Faltando apenas quatro episódios para o final da primeira temporada, Skam France morre lentamente de sede em frente ao oceano, sem ao menos conseguir mostrar a sua relevância ou justificar a necessidade da sua existência.

Recentemente a toda poderosa Vênus Platinada (Rede Globo) conseguiu uma proeza que muitos idealizadores de séries adolescentes lutam arduamente para conseguir, mas dificilmente obtêm sucesso, a emissora conseguiu agradar tanto o público jovem quanto o público adulto com a sua soap opera das 17h contando a mesma história que já vem apresentando há quase 25 anos. Malhação – Viva a Diferença, escrita por Cao Hamburger (Castelo Rá-Tim-Bum), não reinventou a roda e nem apresentou uma história muito diferente do que já estamos acostumados a ver na novelinha longeva do final de tarde, mas inovou ao apresentar um elenco diverso, carismático e com um bom trabalho de atuação, contando as suas histórias de forma dinâmica e relevante, nos fazendo refletir sobre o mundo adolescente, as suas descobertas, as suas necessidades e as suas buscas.

Malhação – Viva a Diferença finalizou a sua temporada com a média geral de 20 pontos, sendo essa a melhor audiência desde a temporada 2009, se tornou um sucesso de crítica e está sendo considerada um divisor de águas desde que a novelinha adolescente estreou em 1995. Mas tudo isso só foi possível porque Cao Hamburger decidiu se arriscar, quebrou algumas regras implícitas para esse tipo de série, acreditou na força do seu elenco jovem e jogou em nossas caras, sem medo da rejeição ou do boicote da turba hipócrita, situações do universo adolescente que precisam ser discutidas em caráter de urgência, mas não encontram espaço em nossos lares ou em nossas escolas.

Era exatamente esse tipo de coragem, mostrada na temporada de Malhação escrita por Cao Hamburger, que eu esperava encontrar no time de escritores de Skam France, composto por Cyril Tysz, Clemence Lebatteux, Karen Guillorel e Julien Capron, ou seja, quatro pessoas aptas, mas que decidiram conscientemente apenas reescrever a mesma história sem ao menos, até agora, imprimir características próprias ou situações culturais do país que abriga esse remake. Busquei a consultoria da minha amiga, Tânia Rupert, brasileira radicada na França, nós conversamos sobre a controvérsia do uso do hijab em lojas, no serviço público, na via pública, nas escolas e universidades; também conversamos sobre o uso de bebidas alcoólicas pelos jovens franceses, sobre o desabrochar da sexualidade nessa faixa etária no país da Torre Eiffel e sobre a tal ‘festa’ falada por Daphné. Após essa conversa com Tânia sobre temas atuais e polêmicos na França, ficou claro que teríamos muito assunto para abordar nessa temporada inaugural do remake francês.  Apesar de sabermos que a temporada é de Emma, a série já poderia desenhar para nós os seus principais argumentos e nos revelar através dos demais personagens com quais cores pintaria o mosaico de discussões sobre religiosidade, intolerância, sexualidade, bullying e tantos outros assuntos pertinentes ao mundo adolescente e em voga nesse momento na França.

O episódio 5 nos mostrou uma Emma chateada, aborrecida, ciumenta e insegura, mas também confirmou que ela e Yann não têm a química necessária para que nos importemos com a vulnerabilidade momentânea que o casal está passando. Em praticamente todos os cinco episódios o casal brigou, divergiu ou teve um desentendimento leve; o fantasma de Ingrid assombra Emma e a deixa insegura a ponto de aceitar os péssimos conselhos de Lucas. Sabemos que Emma e Ingrid têm um passado a ser considerado, também sabemos que Yann faltou com a verdade e não contou imediatamente o que estava fazendo na casa da antiga amiga da namorada. Aliás, o que se passa na cabeça desse rapaz? Ele preferiu que a namorada acreditasse que estava sendo traída ao invés de contar que estava comprando drogas com o irmão de Ingrid. Sem falar que ele foi bastante estúpido e rude com Emma durante a discussão que tiveram na cafeteria. Tudo bem que em seguida Yann se desculpou e até disse o famoso eu te amo, mas fiquei com a sensação que a reação dele foi bem desproporcional para o momento.

Gostei do plot da festa, apesar da fantasia esquisita de Emma e da maquiagem estranha de Alex. Mas já sabíamos onde tudo isso iria acabar, né? Em uma briguinha presencial entre Emma e Ingrid e no final do relacionamento entre a estudante e Yann através de mensagem de texto. E como esperado, Emma foi procurar consolo nos braços de Alex e sem mais delongas se beijaram. Ainda teve um momento de aconselhamento entre a nossa protagonista e Camille, a namorada do aventureiro Alex. Que constrangedor! Tão constrangedor quanto o beijo entre Emma e Yann mais tarde na porta da casa da garota.

Era para ser uma cena carregada de emoção entre o jovem casal, mas não foi isso que aconteceu quando o rapaz finalmente contou a verdade para a namorada, se declarou e ainda disse que confia 100% nela. Fiquei bem frustrada com o beijo que selou a paz e o reinicio entre o casal, lembrei do primeiro beijo da televisão brasileira protagonizado por Vida Alves e Walter Foster, na novela Sua Vida me Pertence, em 1951. Naquela época existia um pudor excessivo, a ponto do fotografo da emissora de televisão optar por não fotografar o primeiro beijo televisionado em uma novela brasileira. Em 1951 as novelas eram ao vivo e não era possível usar certas manobras durante um beijo técnico, mas hoje em dia já quebramos essa barreira e é possível apresentar beijos mais elaborados e que exalem mais sensibilidade e cumplicidade, mas não foi o que vimos no final do episódio. Lembro que Eva e Jonas apenas deram um selinho nessa cena carregada de emoção, mas foi tão tocante perceber a vulnerabilidade de ambos que até dispensou maiores intimidades.

O ponto alto do episódio foi Daphné com a narração esdrúxula da sua aventura sexual e a sua boa atuação mais tarde durante a Festa Histórias de Terror. A sua atuação foi bem marcante ao perceber que era apenas mais uma figurinha no álbum de Charles. Tenho gostado da condução que Lula Cotton Frappier vem dando a sua Daphné, mais iludida e romântica que Vilde, porém, menos cômica e mais falastrona que a antecessora. Não a acho engraçada, mas percebo que a atriz é quem mais conseguiu se apropriar e dar forma a personagem até agora. Esse não é o caso de Imane, que passou dos limites ao dizer as tais verdades para Daphné. Assa Aïcha Sylla ainda não encontrou o tom certo para a sua personagem, que oscila entre a acidez desmedida e falta de trato social.

Dessa forma, a primeira temporada de Skam France vai se encaminhando para a sua reta final sem mostrar a que veio, além de uma primeira temporada, até aqui, apática, medrosa e repetitiva, o remake francês até agora não consegui mostrar a sua relevância ou justificar a necessidade da sua existência, como eu disse no início dessa crítica, sem querer ser exigente e rigorosa além da conta.

Até o próximo episódio!

Outras informações:

Dia 23/03 estreia Skam Itália. Aparentemente parece ser mais madura e dinâmica que a versão francesa. Confira o Trailer.

No dia 07 de março, Thomas Hayes fez 21 aninhos. Amado e odiado por muitos, ele ainda é a melhor versão de William.

REVISÃO GERAL
Nota:
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skam-france-1x05-episodio-05Faltando apenas quatro episódios para o final da primeira temporada, Skam France morre lentamente de sede em frente ao oceano, sem ao menos conseguir mostrar a sua relevância ou justificar a necessidade da sua existência.