O episódio 9 de Skam France foi muito bom e reflexivo por tratar de dois temas bem importantes, a cultura do estupro e o bullying. Ambas a situações acontecem o tempo todo, não adianta dizer que se trata de invenção de feminista extremista ou de estudante mimizento. Infelizmente, tanto a cultura do estupro quanto a prática do bullying são reais e acontecem nas nossas escolas, nas festas e bares que frequentamos, nas nossas casas ou em outros ambientes coletivos que adentramos todos os dias.
O Guia do Estudante Brasileiro fala muito claramente que o termo “cultura do estupro” tem sido usado desde os anos 1970, época da chamada segunda onda feminista, para apontar comportamentos sutis ou explícitos que silenciam ou relativizam a violência sexual contra a mulher. A palavra “cultura” no termo “cultura do estupro” reforça a ideia de que esses comportamentos não podem ser interpretados como normais ou naturais. Se é cultural, nós criamos. Se nós criamos, nós podemos mudá-los.

A relativização da violência contra a mulher muitas vezes faz com que a mulher desista de comunicar às autoridades e aos amigos e parentes a violência sofrida. Quando uma pessoa é assaltada e registra a ocorrência, ela, normalmente, é levada a sério, o seu relato é acolhido como algo legítimo, mas isso nem sempre ocorre nos casos de estupro, onde o relato da mulher muitas vezes é desacreditado, a sua conduta é posta em dúvida e a legitimidade da agressão precisa ser validada de diversas formas, constrangendo ainda mais a vítima e silenciando-a de forma intencional e criminosa.
Lamentavelmente, o estupro é o único crime onde a vítima é julgada junto com o criminoso, as vezes a vítima é julgada até mais severamente que o prórpio criminoso e por essa razão Manon preferiu sofrer calada. No episódio anterior a estudante foi para casa de Charles na esperança de poder conversar com o rapaz, mas após uma sucessão de fatos, ela acabou bebendo um pouco além da conta e fora do seu habitual, depois disso ela apagou. No dia seguinte, Manon acordou despida, deitada na cama ao lado de Nicolas, irmão de Charles e de uma moça desconhecida, sem lembrar exatamente o que teria acontecido entre eles durante a noite.

O peso da dúvida corroeu a alma de Manon e ela, inicialmente, preferiu evitar Charles, nem a insistência de Mickael, seu colega de quarto, fez com que a garota se abrisse e colocasse para fora as suas inquietações. Não sei o que faria se estivesse no lugar da garota de batom vermelho, mas senti toda a sua agonia refletida na boa atuação de Marylin Lima. A atriz está de parabéns por ter carregado nas costas o episódio inteirinho, foi graças a consistência da sua atuação que pudemos sentir toda a dor, a dúvida e a confusão da jovem estudante, que mandou uma mensagem para Nicolas e aguardou ansiosamente por uma resposta, que chegou tardiamente e a deixou mais inquieta ainda. O irmão de Charles deu a entender, através de uma foto da moça despida em cama de Charles, que algo havia acontecido entre eles na noite em que Manon apagou. Foi vergonhosa a forma como Nicolas se aproveitou do infortúnio de Manon e da sua vulnerabilidade para se divertir diante do apagão da moça e da possibilidade de tê-la estuprado ou não.
Para piorar a situação, Manon, ao encontrar com Charles na escola, ouviu do rapaz um inesperado eu te amo e um acalorado depoimento de que seria capaz de matar Nicolas caso ele tentasse algo contra ela. Caso ele tivesse sido um pouco mais sincero no início da relação, talvez Manon estivesse mais precavida contra as atitudes sórdidas do irmão de Charles, mas ao ter sido mantida no escuro em relação a psicopatia do rapaz, a moça o tratou como uma pessoa confiável e amiga. Manon não merecia passar por essa situação, percebo que esse calvário ainda está longe de ter um fim.

Paralelo a situação de Manon, um outro caso grave acontecia com o squad das garotas, Imane estava sendo xingada e tendo a sua imagem usada indevidamente para disseminar a cultura de ódio no mundo virtual, a garota muçulmana estava sofrendo cyberbullying. O bullying, que muitos ainda insistem em dizer que não existe, tem levado muitas crianças, adolescentes e jovens à depressão e a morte precoce e autoinflingida. Em maio de 2017, a Comissão de Educação do Senado Brasileiro aprovou em caráter terminativo, quando não precisa passar pelo plenário, um projeto de combate ao bullying. Esse projeto recomenda que as escolas devem adotar medidas para promover um ambiente escolar seguro, usando estratégias de prevenção e combate a práticas de intimidação e agressão recorrentes entre os integrantes da comunidade escolar, conhecidas como bullying. Imane, estava sofrendo bullying e uma derivação do bullying muito em voga atualmente, o cyberbullying, uma espécie de assédio virtual que é uma prática que envolve o uso de tecnologias de informação e comunicação para dar apoio a comportamentos deliberados, repetidos e hostis praticados por um indivíduo ou grupo com a intenção de prejudicar o outro. Ela teve a sua bolsa rabiscada com palavras ofensivas, uma colega da escola a ofendeu verbalmente e a sua imagem foi usada de forma abjeta por alguém que se escondeu atrás do anonimato do mundo virtual. A estudante ficou triste, mas se mostrou empenhada em descobrir o autor do delito.
Todas as situações propostas só terão o seu fechamento nos próximos capítulos do remake francês, contudo, a forma cuidadosa como o tema foi tratado em Skam France me deixou muito satisfeita. Espero que o texto solicitado pelo professor de Manon retrate muito bem o momento atual da França, que se encontra em uma encruzilhada por direitos igualitários, por mais abertura para as questões religiosas e de gênero e para um melhor acolhimento aos imigrantes.















![Skam France 3×10: Episódio 10 [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2019/04/Skam-France-3x10-218x150.jpg)






