenas um recorte da sociedade e, por isso, tinha uma visão estreita e preconceituosa do mundo. Considero Edouard Eftimakis (Mika/Eskild) um bom ator, no entanto, ele não teve muito tempo de tela, o seu texto normalmente é superficial e pobre e a sua interação com Lucas é quase inexistente, já que na maioria das vezes eles estão brigando ou se estranhando por algum motivo bobo. Daí que o remake francês não conseguiu alcançar o impacto que essa conversa deveria causar em Lucas. Não sei até que ponto a escolha de Mika para que Lucas contasse sobre o seu envolvimento com Eliott foi a mais acertada, sei que o melhor lugar de fala realmente é de Mika, nesse caso. Talvez soasse estranho colocar Manon para falara sobre romance gay, sendo ela hétero, mas talvez uma boa saída fosse a inserção de Alexia nesse diálogo. Achei a cena superficial, jogada de qualquer jeito e sem a mínima conexão com a história comum desses dois personagens. Skam France vem errando feio no desenvolvimento dessas relações tão necessárias para alavancar o amadurecimento de Lucas. Arrisco dizer que essa conversa não terá grandes repercussões em termos de conscientização e Lucas vai voltar a agir de forma desonesta com Chloé e com as demais pessoas que o cercam na tentativa de ocultar a sua verdadeira natureza.

Vamos a cena que realmente importa nesse episódio 05!

A sequência de Lucas e Eliott de amorzinho soft no loft foi muito bonita e bem elaborada, quase tudo foi pensado para o benefício do resultado final da cena. É impressionante como Maxence está à vontade em cena e a interação dele com Axel só melhora. Os dois estão bem confortáveis, isso é perceptível; essa proximidade estabelecida entre eles tem ajudado bastante na construção dessas sequências mais intimas, torna tudo mais orgânico e crível. Não gostei muito dos cortes e da montagem dessa cena, tudo ficou muito picotado e a decisão de posicionar a câmera no alto, quase próxima a nuca de Max não foi muito acertada, tudo ficou muito confuso e distorcido. No entanto, o uso da voz sobreposta enquanto os dois rapazes se olhavam profundamente, trocavam carícias e se beijavam foi uma ideia bem engenhosa e deu certo. Realmente o francês é a língua do amor! Dizem que felicidade em demasia é sinal de que em algum momento alguma coisa ruim vai acontecer…Eliott teve uma conversa com rapaz na escola e em algum momento Lucas deu a entender que, por sua mãe aparentemente portar algum distúrbio emocional, não a queria ao seu lado, como também não gostaria de ter gente ‘louca’ ao seu redor. Imediatamente o olhar e a expressão de Eliott mudaram, já que ele usa uma máscara e esconde de todos (menos de Lucille) que tem alguma alternância emocional que o faz ter momentos de instabilidade. Fiquei bem sensibilizada com a tristeza do rapaz de olhar penetrante, deve ser horrível não ter o controle do seu lado emocional e perder com frequência o seu equilíbrio, tornando-se uma pessoa instável e vulnerável. Ele ficou tão incomodado com a colocação feita por Lucas que até deixou o rapaz no vácuo na hora em que o outro aguardava ansiosamente por um beijo seu.

Skam France/Lucas

Eliott respondeu vagamente a mensagem de Lucas, solicitando ir mais devagar, pedindo um tempo. Depois disso ele sumiu da escola, sumiu das redes sociais, sumiu dos olhos de Lucas. Mesmo Alex, que faz as mesmas matérias que Eliott, não sabia dar conta do rapaz. Eu suponho que a afirmação de Lucas sobre “gente louca” tenha feito Eliott se retrair, se afastar, tentar preservar Lucas, não o arrastar para o seu mundo de instabilidade e crise. Obviamente que a melhor solução, ao menos na cabeça de Eliott, é voltar para a sua zona de conforto, nesse caso, Lucille.  Não acho que ele voltou para Lucille para magoar Lucas ou para ocultara a sua sexualidade; creio que ele ficou perdido, sem norte e tentou fazer o seu caminho de volta nos braços que alguém que já o conhece e sabe lidar com os seus momentos de crise. A reação de Lucas foi mais explosiva do que Eliott podia supor, o garoto o viu na festa com Lucille, isso foi o epicentro do incêndio que queimou e consumiu a alma jovem e quebrada de Lucas. Um misto de magoa, ódio, desespero e medo assolaram o espirito do rapaz. Foi devastador para ele perceber que talvez o momento mágico vivido no loft tenha sido uma farsa. Nessas horas em que Lucas se sente usado e enganado, eu fico sempre pensativa, me perguntando se ele não é capaz de se colocar no lugar de Chloé para tentar entender como a garota está se sentindo ao perceber que foi usada e enganada por ele. Sei que Chloé teve uma atitude horrível ao confrontar Lucas e revelar na frente de todos na festa que o garoto é gay, mas convenhamos que tanto ela, quanto ele, não estão vivendo os seus melhores momentos e a tendência é um machucar o outro incessantemente. Em algum momento Lucas vai ter que se desculpar com Chloé, mas sinto que cada vez mais ele se afunda em um mar de mentiras junto à moça. Outra situação que Lucas vai ter que resolver é a sua relação com o squad dos garotos, ele tem mentido sistematicamente para Yann, agrediu Arthur e não tem sido um amigo leal com os garotos – se bem que Basile nem conta, ele está cada dia pior e o texto dele é a maior vergonha alheia desse remake. A vida de Lucas está uma bagunça, ele tem deixado as pessoas ao seu redor bem bravas e cada vez mais ele toma atitudes que só complicam a situação. Ele tem acumulado muita dor e sofrimento, ele está sozinho e seguindo por um caminho muito obscuro, a prova disso foi o seu momento de crise esmurrando o portão e se desmanchando em um choro sofrido e sem lágrimas. Aliás, essa foi a melhor cena de Axel até aqui nessas três temporadas de Skam France, pela primeira vez ele mostrou uma reação menos datada e apática, diferente da expressão habitual.

Infelizmente a terceira temporada de Skam France, apesar de apresentar algumas sequências muito bem cuidadas e elaboradas, tem sido a temporada de apenas uma cena relevante por episódio. A cada episódio somos brindados com uma cena que aquece os nossos corações e nada mais. Em 3×01 tivemos a conceitual cena do ponto de ônibus; em 3×02 fomos presenteados com a sequência em que Lucas toca piano para Eliott; já em 3×03 tivemos a bonita cena do quase beijo que desembocou na refrescante cena do beijo propriamente dito em 3×04 e no atual capítulo vislumbramos como a cena da vez,  Eliott e Lucas de amorzinho soft no loft e, talvez, a troquemos pela cena em que Lucas chora na rua após esmurrar o portão. Mas excetuando esses momentos marcantes, todo o resto está ruindo em meio a textos fracos, situações soltas e atuações medianas, ruins ou exageradas – não é, Basile? Tenho sido repetitiva em dizer que o remake francês precisa ajustar essa situação urgentemente, sob o risco de comprometer a única coisa que está funcionando bem e plenamente nessa temporada, o casal Evak francês. 

Outras Informações: 

Skam NL (Holanda) – A segunda temporada seguirá a vida de Liv (Zoë Love Smith) e Noah (Monk Dagelet). Tem estreia dos primeiros clipes prevista para 18 de março de 2019.

Skam Itália – Ainda não há confirmação definitiva, mas especula-se que a terceira temporada do remake italiano estreie no dia 22 de março. A temporada contara a história de Eleonora (Benedetta Gargari) e Edoardo (Giancarlo Commare), mas já há confirmação da participação de Martino (Federico Cesare) e Noccolò (Rocco Fasano) na trama.

Skam Alemanha (Druck) – A confirmadíssima terceira temporada de Druck contará a história de Matteo Florenzi (Michelangelo Fortuzzi). Como ele e Jonas são muito amigos e têm muito química juntos, já estou pronta para amar esse friendship goals.

Skam Austin – O remake americano está totalmente esquecido no churrasco e não sabemos ao certo quando a segunda temporada, que está em fase de filmagens, irá ao ar. As datas são sempre desencontradas e os canais oficiais não se pronunciam sobre o assunto.

Skam France tá sabendo agradar o seu fandom direitinho. São fotos, eventos e postagens que não acabam mais desse Evak Francês. Só não me agrada muito o tanto de vídeos que eles lançam durante a semana. Isso acaba com a magia do episódio.

REVISÃO GERAL
Nota:
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skam-france-3x05-episodio-05Infelizmente a terceira temporada de Skam France, apesar de apresentar algumas sequências muito bem cuidadas e elaboradas, tem sido a temporada de apenas uma cena relevante por episódio.